A Economia Ecológica tem por premissa que toda atividade econômica ocorre dentro do sistema ecológico e que tais sistemas naturais tem funções de fontes de recursos e sumidouros para emissões resultantes dos processos econômicos, com suas respectivas capacidades de suporte e assimilação, cujos limites, se ultrapassados, podem resultar em impactos irreversíveis, de larga escala, e que podem comprometer a capacidade de suporte das populações que deles dependem.

A manutenção da estabilidade ecossistêmica tem sido reforçada por agências globais como a ONU, que estabeleceu a Década da ONU da Restauração de Ecossistemas até 2030, visando alterar as trajetórias e tendências de perda líquida acentuada de biodiversidade e, quem sabe, iniciar a recuperação de ecossistemas com vistas a agregar resiliência para enfrentar os grandes desafios ambientais das décadas que virão, dentre elas as mudanças climáticas causadas pelo aumento da concentração de carbono ou a perda acentuada de biodiversidade, cujo fenômeno tem sido chamada de sexta grande extinção. Este conjunto de impactos globais tem caracterizado a chegada do antropoceno, era geológica caracterizada pela escala dos impactos ambientais antropogênicos.

Dentre as iniciativas que visam gerir a perda de biodiversidade tentar reverter a tendência observada de perda líquida de biodiversidade destaca-se a iniciativa TNFD – Task Force on Nature-Related Financial Disclosure. A iniciativa surge da necessidade de incorporar o fator natureza/biodiversidade nas decisões de negócios, com a avaliação de impactos e riscos associados a biodiversidade oriundos das atividades econômicas humanas.

É uma iniciativa que visa desenvolver e implantar um modelo para gestão de riscos e divulgação pública para as diversas organizações para reportar e agir na redução dos riscos sobre os ecossistemas e reduzir a pressão do sistema econômico sobre o sistema ecológico do qual depende-se para gerar processos econômicos.

O quadro abaixo resume os conceitos fundamentais abordados pelo modelo TNFD. Em quatro “territórios” ou “grandes temas” (terra, água doce, oceanos e atmosfera), avalia-se o impacto sobre os diversos biomas globais e diversos parâmetros associados às fontes de recursos ambientais que sustentam os processos econômicos e os serviços ecossistêmicos em suas subdivisões, os serviços de provisão, serviços culturais e os serviços de regulação e manutenção.

A partir destes “temas”, o modelo TNFD propõe às empresas que avaliem suas políticas e estratégias em relação à natureza e consumo de recursos naturais, incluindo tanto os impactos gerados quando o grau de dependência dos recursos naturais para executar suas atividades fim.

Esta avaliação visa dotar de informações para construção de ações das instituições em governança, estratégia, gestão de riscos e métricas e metas e possibilitar o conhecimento pela própria empresa, investidores e demais partes interessadas de critérios de avaliação de impactos com consequências diretas sobre a viabilidade econômico-financeira das instituições.

Os riscos e oportunidades de mercado, de crédito, de liquidez e operacionais que eventualmente recairão sobre a empresa, em se concretizando os cenários de perda acelerada de capacidade de suporte do ambiente em sustentar os processos econômicos, são fundamentais em um cenário do Antropoceno onde as condições de produção irão tornar-se mais complexas em virtude do consumo acelerado de recursos ambientais acima da capacidade de recuperação destes ecossistemas.

Para efetivar a gestão dos impactos da instituição sobre a natureza por meio do modelo TNFD, os quatro principais passos estão descritos abaixo, num modelo denominado LEAP.

  • Localizar as interfaces da atividade com a natureza, porque em termos de natureza onde e como se produz é extremamente relevante;
  • Avaliar dependências e impactos para deixar claro quais são as prioridades e recursos necessários para a produção e permitir uma avaliação mais adequada da sua atividade;
  • Avaliar riscos materiais e oportunidades, bem como estratégias para gestão de riscos e novos negócios a partir da nova conjuntura de mercado; e
  • Preparar para responder e reportar aos riscos e alocação de recursos para proteger a atividade da empresa e adapta-la as necessidades oriundas da conjuntura de riscos crescentes em relação aos recursos naturais.

O modelo TNFD segue, também, o mesmo modelo disposto para o esquema da Task Force on Climate-Related Financial Disclosure (TCFD). As instituições devem deixar claro que tipo de estrutura possuem em termos de:

  1. Governança – Deixar claro e publico a estrutura de governança em relação ao tema recursos naturais;
  2. Estratégia – Deixar claro e público o impacto atual e potencial dos riscos relacionados a natureza e oportunidades em relação aos negócios , estratégia e planejamento financeiro;
  3. Gestão de riscos – Deixar claro e público como a instituição faz a gestão dos riscos relacionados a natureza por meio da identificação, avaliação e processos de gestão internos;
  4. Métricas e metas – Deixar claro e público as métricas e metas utilizadas para avaliar e gerir os riscos e oportunidades relacionadas a natureza.

Por ora, uma avaliação deste tipo quanto a estratégia, politicas, planos e programas de empresas pode dar luz aos necessários processos de inovação e adoção em grande escala de soluções baseadas na natureza para empresas, municípios, estados e países, resultando em aumento de resiliência, incremento líquido de “natureza” e, portanto, incrementando a capacidade de enfrentar eventos extremos que serão mais frequentes no Antropoceno.

Interfaces com a Economia Ecológica e o modelo TNFD

O modelo abaixo é uma simplificação das premissas básicas da Economia Ecológica. O planeta é um sistema materialmente fechado onde a extração de recursos e as emissões de gases, efluentes líquidos e resíduos sólidos ocorre na mesmo sistema necessário para garantir o fluxo de materiais para as atividades humanas.

Estes fluxos são regulados por ativos culturais, que determinam como as sociedades diversas consomem seus recursos e acumulam seus impactos sobre o sistema.

A proposta do modelo do TNFD pode, caso seja adotada, auxiliar as empresas a identificar e gerir riscos e oportunidades das suas atividades sobre a natureza, agregando um nível a mais de governança e, porque não, atuando como um driver importante para mudança de cultura nas relações com o sistema natural.

Ressalte-se, no entanto, que a adesão ao modelo não é certeza de redução das tendências de consumo acelerado de ecossistemas até o ponto de não retorno pelas empresas e consumidores, visto que o engajamento de tomadores de decisão públicos e privados, bem como de outras partes interessadas, são cruciais para incorporar a gestão dos impactos sobre os ecossistemas, evitando que os esforços sejam anulados por politicas contrárias à gestão de ecossistemas e natureza.

Um claro exemplo de contrafluxo é o exemplo da gestão das emissões de carbono. Apesar de mais e mais empresas e da divulgação das informações dentro do modelo TCFD, isso não evita que as emissões tenham aumentado globalmente em função do licenciamento de novas usinas de carvão em vários países e da autorização de exploração de petróleo no oceano.

Isso demonstra que mesmo de posse das evidências científicas mais robustas, e por mais que os relatórios do IPCC demonstrem que o risco de mudanças disruptivas está no horizonte de médio prazo e passando a ser o cenário mais provável, com impactos sobre o modo pelo qual as sociedades são organizadas, empresas e governos subestimam o risco pairando sobre as populações e as atividades econômicas.

Este é um desafio que o modelo TNFD e o próprio modelo TCFD precisam enfrentar.

Com a diversidade biológica, ou biodiversidade, ou natureza, e considerando que o antropoceno está propiciando o sexto episódio de extinção global, pode ser que o TNFD siga o mesmo caminho.