Capa do relatório “State of Green Business 2022”

O grupo GreenBiz agrega diversos atores locais nos EUA, desde o setor produtivo até entidades representativas, com vistas a atuar como driver na adoção de padrões avançados de sustentabilidade em processos produtivos. Para tanto produz o relatório State of Green Business, onde apresenta os resultados e evolução dos temas relacionados a sustentabilidade durante o ano anterior (2021) e aponta para tendências e temas emergentes de curto, médio e longo prazos no ambiente de negócios.

A conexão da sustentabilidade com processos de inteligência empresarial é direta. Os profissionais de inteligência empresarial/competitiva consideram a construção de cenários e o monitoramento de aspectos do do mercado cruciais para estruturar estratégias robustas de negócios, com incorporação de tendências, temas emergentes e algumas incertezas na modelagem de processos e produtos, com vistas a manter a competitividade atual, expandir sobre outros nichos de mercado e estender a existência da empresa no tempo, agregando o crescimento sustentado e, com a agregação de aspectos ASG, o sustentável.

Com esta interface entre processos de inteligência empresarial e o cenário em sustentabilidade, o State of Green Business desponta como uma referência robusta para demonstrar as tendências que moldam o mercado com relação aos critérios ambientais, sociais e de governança. A análise dos documentos apresentados ao mercado nos anos anteriores demonstra a efetividade do Grupo GreenBiz em fornecer drivers para a evolução da questão da sustentabilidade empresarial, com grandes acertos em relação as tendências apontadas e adotadas pelo mercado.

No relatório de 2022 foram novamente apontadas grandes tendências de mercado, observadas pelos profissionais do GreenBiz em seus processos de produção de inteligência empresarial e competitiva. O grande driver das ações das empresas deverá ser o carbono zero, mas nao se limita a ele. De pronto, admite-se que não há como atingir o limite de 1,5 C de aquecimento sem uma profunda revolução no modo de extrair, produzir, distribuir, consumir e descartar ou reciclar. Este grande tema está presente e influencia as tendências capturadas na pesquisa.

A primeira tendência refere-se ao desafio do NetZero, com metas baseadas em ciência, ou seja, com o potencial de lutar contra o greenwashing e “climatewashing“, que exigirá das empresas mensurar, comprometer-se, gerir, reportar e progredir em direção aos padrões mais robustos de gestão de critérios relacionados às mudanças climáticas.

Nesta luta entram os agentes reguladores nacionais e investidores, que tem tornado iniciativas como o Task-force on Climate-related Financial Disclosure (TCFD) mandatórias para as empresas e para a avaliação das empresas em relação ao tema enfrentamento das mudanças climáticas, ao avaliar diretamente estratégias, os riscos e oportunidades, métricas e indicadores, quanto a urgente necessidade de adicionar um preço ao carbono. Tais iniciativas que tem sido citadas como drivers cruciais para construir um novo mercado global de baixo carbono com as restrições de 1,5 C.

Baseados nos resultados da COP 26, a percepção é a de que os governos dos países tem falhado em induzir a mudança necessária no ritmo necessário para produzir uma reversão da tendência de emissões crescentes, reforçando a necessidade das empresas em induzirem a mudança também, usando para isso seu poder de negociação, lembrando que muitos países e empresas podem atuar como bloqueadores de evolução neste tema, dependendo da estrutura social, econômica e produtiva dos países.

Com o incremento da importância de critérios ASG e necessidade de políticas e práticas robustas em sustentabilidade, outra tendência apontada é a necessidade de formação de quadros para atuar no tema. A expansão de vagas em sustentabilidade relaciona-se com a gestão de riscos, de empreendimentos e em saúde pública.

Em curto e medio prazo, a publicação aponta a necessidade de engenheiros de dados, com as novas necessidades de monitoramento e avaliação, designers de produtos, com a interface do design com a eficiência de materiais em todo o processo produtivo, e analistas de investimento, com vistas a identificar os indicadores chave de sustentabilidade nas estratégias e planos das empresas.

A formação destes profissionais e alocação no mercado é outra tendência apontada no relatório, com a necessidade dos profissionais de gestão de pessoas em incluir nos processos de seleção, treinamento e retenção das empresas e, porque não, de órgãos de governo, de profissionais com habilidades em sustentabilidade.

Outra tendência é que a reutilização, reuso de materiais passa a aparecer nas cidades, com o reaproveitamento de produtos que até bem pouco tempo atrás seriam descartados e encontrariam o fim do seu ciclo de vida em aterros e lixões. Esta é uma tendência que ja havia sido apontada por profissionais de economia circular, que a extensão da vida útil de produtos leva a uma menor pressão sobre novos recursos. Não por acaso temos várias empresas globais posicionando-se no reaproveitamento de resíduos para lançar novos produtos.

A partir desta nova realidade, que já está ocorrendo, o relatório aponta que há demanda por profissionais em economia circular. Profissionais que avaliam cadeias produtivas, processos produtivos e produtos, aplicam conhecimentos em design, estudam cadeias de fornecimento e materiais que podem ser incorporados aos processos produtivos de empresas causando um movimento positivo na gestão de impactos ambientais.

A redução de extração de produtos “virgens” da natureza pela utilização de princípios e técnicas de economia circular nas estratégias das empresas reduz a pressão também sobre a biodiversidade. Esta outra tendência coloca a biodiversidade como central nos critérios ASG a serem observados e incorporados, com métricas robustas, nas atividades empresariais.

A motivação da incorporação da biodiversidade, em relevância semelhante à das questões relacionadas às mudanças climáticas, exigirá o desenvolvimento de ferramentas para gestão da estratégia, de riscos e oportunidades em biodiversidade, do mesmo modo que tem sido exigido pelo TCFD com relação as mudanças climáticas. A tendência será rapidamente incorporada nas exigências às empresas com alto consumo de recursos relacionados a biodiversidade e exigirá, como disposto na tendência dos empregos verdes, a conexão de cientistas de dados aos demais profissionais de sustentabilidade.

A tendência da mudança de padrões alimentares também foi apontada pelo GreenBiz. A redução de consumo de commodities com alto potencial de gerar impactos ambientais, especialmente a cadeia de produção de proteína animal, tem potencial de alterar as dinâmicas territoriais em países cuja economia depende desta produção. O aumento da eficiência produtiva e a conformidade social, ambiental e de governança pode não ser suficiente caso o produto torne-se indesejável pela mudança das preferências dos consumidores causadas pela percepção de que tais impactos ambientais são insustentáveis.

Em relação à mineração e seus processos, ocorre a mesma exigência. A circularidade dos processos produtivos é crucial, considerando que a demanda por metais e minerais deve aumentar exponencialmente com a eletrificação da logística e veículos, bem como com as energias renováveis. Diversas empresas de recuperação de minerais e metais estão surgindo em todo o mundo tendo por base a circularização de processos produtivos globais.

E ligados diretamente a esta tendência na mineração e logística, a maior eficiência na distribuição de produtos exigirá das empresas de logística a operação com base em processos sustentáveis, com energias renováveis, sendo possível antever que a pegada de carbono na distribuição pode aparecer como fator de avaliação na escolha do que consumir. É um mundo tomando forma com a “moeda-carbono”.

A moeda-carbono, por sua vez, é um driver para a produção de energia renovável e efetivamente zero carbono, com cinco estratégias aparecendo como potenciais “game-changers“, a expansão das energias renováveis, a diversificação de fontes, aumento da eficiência no uso, a traceabilidade da energia utilizada de acordo com a fonte e a estocagem de energia em baterias, que tem efeito direto das demais tendências identificadas quanto a mineração, economia circular e empregos verdes.

Com tantas tendencias referentes a um novo ecossistema produtivo, há necessidade de identificar também o que é genuinamente mudança e o que passa a ser maquiagem verde. Investidores e agentes reguladores passam a ter métricas robustas para avaliar as atividades das empresas e classificá-las de acordo com a maturidade das suas estratégias, politicas e práticas e efetivamente posicioná-las quanto às mudanças necessárias para que o planeta não entre em rota de colapso.

A incorporação dos critérios ASG nas estratégias serão ainda mais escrutinados, avaliados e a perda de reputação será um risco alto a ser enfrentado. Afinal, se o barco é o mesmo, aquele que só faz festa na piscina não contribui tanto quanto aquele que ajusta a eficiência do motor do barco. Sustentabilidade não é mais caso de Relações Públicas ou comunicação.

E por falar em barco, a ultima e importantíssima tendência. A descarbonização da logística das viagens globais, sejam elas aéreas ou marítimas. A associação das empresas aéreas e dos investidores promove uma corrida por combustíveis renováveis e com menor emissão de carbono, bem como a associação das empresas de transporte marítimo estão promovendo a pesquisa por combustíveis menos intensos em carbono com potencial de reduzir as emissões globais do comércio. As redes de distribuição internas dos países ja tem visto investimentos em caminhões movidos a energia elétrica, promovendo uma descarbonização em massa, obviamente sem esquecer que a produção de baterias tem um importante componente ambiental negativo na extração de minerais.

Tais tendências para o curto prazo mostram o mais importante: movimento, escala, velocidade de mudança. Tão importante quanto apontar os riscos, conforme foi feito no post anterior do WEF, é mostrar que há caminhos sendo percorridos para acelerar a descarbonização e a desmaterialização da economia.

Cito a descarbonização e a desmaterialização para conectar os conceitos abordados pelo GreenBiz às pesquisas científicas sendo realizadas no âmbito da Sociedade Internacional de Ecologia Industrial. O mundo que emerge nesta década de 2021-2030 é um mundo que enfrenta riscos tremendos relacionados à gestão inadequada do meio ambiente e da incorporação insuficiente dos impactos ambientais e sociais no custo da manutenção do metabolismo das sociedades.

A Economia Circular aparece em várias das tendências, a necessidade de fechar os ciclos produtivos e aumentar a eficiência produtiva corre em paralelo com a necessidade de inclusão de vastos contigentes populacionais no consumo mesmo do mínimo necessário para a sobrevivência.

As soluções em larga escala sendo gestadas e implementadas neste exato momento reforça ainda mais a capacidade de gerar soluções, porém a incorporação dos custos ambientais e sociais precisa ainda ser acelerada. Muitos dos movimentos geram efeitos-rebote, no qual o ganho de eficiência gera mais consumo de recursos (conceito do Paradoxo de Jevons). Mais eletrificação gera mais impacto na mineração, que gera mais consumo.

Para evitar que a sustentabilidade seja a tarefa de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra morro acima durante o dia para que ela voltasse ao ponto inicial durante a noite, precisamos aumentar a velocidade da incorporação das soluções no dia a dia, difundir os conceitos de sustentabilidade para toda a sociedade, incorporar nas empresas os desafios de uma sociedade carbono zero e aproveitar os drivers para gerar menor impacto ambiental negativo e incrementar o impacto social positivo.

Mãos à obra.