A South Pole, empresa de consultoria em estratégias para redução de carbono, efetuou uma pesquisa de mercado com diversas instituições financeiras para identificar quais os principais drivers e barreiras para a expansão da estratégia de net zero, disponível neste link.

Net Zero refere-se à capacidade da empresa em construir nas suas atividades de produção um balanço de carbono neutro, onde as emissões de gases de efeito estufa igualam-se às reduções e compensações necessárias para zerar a curva de emissões.

As barreiras identificadas pelos respondentes da pesquisa mostraram questões críticas para a consolidação das estratégias de net zero das instituições financeiras, com os seguintes gaps.

1.falta de critérios claros e específicos para as indústrias;

2. falta de progressos nas estratégias dos clientes;

3. falta de uma regulação clara e acessível;

4. falta de políticas, ambiente ou apoio das políticas governamentais;

5. falta de suporte pelos investidores;

6. falta de dados para efetivamente mensurar a redução de emissões e;

7. falta de interesse dos clientes de varejo nestes dados são barreiras importantes para o

Tais questões demonstram que há um caminho longo a trilhar quando se pretende tornar o tema mainstream, visto que a institucionalização do tema ainda não ocorreu com a devida intensidade, o que é preocupante, visto que se fala muito e se reune muito todo ano para discutir o tema e a percepção pelo sistema financeiro é a de que falta segurança no ambiente de negócios.

Outra questão que reflete o “espírito do tempo” é que 75% dos executivos das instituições financeiras não tem intenção de reduzir a exposição aos combustíveis fósseis, focando no curto prazo e nas sinalizações do ambiente de negócios e no ambiente político, enquanto apenas 1/3 das instituições efetivamente medem a intensidade de carbono de seus portfólios projeto a projeto.

Segundo as palavras do CEO da SouthPole, dois fatores principais são os responsáveis pela incerteza quanto à redução da exposição, a partir das evidências coletadas pela pesquisa.

  1. Incertezas quanto ao ambiente político e regulatório atrasa a estruturação de políticas e práticas efetivas para a redução de emissões e estabelecimento de metas e reforça o foco em resultados de curto prazo.
  2. Falta de critérios objetivos para mensuração de estratégias de descarbonização e NetZero gera incerteza quanto ao real potencial do negócio para chegar ao NetZero.

No entanto, ainda que os dois fatores elencados tenham sido citados como barreiras, algumas estratégias principais tem sido adotadas pelos executivos de instituições financeiras para a redução do risco climático das suas atividades. São elas a redução da exposição da carteira de clientes com alta intensidade de carbono em seu portfólio e a elaboração de estratégia junto ao cliente para auxiliar a estruturação de modelos financeiros para transição da atividade de alta intensidade para um estado com menos intensidade de carbono.

Obviamente as duas iniciativas exigem o desenvolvimento de modelo para obtenção de dados, avaliação mais aprofundada de indicadores de eficiência produtiva e de descarbonização, tema foi apontado como fragilidade. A eficiência de processos produtivos exige a expansão da análise baseada em dados, para que cada incremento em eficiência seja considerado dentro dos planos de investimento das empresas tanto com indicadores financeiros quanto com indicadores não financeiros, como o caso do carbono emitido por unidade de produto.

É importante ressaltar que a maior eficiência produtiva, ou Ecoeficiência, reflete um dos princípios da Ecologia Industrial, a redução do impacto ambiental por unidade de produto colocada no mercado, considerando da porteira pra dentro, ou os processos internos de produção, quanto a porteira pra fora, considerando as alternativas para escoamento e transporte para colocação em mercados.

Outros aspectos enfatizados pelo relatório é a que a transparência e Accountability são pontos cruciais de qualquer estratégia de NetZero. A transparência assegura que a empresa tenha seus dados avaliados pelo mercado e que haja uma real valorização de estratégias efetivas de descarbonização para além dos modelos de comunicação e marketing empresarial.

A Accountability refere-se às responsabilidades sobre ações e resultados que cada indivíduo, grupo ou organização deve ter, como atributo de consistência da estratégia empresarial e, em ultima instância, o quão alicerçada está a estratégia no longo prazo.

Tais características estão associadas às empresas que são benchmarks em seus mercados. A SouthPole indica quatro características gerais das empresas que são benchmarks na questão da transição para o baixo carbono, listadas abaixo.

  1. A gestão de emissões de carbono verificada por indicadores claros e mensuráveis;
  2. Os modelos alicerçados em dados para a modelagem da abordagem ao risco climático;
  3. Os planos de transição climáticos embebidos em todas as estratégias de negócios da empresa;
  4. A governança assegura que a estratégia climática da empresa esteja além das lideranças temporárias, esteja presente na cultura organizacional e não dependa somente do líder inspirador.

Algumas preocupações emergem da pesquisa, especialmente para quem acompanha o tema mudanças climáticas. Estratégias de empresas dependem de um ambiente de negócios razoavelmente estáveis e de que determinados temas sejam transversais nas estruturas de estado. A institucionalização, a elaboração de normas, as regras internacionais são importantes drivers para a consolidação de temas mínimos para a descarbonização de processos produtivos.

De acordo com os respondentes da pesquisa, barreiras em termos de legislação e requerimentos para indústrias financiadas ainda persistem, o que espanta, visto que todo ano ocorrem COPs destinadas a destravar a descarbonização.

Um exemplo de como pode ser estruturado um movimento efetivo, por exemplo, está no plano de descarbonização do transporte marítimo global, onde uma estratégia de longo prazo aborda a redução de carbono via mudança de combustíveis utilizados, design mais eficiente de navios, aumento da eficiência de motores, todas as ações baseadas no uso da melhor ciência disponível e com prazos e responsabilidades factíveis.

Não deixa de ser bastante preocupante que alguns dos problemas apontados pelos executivos de entidades financeiras citem problemas persistentes de obtenção e uso de dados em estratégias de descarbonização de atividades produtivas de seus clientes.

E, para concluir, temos visto que muitas das estratégias de adaptação tem sido bastante aspiracionais, sem o elemento concreto, e não consideram um fator básico: uma população crescente, com renda crescente também, irá pressionar ainda mais as atividades com maior intensidade de carbono, tais como a produção de cimento, aço, proteína animal, dentre outras.

Estes dois fatores implicam em tornar o aumento da eficiência produtiva baseada no baixo carbono um imperativo para governos, instituições financeiras e empresas que pretendem continuar a existir no longo prazo.