“Sustainability is based on a simple principle: Everything that we need for our survival and well-being depends, either directly or indirectly, on our natural environment. To pursue sustainability is to create and maintain the conditions under which humans and nature can exist in productive harmony to support present and future generations.” – U.S. Environmental Protection Agency.

A Springer publicou recentemente, no primeiro semestre de 2020, o livro “The Food-Energy-Water Nexus”, cujos editores são Peter Saundry e Benjamin Ruddell. Neste livro são organizados diversos textos sobre a tese baseada nas inter-relações entre a produção, distribuição, consumo e descarte de alimentos e ração, energia e água e que tais insumos são os cruciais para avaliação da sustentabilidade dos sistemas que garantam o fornecimento de tais insumos.

A estruturação do framework conceitual utiliza critérios para elegibilidade dos parâmetros que regem cada um dos sistemas e as interrelações.

1. São insumos críticos para a vida humana dos quais depende a vida moderna;
2. Dependem de infraestrutura física robusta para produzir, estocar, transportar, distribuir e entregar nos assentamentos humanos;
3. São intensivos em pegada ecológica, no que tange ao uso de recursos biofísicos para garantir a entrega;
4. Necessitam de segurança na periodicidade de entrega e nos custos de produção;
5. Necessitam de mecanismos robustos de governança em virtude do potencial de conflito.

A estes critérios ainda agregam-se parâmetros que determinam o consumo destes insumos fundamentais e os potenciais impactos associados, como o crescimento populacional e padrões de consumo, a poluição do ar, os serviços ambientais, as mudanças climáticas e a estrutura da economia, ou metabolismo da sociedade.

O metabolismo da sociedade é um conceito que vem sendo trabalho em Ecologia Industrial, como forma de identificar como o funcionamento das sociedades humanas impactam o uso de recursos e como se devem planejar as iniciativas por meio de políticas, planos e programas para reduzir o impacto ambiental da produção, armazenamento, distribuição, consumo e descarte ou recuperação de materiais e energia.

A introdução dos nexos é uma iniciativa importante para que, sob o ponto de vista técnico/científico, identifiquem-se os pontos de pressão mais efetivos para gerar resultados ambientais mais rápidos e políticas de longo prazo para gestão ecológica do ambiente, subindo um degrau no que se poderia chamar de gestão ambiental.

Não se deve desconsiderar, no entanto, que políticas, planos e programas são geridos por agentes políticos, sujeitos a expectativas e comportamentos não racionais, bem como a restrições em processos relacionados à gestão, bem como a capacidade de gerir, os recursos disponíveis, financeiros, humanos e as variáveis políticas que por vezes impactam a escolha de gestores, como o curto prazo e agendas ocultas.

De qualquer forma, as ferramentas e análises vem se multiplicando e apresentando insights importantes para avaliação da relação do metabolismo da sociedade com os processos territoriais e as variáveis políticas que devem ser atacadas para incremento da gestão ambiental publica e privada.

A leitura do livro texto de Economia Ecológica do Daly e Farley – Ecological Economics – Principles and Applications – nos coloca uma grande pulga atrás da orelha. Recursos naturais renováveis só são renováveis SE houver uma taxa de reposição adequada da população que se está explorando economicamente.

Para que sejam renováveis, os recursos deveriam ser extraídos numa taxa abaixo do rendimento máximo sustentável, visto que as populações de animais e plantas explorados economicamente são necessárias não somente para o consumo humano, mas para suprir funções ecológicas importantes no equilíbrio dinâmico de ecossistemas e aos serviços prestados pela manutenção deste equilíbrio.

Desta forma, recursos só seriam renováveis se, mesmo com a extração do recurso dentro dos limites do rendimento máximo sustentável, não houvesse perda das funções ecossistêmicas e dos serviços ecossistêmicos que prestam.

Isso posto, vamos à análise de uma notícia sobre um supertrawler, que foi chamado de “Estrela da Morte dos Oceanos”. Este supertrawler navega sob bandeira holandesa e tem por objetivo explorar o máximo possível (economicamente, não ecologicamente) no menor prazo possível, visando a dar o máximo de retorno sobre o investimento para seus investidores.

Ora, claro que sob uma sociedade capitalista todo investimento deve dar retorno e este retorno sobre o investimento não é eticamente condenável, porém, esta superexploração impacta diretamente a capacidade das espécies exploradas em manter as cadeias alimentares que promovem o fluxo e estoque de serviços ambientais dos quais todos dependemos.

Deste modo, qual deveria ser a postura dos investidores em navios com este potencial disruptivo de ecossistemas? Aqui e ali temos notícias de que supertrawlers estão sendo lançados ao mar para capturar o máximo possível de recursos no menor prazo possível para propiciar o máximo de retorno financeiro para os investidores.

Ocorre que, como toda discussão em termos de externalidades, ou seja, custos não incorporados ao valor financeiro, os valores relacionados aos ecossistemas empobrecidos ou destruídos não são capturados, causando uma avaliação subvalorizada do valor da manutenção dos ecossistemas e dos serviços prestados por eles.

Ora, se o objetivo é cumprir a tendência de morte dos oceanos em 2050, como diversos futurologistas vêm apontando, em se continuar o Business as usual nos oceanos, estamos na trajetória certa.

Certo também é que somos uma espécie extremamente diversa e que cada indivíduo responde a alguns tipos específicos de estímulo. Neste ponto, no entanto, privilegiar o financeiro para responder aos desafios da realidade impede que os demais, não sujeitos somente aos estímulos financeiros, aproveitem as maravilhas da diversidade neste mundo.

Do mesmo jeito, pode-se justificar que governos e investidores olhem apenas para o retorno sobre o investimento, a variável econômica, desprezando todas as demais áreas do conhecimento científico que sustentam a necessidade de mais ciência para melhor identificação de riscos e melhor gerenciamento de estoques sob o ponto de vista ecológico?

Esta é a pergunta de vários trilhões de dólares… Uma vez destruídas as cadeias alimentares e levadas as espécies à extinção, quais são os efeitos e os feedbacks positivos e negativos sobre os fatores que tornam possível a vida humana? Dependemos sim, fundamentalmente, da manutenção dos limites ecossistêmicos para uma vida produtiva, para gerar os fluxos de matéria e energia a que estamos acostumados. Estes fluxos, no entanto, necessitam dos estoques de serviços e produtos ecossistêmicos que possuem limites. Estes limites têm sido constantemente ultrapassados pelas necessidades de curto prazo dos superexploradores dos oceanos, sejam eles holandeses, espanhóis, chineses ou russos, para falar o mínimo.

Se é de se investir em sustentabilidade, se temos que gerir o planeta para as futuras gerações e para esta própria, precisamos incorporar mais indicadores da saúde dos ecossistemas aos nossos indicadores econômicos. Os sinais vitais estão sendo constantemente comprometidos, enquanto os discursos e as notícias capturadas no dia a dia nos falam o contrário destes discursos.

Não é problema novo, e talvez não haja mesmo uma solução. Talvez mais uma vez a lenda de Cassandra se confirme. Os sinais vitais claramente ignorados, alguns abnegados gritando diante do colapso e a maioria trabalhando para que o modelo insustentável se mantenha.

Se é de recuperar a economia após a pandemia do Covid-19, que seja em moldes sustentáveis e agregando ainda mais indicadores de saúde ecossistêmica. O planeta é só esse, habitado por pessoas que pensam diferente, mas monopolizado por aqueles que têm olhos somente para os indicadores financeiros.

As unidades de conservação são áreas onde as atividades econômicas são restritas visando proteger o patrimônio natural, de forma a assegurar que os processos ecológicos ali existentes possam beneficiar as gerações atuais e gerações futuras.

A proposta da criação da Reserva Marinha nas ilhas Seychelles, relatada no artigo da Yale Environment 360, pretende servir como sinalização clara de que a preservação ambiental é um tema caro às Ilhas Seychelles e que a proteção do seu ambiente servirá para gerar empregos e renda relacionados à conservação ambiental.

São cerca de 400.000 quilômetros quadrados, com metade destinada à conservação integral, com proibição para a pesca e mineração, e a outra metade dedicada ao uso sustentável de recursos naturais renováveis e não renováveis.

O presidente do país, Danny Faure, coloca como um dos drivers para a conservação desta área a necessidade de proteger espécies em extinção, as quais são importantes para o turismo de observação, especialmente as relacionadas às paisagens e atividades de ecoturismo.

Os recursos para proteção da unidade de conservação são oriundos de um blue bond, título de dívida emitido em nome do país com o propósito específico de financiar processos produtivos sustentáveis e a gestão ambiental dos recursos naturais da ilha. Evidentemente, há necessidade de estruturação de um sistema robusto de fiscalização da aplicação da lei, estabelecimento de parcerias público-privadas para aproveitar o meio ambiente conservado como estoque de meio ambiente gerador de fluxo econômico e incrementar os modelos para monitoração das áreas protegidas.

O modelo seguido por Seychelles demonstra uma evolução do que convencionamos chamar sistemas de gestão ambiental públicos e privados, incorporando como valor para atração de investimentos a conservação de recursos naturais e a transformação do capital natural em fluxo de investimentos, empregos e renda para a população local e pode ser um modelo replicável em países com ativos ambientais altamente atrativos.

No Brasil as áreas protegidas são conceituadas e organizadas em categorias no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), cuja lei definidora (o que não está escrito não está no mundo) é a de n.º 9985/2000. Possui fundos e recursos para aplicação em programas ambientais que dificilmente tem saída, reduzindo o potencial de utilização do Sistema como gerador de empregos e renda.

A lei divide as unidades de conservação entre aquelas de proteção integral, unidades cujas características exigem proteção maior, e unidades de uso sustentável, cujas características permitem o uso sustentável e a conservação ao mesmo tempo.

A proposta recente de abrir ao capital privado as unidades de conservação no Brasil tem um bom potencial para gerar o desenvolvimento e a proteção que nossas áreas de conservação necessitam, bem como consolidar a imagem do país, que vem sendo desgastada pelo discurso do governo Bolsonaro do meio ambiente como empecilho para o desenvolvimento (repetindo os anos 1970), como detentor dos maiores ativos ambientais globais.

Adicionalmente, como um driver para a valorização do ativo ambiental, e aí entra o mercado com força, as agências de rating do mercado global ensaiam iniciar a avaliação dos países e consequentemente a atratividade de seus bonds por critérios objetivos para mensurar políticas sociais, ambientais e de governança de seu patrimônio natural.

Ou seja, por mais que certos discursos apontem para o país como parado nos anos 1970, período de ditadura e direcionamento central, as políticas de investimento que emergem na segunda década do século XXI apontam que os países com políticas e práticas inconsequentes com relação ao meio ambiente efetivamente estarão jogando dinheiro pela janela nesta era de capital global.

As decisões de investidores globais, baseadas em critérios objetivos de gestão do ativo ambiental, serão o novo normal. Este novo normal irá impactar o Brasil e o seu ativo ambiental deverá ser gerido de acordo com os padrões mais restritos de gestão ambiental.

Que tal antecipar-se a este novo mercado e efetivamente gerir o nosso patrimônio comum? Nosso país precisa de poupança externa, geração de empregos e renda. Quanto antes incorporarmos tais critérios em nossa avaliação, mais recursos atrairemos.

State of Green Business 2020

Em complemento à visão dos riscos, apesar de serem dois documentos desconectados a princípio, o GreenBiz 2020 apresentou o relatório “State of Green Business 2020″, no qual apresenta as 10 maiores tendências para o mercado da sustentabilidade em 2020, bem como relata os maiores avanços ao longo dos anos com base em indicadores claros de desempenho em sustentabilidade. Este mercado está crescendo bastante e gerando inovações em vários campos.

A crescente relevância dos riscos associados à gestão das emissões de gases de efeito estufa tem gerado respostas diversas aos desafios de reduzir as emissões, reduzir riscos e gerar novas oportunidades de mercado.

Neste relatório o pessoal do GreenBiz relaciona dez tendências a serem observadas no ano de 2020 e que terão impacto sobre as estratégias das empresas e cadeias produtivas. Faremos um pequeno resumo, porém indicamos a necessidade da leitura do material completo.

  1. Poseidon Principles – O comércio global é feito por navios de grande porte e estima-se que cerca de 3% das emissões globais de Gases de Efeito Estufa estão associadas à logística necessária para a globalização dos mercados. Atentas a este cenário, as empresas de transporte marítimo concordaram em estabelecer os Princípios de Poseidon. De acordo com tais princípios, será necessário investir pesadamente em eficiência de motores, gerando pesquisa e inovação, logística avançada com base nos cálculos das rotas mais eficientes, usando as tecnologias da informação, gerando oportunidades de financiamento do retrofitting de navios antigos, novas estruturas integradas de distribuição, dentre outros. A International Maritime Organization (IMO) estabeleceu a meta de redução de 50% das emissões até 2050, o que resulta que cada navio deveria reduzir suas próprias emissões em 85%. O tamanho do desafio resulta em investimentos em P&D, desenho de melhores máquinas e, considerando o poder da indústria, uma efetiva redução de emissões.
  2. Nature-Based Solutions – A adoção de soluções naturais para reduzir emissões e impactos ambientais tem sido o foco de grandes empresas globais. Envolve usar o potencial de serviços ecossistêmicos para resolver os grandes desafios globais relacionados à emissões de Gases de Efeito Estufa e reduzir os riscos de crises hídricas. Dentre os exemplos já em adoção temos o plantio de árvores em quantidade na China, formando uma muralha verde e reduzindo o risco de desertificação, a renaturalização de margens de rios na Europa, a redução da velocidade de desertificação em países da África. A economia da recuperação ambiental torna-se mainstream, e dentre as iniciativas estão a gestão de bacias hidrográficas, o reflorestamento, a arborização de cidades e a recuperação de áreas degradadas.
  3. Logística de distribuição local – transição para os veículos elétricos e outras opções logísticas de baixo carbono ocupam um local privilegiado para a redução de emissões e outros impactos ambientais associados às cidades. Em cidades onde as crises já são bastante sentidas, como as grandes cidades da China, a transição para os transportes elétricos ocorre em passo acelerado, bem como nas cidades da Europa. Empresas de logística e distribuição tem olhado para as inovações visando reduzir suas externalidades relacionadas ao uso de combustíveis fósseis e estão levando esta ação à frente.
  4. Empresas especialistas em remover o excesso de CO2 da atmosfera – O uso de tecnologias para remover ativamente grandes quantidades de CO2 da atmosfera capturando-o por meio de técnicas regenerativas de solos degradados e em biomassa tem crescido bastante. Grandes empresas tem exigido a compensação de suas emissões em projetos de incorporação de carbono em biomassa e este mercado para áreas degradadas apresenta uma tendência interessante, especialmente para países como o Brasil, cujas metas para redução e recuperação incluem 12 milhões de hectares de florestas.
  5. Reportes sobre os riscos físicos das mudanças climáticas exigem das empresas novos modelos para avaliação. O TCFD – Task Force On Climate-Related Disclosure – tem exigido das empresas que quantifiquem o risco físico, bem como os custos de transição e a elaboração e publicação de cenários. Esta publicação de cenários tem sido usada por investidores para estimar o valor das empresas e as perdas potenciais e já relacionadas às mudanças climáticas. À medida em que avançam os efeitos das mudanças climáticas, como as crises severas ocorridas em 2019, a régua de risco e atratividade das empresas tende a mudar. A incorporação do valor do carbono nas atividades das empresas alteram, inclusive, a viabilidade de investir-se ou não em determinados setores que serão potencialmente afetados pela avaliação de risco-retorno de investidores.
  6. Ativismo ambiental pelos funcionários das empresas, incluindo CEOs, comitês de administração e comitês diretores – As pressões para adotar o propósito ambiental nas atividades das empresas tem sido efetivas para mudar processos produtivos, bem como envolver os empregados das empresas nas inovações relacionadas ao tema. Um exemplo claro é o green bond emitido pela Apple para financiar a sede em Santa Clara.
  7. Retrofitting de edifícios para torná-los 100% sustentáveis em termos de energia. Estima-se que 40% das emissões de gases de efeito estufa tenha por origem os edifícios e que metade dos edifícios comerciais existentes sejam de antes de 1980. Este fator abre um grande mercado para os green buildings, com atualizações tecnológicas que necessitarão grandes quantidades de modelos financeiros para viabilizar a emissão zero. A regulação pode ser uma grande pressão adaptativa para a atualização tecnológica, gerando um novo mercado.
  8. A economia circular torna-se cada vez mais mensurável com o avanço das técnicas em ecologia industrial. A quantificação dos fluxos materiais e de energia nas economias nacionais, regionais e locais aponta os gaps de atuação e as necessidades de adoção de políticas, planos e programas específicos. Nas empresas os processos produtivos são desenhados para promover o máximo de eficiência material e energética possível e reduzir o impacto sobre o meio ambiente e em termos de produto a Avaliação de Ciclo de Vida aponta os melhores materiais e alternativas tecnológicas para gerar mais eficiência e sustentabilidade. Todos estes processos assentados em técnicas que promovem a identificação de fontes de recursos, o design de produtos, a incorporação do descarte e reaproveitamento neste design, a adoção de infraestrutura específica para desmontar e destinar os componentes, com a consequente mudança nas relações entre fornecedores, consumidores, acionistas e colaboradores nas empresas.
  9. Alternativas para fontes de proteínas animais “não animais”. Antecipando o impacto que a afluência terá sobre o consumo de proteína animal por países em todo o mundo e o impacto ambiental da produção desta proteína, diversas start-ups tem desenvolvido a bioengenharia e a engenharia de alimentos sintéticos. As grandes cadeias globais de alimentos já olham para este mercado e já testam produtos, com a expectativa de substituir em 10 anos cerca de 10% do mercado de proteína animal pela proteína sintética. Em estimativas do consumo de proteína sintética em 2019 chegou-se ao número de 228 milhões de unidades servidas nos EUA, com grande potencial para expansão.
  10. Relato em Sustentabilidade Corporativa – Uso de inteligência artificial para monitorar informações sobre as empresas e disponibilizá-las para investidores e demais partes interessadas é parte da evolução do tema neste ano. As empresas e suas políticas de compliance e disclosure ficaram ainda mais expostas ao escrutínio das partes afetadas pelas suas atividades e precisarão melhorar seus indicadores de desempenho ASG e reportá-los praticamente em tempo real, com os riscos associados à perda de valor por riscos de imagem, riscos de mercado, riscos climáticos, dentre outros.

Estas dez tendências fazem parte do relatório, porém temos também a parte do monitoramento dos sinais de que a sustentabilidade está entrando no dia a dia do mercado e as empresas estão puxando a agenda cada vez mais à frente, independente muitas vezes do interesse dos governos ou estados.

As empresas com pretensões de atuar no mercado global, competindo por recursos escassos para a expansão de suas atividades e para a construção de valores intangíveis associados às suas marcas precisam estar atentas a este novo cenário, às tendências e adotar planos de ação efetivos para acompanhar tais mudanças, sob o risco de falhar em gerar valor no médio e longo prazo.

 

Global Risks Report 2020

O Fórum Econômico Mundial lançou em 15.01.2020 o Relatório de Riscos Globais, versão 2020.

O relatório tem por objetivo identificar fatores de exposição ao risco por meio da consulta a diversas partes interessadas globais, com a identificação de impacto potencial cruzado com a probabilidade de ocorrência. Muitos dos fatores identificados tem migrado ao longo dos anos e conquistado relevância quando se avalia a necessidade de gestão e de atenção, bem como tem impactos em políticas públicas e privadas destas partes interessadas, visando reduzir riscos e gerar oportunidades.

Como exposto nos textos anteriores neste blog (2015, 2018, 2019), e dentro da visão que nos orienta, o da Economia Ecológica, o Sistema Econômico é um subsistema do Sistema Ecológico e o colapso neste sistema leva ao colapso daquele sistema. Os fatores apontados tem impacto direto nos demais fatores sociais e econômicos, considerando o sistema complexo que é o planeta Terra.

Matriz impacto probabilidade

Fonte: Global Risks Report (OECD 2020)

 

As questões que emergem da consulta aos especialistas realizada pela Fórum Econômico Mundial posicionam dentre os 10 principais riscos (impacto x probabilidade de ocorrência) seis fatores diretamente ligados ao meio ambiente .

Fatores

Fonte: Global Risks Report (OECD 2020)

As probabilidades de ocorrência são diretamente afetadas pelos dados coletados durante o ano de 2019 e às informações disponíveis aos públicos de interesse, bem como a percepção construída de que os fatores ambientais, sociais e econômicos estão intrinsecamente ligados. Eventos climáticos extremos, falhas em ações relacionadas às mudanças climáticas no que tange à mitigação das emissões e adaptação às mudanças já observadas, desastres naturais aumentando em frequência e intensidade, a perda de biodiversidade associada aos desastres naturais e eventos extremos, bem como à superexploração de recursos naturais renováveis, aos desastres naturais causados por humanos, como as queimadas na Austrália e Brasil. Completam a lista das 10 maiores probabilidades as fraudes eletrônicas, ciberataques à infraestrutura de países, crises hídricas, falhas na governança global e bolhas financeiras.

Quanto ao impacto gerado pela ocorrência dos fatores, os especialistas consultados categorizaram, em ordem decrescente, a falha nas ações climáticas, as armas de destruição em massa, a perda de biodiversidade, os eventos climáticos extremos, as crises hídricas, as crises na infraestrutura de informação, os desastres naturais, os ciberataques, os desastres naturais causados por ação humana e as doenças infecciosas.

Obviamente o ano de 2019 foi pródigo em enfatizar a importância do ambiente para as atividades econômicas e a necessidade de adaptação dos processos produtivos aos riscos apontados para a economia e para a sociedade. A avaliação inadequada dos riscos, impactos relacionados com probabilidade, leva a respostas insuficientes e com potencial de influenciar diversos outros fatores.

Como bem sabido, um impacto pontual causado por determinado fator tem efeitos sistêmicos, pois há inter-relações fortes ou fracas com outros fatores. No caso das mudanças climáticas e o desenvolvimento de uma infraestrutura resiliente, o atraso na identificação de fatores e nas ações de mitigação e adaptação aumentam o custo das crises. Um dos gráficos do trabalho que enfatizam as inter-relações demonstram claramente o potencial de disrupção dos fatores ambientais em relação aos demais fatores que eles influenciam.

inter-relações

Fonte: Global Risks Report (OECD 2020)

A inter-relação dentre os fatores e a percepção das partes interessadas consultadas posicionam as falhas na mitigação das emissões de gases de efeito estufa e na adaptação às mudanças climáticas como cruciais para a gestão de riscos para a humanidade. Como os indicadores tem mostrado, as emissões tem aumentado e as estratégias para mitigação e adaptação não tem sido efetivas para manter as mudanças dentro dos limites estabelecidos pelo IPCC, de no máximo 1,5 grau centígrado até 2100. A tendência atual é extrapolar estes limites e entrar na área cinzenta das consequências não lineares e não intencionais, para as quais não há gestão de riscos possível e sim gestão de crises e contingências.

Neste ponto a desinformação pode ter um papel fundamental em atrasar as respostas necessárias para a gestão de riscos. Há uma ação deliberada em causar dúvidas com relação aos fundamentos científicos das mudanças climáticas. Neste ponto, enfatizamos que há um corpo robusto de estudos que corrobora a tese da mudança climática e os possíveis efeitos sobre as atividades humanas. O gestor, seja ele público ou privado, tem todo o direito de duvidar ou questionar, mas não pode de maneira alguma desacreditar informações científicas e econômicas e reduzir o potencial impacto que um fator global como as mudanças climáticas tem de afetar as atividades sociais e econômicas e o potencial de disrupção de cadeias globais de suprimento.

Portanto, tendo em vista a movimentação dos fatores desde o primeiro trabalho sobre os riscos globais capitaneado pelo Fórum Econômico Mundial, tais sinalizações deveriam obrigatoriamente constar do planejamento dos países, sob pena dos custos de adaptação e mitigação tornarem-se altos demais para serem pagos. Negar que as mudanças climáticas tem um efeito sobre a estabilidade social e econômica, ou categorizá-la como uma farsa tem o poder de gerar desinformação e, principalmente, de gerar inação. Não se trata de dar voz às visões apocalípticas oriundas da captura da questão por alguns ideólogos anticapitalismo, mas sim de gerir adequadamente riscos com potencial de disrupção social, econômica e ambiental.

A revista The Economist produziu dois filmes (Can ecotourism save the planet? e Can conservation save our ocean?) sobre o potencial do Ecoturismo para gerar desenvolvimento sustentável, tendo em vista que promove a valoração da biodiversidade como um ativo ambiental a ser mantido como estoque, que gera um fluxo de consumo de serviços.

De volta da terceira viagem ao México, em dois anos, para aproveitar as maravilhas das áreas protegidas, é impossível não verificar o quanto o país se beneficia da preservação e conservação ambiental associada ao Ecoturismo. Preservação ambiental refere-se à restrição do uso de recursos, como uma poupança. A conservação é o uso racional e planejado de recursos, visando estabelecer um fluxo econômico pelo consumo dos produtos e serviços associados.

Jacques Cousteau já chamara a região da Baja California de Galapagos do Norte e Aquário do Mundo, revelando já na década de 1970 que o caminho mais adequado para aquela região talvez fosse a conservação e preservação ambiental. Desde a segunda metade da década de 1990 até os dias de hoje o que se vê é o uso da biodiversidade para atrair turistas com disposição a pagar por áreas protegidas e os benefícios decorrentes de uma economia mais complexa.

A península da Baja California possui dentre seus vários atrativos o uso da biodiversidade local para gerar retorno financeiro, desde o turismo de observação até o mergulho recreativo, passando pela pesca esportiva. Em 1994 o arquipélago de Revillagigedo foi declarado Área Natural Protegida. O panorama à época (2 anos depois da Eco’92) era de degradação, com pesca predatória, destruição de ecossistemas, foco no extrativismo predatório, gerando retorno econômico baseado em empregos de baixa qualidade.

Em dezembro estive no barco Belle Amie com um grupo de brasileiros, todos com disposição para passar uma semana num barco pelo prazer de mergulhar e ver a grande fauna marinha do Arquipélago de Revillagigedo, composto por quatro ilhas a 28 horas de navegação da costa. Cada pessoa que passa uma semana num liveaboard gasta em média R$ 30.000,00, entre hospedagem, passagens áreas e os mergulhos. São gerados empregos qualificados e impostos locais, o que resulta num feedback positivo para a economia da conservação.

Quando se avalia o panorama brasileiro, desde 2000 o Brasil construiu sua legislação sobre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, a lei 9985/00, no qual o legislador tinha por objetivo capturar o valor da preservação e conservação. Com a estruturação do Instituto Chico Mendes na década de 2000 a ideia foi institucionalizar a preservação e conservação como modelo de estruturação da Economia da Conservação, cujos resultados são pujantes nos EUA e seu sistema de unidades protegidas, nas ilhas Cocos, na Costa Rica, na Republica Dominicana, na ilha de Fernando de Noronha no Brasil e na Baja California.

A possível evolução da concessão de unidades de uso sustentável (uma das categorias previstas em lei) pode alavancar esta importante área da Economia e com atratividade cada vez maior dentre turistas europeus, americanos e asiáticos. Tais planos, no entanto, estão em contradição com a idéia de transformar determinadas áreas do país em uma “Cancun”. Este tipo de turismo de Cancun parece deslocado da realidade e desconectado do caminho evolutivo que vem sendo trilhado desde a década de 1980, do aproveitamento do potencial natural para gerar empregos e renda.

Adicionalmente, outro grande problema identificado para fomento do turismo sustentável é a infraestrutura insuficiente das cidades litorâneas brasileiras, com potencial porém necessitando fortemente a agenda do saneamento, gestão de resíduos, mobilidade, qualificação profissional e venda da sustentabilidade como produto, para que esta seja a chave de que o Brasil precisa para receber mais turistas com disposição a pagar mais pela qualidade ambiental e sustentabilidade. A sustentabilidade é o asset.

A lição que se tira de uma semana de mergulhos em áreas protegidas é a de que é possível em período de 20 a 30 anos mudar os processos econômicos baseados na exploração predatória de recursos e planejar a entrada de uma região inteira na Economia da Conservação e Preservação Ambiental e, por que não dizê-lo, com a Recuperação de Áreas Degradadas e criação de empregos, renda e impostos que beneficiam toda a região.

Tendências são temas estruturados que emergem do macroambiente com poder de afetar estratégias de governos, empresas e consumidores. Em geral utiliza-se o framework de análise de mercado denominado PESTAL – Político, Econômico, Social, Tecnológico, Ambiental e Legal – para identificar temas que podem afetar diretamente a entrada, a manutenção ou saída de determinados mercados ou alterar o comportamento de stakeholders.

Dentro do processo de inteligência as instituições (conceito mais abrangente do que somente empresas) tem que estar atentos às mudanças deste macroambiente para identificar os riscos e oportunidades inerentes à atividade. Uma das fontes de informação são os think-tanks, organizações que funcionam como laboratório de ideias, gabinetes estratégicos, centros de pensamento ou centros de reflexão com potencial para estruturar o futuro por meio da ação estratégica junto às empresas, governo e sociedade.

O Greenbiz.com é um destes think-tanks. Seu posicionamento é o fomento de iniciativas empresariais e governamentais em sustentabilidade visando direcionar investimentos e o mercado para processos produtivos mais eficientes e redução de riscos de disrupção da natureza devido à sobre-exploração de recursos naturais.

Este grupo lançou relatório recente sobre 6 tendências para economia circular que darão forma a 2020, no qual destacam tais tendências de mercado nos EUA e Europa com potencial para afetar o jeito pelo qual produzimos, consumimos, descartamos ou reciclamos os resultados de nosso consumo.

A primeira tendência refere-se às políticas públicas para a gestão da produção de resíduos. Há uma forte tendência de reforçar a responsabilidade estendida ao produtor, que pretende tornar o produtor de embalagens responsável pelo seu tratamento. Durante 2019 diversas empresas foram cobradas pela sociedade para gerir os resíduos do consumo, mesmo que implique em aumentar o preço do produto para incluir o custo de coletar, reciclar ou destinar adequadamente os resíduos pós consumo. Na Califórnia, estado usado como referência, há política, planos e metas para redução do uso de embalagens plásticas pós consumo em até 75% para 2030.

A segunda tendência é a colaboração para reuso de materiais e empacotamento. Esta tendência tem sido estudada pela Ecologia Industrial nos complexos eco-industriais, nos quais descartes de determinadas empresas tem sido usados como insumos produtivos por outras, aumentando a eficiência dos sistemas e a complexidade. O texto cita que a colaboração entre empresas e seus fornecedores tem sido crucial para endereçar adequadamente o desafio de fechamento de ciclos materiais, aumentando a produtividade e introduzindo de forma setorial a preocupação ambiental das empresas envolvidas nas indústrias de empacotamento e reciclagem de papel e plástico.

A terceira tendência é a utilização de refil pelas empresas. A sinalização de que o tema chegou para ficar e influenciar e modificar hábitos de consumo é a de que cada vez mais as marcas conhecidas estão utilizando o modelo de refil para reduzir a quantidade de insumo utilizado no empacotamento. O relatório destaca as empresas de saúde e limpeza e as novas maneiras de induzir o consumo de menos material, usando inclusive o sistema de take-back, onde o consumidor que recicla o seu material é compensado monetariamente por mecanismos de Radio Frequency Identity (RFID), quando ele usa refil ao invés de comprar nova embalagem.

A quarta tendência é a reciclagem de químicos em escala comercial, destacando as pesquisas das indústrias para recuperação de produtos químicos potencialmente danosos à saúde e ao ambiente. As empresas tem se reunido em clusters produtivos para reduzir o descarte e maximizar a vida útil das embalagens.

A quinta tendência é a responsabilização da indústria da moda pelo resíduo gerado, com o fomento de novas visões sobre a moda e o consumo “descartável”. A questão da extensão do ciclo de vida de produtos entra definitivamente na forma como a sociedade escolhe sua cesta de consumo. Um exemplo claro é a linha de roupas da adidas que é feita com redes de pesca descartadas, que criou uma nova cadeia produtiva e fonte de recursos para os pescadores em nível global, com vistas a introduzir o conceito de materiais infinitamente reutilizáveis, e a extensão de ciclo de vida de produto pelo aluguel de roupas e pela coleta de roupas que não são mais utilizadas pelos consumidores.

A sexta tendência é a estruturação de ações para retirar produtos tóxicos do sistema produtivo. Esta tendência considera tanto os produtos tóxicos que são produzidos hoje quanto o passivo já gerado e acumulado na sociedade. Pesquisas tem demonstrado que há acúmulo de produtos químicos em toda a cadeia produtiva e os poluidores orgânicos persistentes estão espalhados em diversos produtos do nosso dia a dia, desde as embalagens de comida até brinquedos de crianças. Este é um dos indicadores que aparecem numa avaliação de ciclo de vida e que ainda não foram incorporados como preocupação ambiental no mesmo nível das mudanças climáticas, porém com efeitos devastadores sobre a saúde também.

As tendências geram ações. Tais ações se materializam em termos de regulação estatal, autorregulação pelas associações de empresas, pressão de consumidores conscientes sobre processos produtivos com alto potencial de gerar dano para a sociedade. Apesar do think tank estar sediado nos EUA, onde os movimentos da sociedade civil são mais fortes e atuantes sobre a atuação do parlamento americano, tais tendências poderão irradiar para o Brasil, que está ainda nas franjas de tais preocupações. O que nos dá certa perspectiva positiva é que há movimentação e pressão para adoção de padrões mais eficientes e menos impactantes de gestão ambiental que vão desde a extração até o descarte e reaproveitamento em novos ciclos produtivos.

O documento demonstra uma evolução na gestão ambiental pública e privada e aspectos de macroambiente que não podem passar despercebidos a quem acompanha a questão.

Estado do Ambiente na Europa e Key Performance Indicators

Os Key Performance Indicators (KPI) são indicadores utilizados para avaliar a aplicação de determinadas ações e seus resultados e são importantes para verificar se as estratégias, políticas, planos, programas ou projetos estão entregando os resultados propostos na fase de design. Outra função importante dos KPI’s é permitir aos gestores e demais partes interessadas que avaliem continuamente os resultados esperados e se há necessidade de alterar ações para corrigir possíveis resultados indesejados.

Um dos princípios fundamentais dos processos de gestão é monitorar os indicadores de desempenho. Estes indicadores devem ser específicos, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e localizados num espaço temporal factível, para que a proposta de mudança seja adequadamente alcançada.

A Agência Ambiental Europeia publica anualmente o relatório “State of Environment”, que em sua versão de 2020 (disponível aqui) analisa os indicadores de sustentabilidade do continente e se as ações sendo implementadas pelos estados que constituem a União Europeia permitem afirmar se os objetivos da Política Ambiental estão sendo alcançados, se estão no caminho planejado ou se estão fora do planejado.

Fonte: Europe’’s state of the environment 2020: change of direction urgently needed to face climate change challenges, reverse degradation and ensure future prosperity

A discussão sobre a alta de emissões de gases de efeito estufa (GEE), que vem seguindo uma tendência fora do que está planejado até 2030 na Europa e no resto do mundo, é indicativo para os tomadores de decisão e demais partes interessadas de que ações ainda mais efetivas devem ser tomadas para que o indicador emissão de gases de efeito estufa seja atingido, com efetiva redução.

Fonte: Europe’’s state of the environment 2020: change of direction urgently needed to face climate change challenges, reverse degradation and ensure future prosperity

Ao avaliar-se, no entanto, se este KPI será alcançado globalmente, é crucial entender qual o poder de redução de emissões que a Europa tem em relação aos demais países do mundo, e se efetivamente reduzindo as emissões absolutas o impacto será grande em termos relativos.

Ao avaliar-se se países cruciais como os EUA (que anunciam sua saída do Acordo de Paris e implementam políticas públicas e privadas que levam ao aumento de emissões), China, cuja população está entrando na sociedade do consumo, Índia, com mais de um bilhão de pessoas com necessidades críticas sem suprir, e África, com investimentos massivos em infraestrutura, obtém-se um cenário que se apresenta contra os compromissos de redução assumidos.

Incluindo-se na análise a teoria dos jogos, se um ou mais dos atores estratégicos e cruciais, com grandes emissões, se retira do jogo, e estes atores tem alto impacto e alto poder de negociação, os demais atores se sentem com menos disposição a assumir responsabilidades. Talvez o grande problema causado pela saída dos EUA (segundo maior emissor global) tenha sido afrouxar o laço que deve haver entre os países nas relações internacionais para reduzir o potencial impacto das mudanças climáticas, com a assunção de metas ambiciosas para mudar os processos produtivos e a gestão das emissões nas cidades, dentre outros.

O KPI emissões de gases de efeito estufa tem demonstrado estar fora do objetivo até 2030, seguindo uma tendência de alta, e talvez as soluções propostas para atingir as metas sejam irreais. Quais seriam as alternativas para ao menos colocar as curvas de emissões “on track” para atingir os objetivos e, principalmente, qual será o custo das alternativas? Isso determina as estratégias, as políticas, os planos, os programas e projetos que deverão ser implementados.

 

 

Reciclagem da infraestrutura das energias renováveis

A produção de energia demanda infraestruturas diversas para sua transmissão e distribuição. Como bem sabemos, esta infraestrutura para que os processos econômicos aconteçam também exigem manutenção constante e atualização tecnológica, dentre outros processos que assegurem que a eficiência no uso de energia seja mantida ou apresente incremento, visto que tudo que é produzido está sujeito à depreciação e perda de eficiência.

Artigo da Scientific American reforça a necessidade de que a infraestrutura necessária para produzir, transmitir e distribuir energia renovável (não somente) seja planejada e implementada sob os conceitos de Life Cycle Thinking (LCT) e Design for Environment (DfE), adotando de saída a perspectiva de levantar os potenciais impactos de materiais e processos necessários para gerar os produtos desta cadeia produtiva, causando o menor impacto possível desde a fase de planejamento até a fase de descomissionamento, descarte ou reaproveitamento de materiais.

A falha de design foi citada na Scientific American em virtude da quantidade crescente de resíduos sendo gerados pela energia eólica (pás grandes cujo descarte e reaproveitamento é antieconômico, sendo frequentemente abandonados no local onde foram instaladas) e os gerados pela energia solar (cujos materiais não são facilmente reaproveitados a um custo competitivo com o simples descarte).

Fonte: Scientific American (acessado em 17/10/2019)

O pesquisador Martin Keller do Laboratório Nacional de Energias Renováveis dos Estados Unidos ressalta que para sustentar que as energias renováveis de fonte eólica ou solar são as alternativas mais limpas possíveis em comparação com as demais energias produzidas exigiria que princípios da economia circular fossem incluídas desde a fase de design até a fase de descarte, descomissionamento ou reaproveitamento dos materiais utilizados na estrutura de geração.

A proposta de LCT e DfE são incorporadas nas práticas de Ecologia Industrial, cujo principal objetivo é de que os processos econômicos com impacto sobre o meio ambiente mimetizem os conceitos ecológicos de ciclagem de nutrientes em sistemas materialmente fechados e energeticamente abertos, criando um ecossistema complexo de atores em determinado espaço geográfico e tempo que aproveitem os recursos locais de forma a promover a maior eficiência e o menor acúmulo de resíduos possível.

Para o autor do artigo somente a abordagem da Economia Circular aplicada à extração, beneficiamento, produção, uso e descarte ou reaproveitamento de materiais agregaria o atributo de sustentabilidade a esta cadeia produtiva.

A Fundação Ellen MacArthur tem sido um dos grandes think tanks para a disseminação das práticas em Economia Circular. A Economia Circular, conforme publicamos ontem, baseia-se na analogia com sistemas ecológicos naturais, onde há um sistema materialmente fechado e energeticamente aberto em equilíbrio dinâmico, adaptativo e por vezes disruptivo.

A adoção dos conceitos de economia circular pelas empresas tem ocorrido de forma consistente. Cada vez mais, em todo o mundo, as empresas tem preocupado em tornar seus processos produtivos mais eficientes, reduzindo os desperdícios e aumentando a eficiência do uso de materiais e de energia. Obviamente, dado o fluxo exponencial de informações disponíveis para os indivíduos, há pessoas interessadas em investir em modelos de economia circular, tendo em vista que as empresas que adotam tais parâmetros e conceitos em suas atividades usualmente gerem de maneira mais efetiva suas externalidades ambientais e econômicas e promovem benefícios adicionais aos seus ecossistemas.

O Fundo BlackRock é o maior gestor de fundos privados do mundo e em aliança recente com a Fundação Ellen MacArthur iniciou um movimento que aproximará investidores e empresas comprometidas com o fechamento destes ciclos materiais e ciclos energéticos, bem como alinhará estes investidores com as megatendências globais relacionadas às mudanças climáticas (adaptação e mitigação), escassez de recursos, inovações disruptivas e urbanização acelerada. Um ponto importante a destacar-se, também, ao tratar do maior Fundo Global, é a exclusão de investimento em empresas de carvão e petróleo e gás, o que remete um forte sinal para as demais gestoras de recursos.

A iniciativa dos dois parceiros envolve a alocação de recursos de investidores em três principais categorias de empresas:

• Incentivadoras: Empresas que adotam os princípios de Economia Circular em suas operações com impacto positivo primordial no valor da empresa.

• Viabilizadoras: Empresas provedoras de soluções para outras empresas tornarem-se circulares, como por exemplo provedoras de plataformas de revenda ou compartilhamento, tecnologias para reciclagem e inovação.

• Beneficiárias: Empresas que beneficiam da transição para a economia circular, como por exemplo aquelas que tem a demanda por seus produtos sustentáveis aumentada pela redução da demanda por produtos não sustentáveis. Se há uma disposição do mercado em mover-se nesta direção e cada vez mais investidores interessados em soluções que reduzam a pegada humana no planeta, seguramente aparecerão empresas dispostas a desenvolver processos produtivos inovadores, bem como produtos com menor impacto ambiental por unidade.

Sob o ponto de vista da alocação de recursos por parte de investidores, a aproximação da gestora com o think tank pode ocasionar movimentos sinergísticos interessantes, acelerando a transição para uma economia de baixo carbono e sustentável, mais eficiente.