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Análise dos fluxos de materiais e impactos ambientais do metabolismo societário da América Latina

Dois artigos publicados no “Journal of Ecological Economics” demonstram uma análise muito interessante para explicar os impactos ambientais sobre os territórios e as mudanças advindas do modelo de desenvolvimento de cada país.

No primeiro, de Andreas Mayer, Willi Haas e Domink Wiedenhofer, os autores investigam a relação entre a acumulação de fluxos materiais e o bem estar humano. De acordo com a tese defendida pela identidade IPAT, o impacto é proporcional à população, à afluência e às tecnologias utilizadas para extração de materiais.

A constatação dos autores é de que durante o século XX aumentamos o consumo de recursos de 8 bilhões de toneladas anuais em 1900 para 71 bilhões de toneladas de materiais em 2010, com o aumento de nove vezes no consumo total de recursos para um crescimento populacional de 4 vezes no mesmo período.

Este crescimento do consumo elevou os padrões de vida da população, com redução da pobreza extrema e aumento da renda e da expectativa de vida, com a consequente pressão sobre recursos como resultado.

O estudo avaliou, quando disponíveis, os dados sobre 148 países no período de 1950 a 2010, com a utilização da Material Flow Analysis (MFA) para identificar os fluxos de massa internos relativos aos metabolismos societários. Os pesquisadores utilizaram o método para avaliar o consumo de biomassa, energias fósseis, metais, minerais para construção e industriais.

Os autores observaram que ao realizar estatisticamente uma análise de regressão, encontrou-se como conclusão que aos países com maiores fluxos de materiais corresponde uma maior qualidade de vida e que a melhoria das condições de vida dos países em desenvolvimento ainda ensejará um aumento significativo no consumo de materiais, com o consequente impacto ambiental associado.

Como conclusão, os autores apontam que para cumprir as metas de desenvolvimento sustentável até 2030 os fluxos de materiais deverão ser aumentados em diversos países que ainda não entraram na fase de expansão da sua infraestrutura, ainda que consideradas as restrições que serão causadas pelo combate às mudanças climáticas e a escassez de materiais estratégicos para este crescimento. Como resultado, a expansão do metabolismo societário nos países menos desenvolvidos acarretará em mais impacto sobre a capacidade biofísica do planeta, visto que a maioria da população ainda vive em déficit de bem-estar.

O segundo artigo aborda os déficits comerciais e biofísicos da economia da América do Sul entre 1990 e 2013. Os autores abordam o período sob o ponto de vista da depleção e degradação causada em cinco países da América Latina (Brasil, Argentina, Colômbia, Equador e Peru) em virtude da sua “especialização” da sua economia em exportação de commodities.

A análise é interessante porque ultrapassa a análise econômica dos termos de troca, demonstrando que esta especialização tem consequências ambientais, resultando numa carga ambiental excessiva sobre os países citados para incrementar seu fluxo de caixa, especialmente em um momento onde os preços globais das commodities estão em baixa.

Ao abordar os dois artigos sob o prisma da intensificação dos impactos ambientais, temos por resultado duas tendências observáveis:

  1. Aumento dos impactos ambientais sobre os países com déficits de infraestrutura para incrementar a qualidade de vida das suas populações e;
  2. Incremento dos impactos ambientais negativos gerados pelo consumo de insumos necessários para manter os metabolismos societários de países especializados em produção de commodities com baixo preço e alta demanda.

Os efeitos sinérgicos das duas tendências apontadas nestes dois artigos permite inferir que o Brasil ainda passará por uma fase de consumo mais intenso de material, tanto para suprir seu déficit de infraestrutura quanto para equilibrar sua balança comercial.

Este incremento do consumo de material, no entanto, necessita de uma atenção focada na avaliação ambiental ainda mais refinada, ao contrário do que se observa nas propostas de licenciamento ambiental que vem sendo apresentadas nas duas casas do Congresso Nacional.

As consequências deste incremento de impactos ambientais serão verificadas diretamente na saúde e disponibilidade de solos produtivos, na exploração de minerais e minérios, na importação de insumos produtivos e agroquímicos, no consumo de recursos hídricos renováveis acima da capacidade de reposição do ciclo hidrológico, na pressão exercida sobre o sistema florestal que subsidia o ciclo hidrológico e na capacidade das cidades de absorver as pressões da superpopulação.

Três conclusões podem ser tiradas dos artigos que refletem diretamente as futuras pressões ambientais sobre o Brasil:

  1. As pressões sobre os recursos não renováveis irão aumentar, em virtude do conhecido déficit de infraestrutura brasileiro e da necessidade de incremento do nosso bem-estar. Minerais e minérios tem papel importante na expansão da infraestrutura.
  2. As pressões sobre recursos renováveis também irão aumentar, para suprir as necessidades das cidades e de exportação de commodities agrícolas, com o esgotamento de solos e recursos hídricos.
  3. O ente regulador precisa urgentemente incluir em suas análises os riscos socioambientais advindos desta expansão no consumo de recursos, visando proteger os interesses de longo prazo da sociedade, muitas vezes deixados de lado em função da necessidade de gerar caixa de curto prazo.

A leitura dos dois artigos é muito interessante para quem trabalha com Gestão Ambiental e construção de cenários, especialmente na visão que resulta da consolidação das tendências de longo prazo e novos temas emergentes relacionados à gestão de recursos renováveis e não renováveis estratégicos que já dão sinal de exaustão em virtude do uso excessivo e não racional.

Livro eletrônico “Taking Stock of Industrial Ecology”

O livro “Taking stock of Industrial Ecology” foi lançado por pesquisadores da área no encontro Bianual da Sociedade Internacional para a Ecologia Industrial, realizado na Universidade de Surrey, na Inglaterra, em 2015.

Neste livro são compiladas as principais frentes de pesquisa deste ramo da ciência e as principais premissas. A definição de Graedel e Allenby refere-se à Ecologia Industrial como o modo pelo qual a humanidade pode deliberadamente e racionalmente abordar e manter a sustentabilidade, dadas a evolução econômica, cultural e tecnológica da sociedade.

O sistema industrial, no qual podemos encaixar o sistema produtivo da agricultura e pecuária de larga escala, não pode ser analisado isolado dos sistemas naturais que garantem sua existência, mas como parte integrante. Por isso, a visão da Ecologia Industrial é a de que o ciclo total dos materiais deve ser otimizado, para que os recursos, energia e capital sejam preservados e as condições ambientais sejam adequadamente gerenciadas.

Dentre as ferramentas utilizadas para analisar os sistemas produtivos e sua interrelação com os sistemas de suporte, a Ecologia Industrial utiliza principalmente os seguintes:

  1. Análise de Ciclo de Vida, cada vez mais comum para comparar materiais e métodos produtivos e sua eficiência
  2. Design for Environment (DfE), que preconiza o planejamento de produtos e serviços visando causar o menor impacto possível durante o ciclo de vida
  3. Análise de Fluxos Materiais, que quantifica os fluxos de materiais e energia em determinado tempo e território e sinaliza possibilidades de aumento de eficiência (com a variante da Análise de Fluxo de Substâncias, para materiais potencialmente perigosos)
  4. Metabolismo Socioeconômico, que analisa o perfil produtivo dos países e seu consumo de materiais
  5. Análise de input-output, que analisa os fluxos de materiais e energia dentro dos diferentes setores de uma economia nacional
  6. Metabolismo urbano, com os fluxos de energia e matéria dentro das cidades, visando aumentar a eficiência das atividades econômicas internas e reduzir o impacto sobre os sistemas de suporte e
  7. Simbiose industrial, que visa gerar regiões industriais produtivas com a utilização do conceito de resíduo zero.

Estas sete principais ferramentas de análise são utilizadas para avançar este campo científico. Muitas delas já foram analisadas no blog, sendo que cada uma é um mundo à parte e aplica-se ao avanço prático dos conceitos de sustentabilidade, podendo ser aplicados às atividades de diversas partes interessadas, desde os planejadores públicos até os agentes econômicos privados.

Não por acaso pode-se utilizar as ferramentas para praticar gestão ambiental pública ou gestão ambiental privada. Na pública destacam-se a Análise de Fluxos Materiais, o Metabolismo Socioeconômico, o Metabolismo Urbano e a Análise de input-output, com uma possível aplicação de ações de gestão ambiental visando reduzir os impactos ambientais nacionais, regionais ou locais ou desenhar políticas efetivas de redução destes impactos com base nas informações que surgem da aplicação destas ferramentas.

Na gestão ambiental privada destacam-se a Avaliação de Ciclo de Vida, o Design for Environment e a Simbiose Industrial, compondo um amplo leque de alternativas para o avanço das atividades em sustentabilidade.

Como descrito no blog, a cada encontro bianual da Sociedade (IS4IE.org), percebe-se que está havendo um processo de evolução, que na minha visão seria semelhante ao processo de especiação na natureza: Mais pesquisadores especializando-se nas sete ferramentas e promovendo um avanço cada vez maior dos campos. Tais pesquisas, como preconizaram Graeden e Allenby, voltadas para a aplicação prática dos conceitos de sustentabilidade aos processos produtivos e ao planejamento territorial.

Os avanços são evidentes e seguramente a Ecologia Industrial, que é base para a estratégia de Economia Verde da Europa e nos sistemas produtivos na China, bem como aparece nos EUA, tem muito a contribuir após as discussões sobre as emissões de gases de efeito estufa na COP-21, em Paris. Assim como na gestão de recursos hídricos, contaminação de solos e demais processos que causam impacto sobre os sistemas de suporte.

Vale a pena ler o material todo.

Financial Times de hoje: “A world without water”

Se existem indicadores de que os investimentos em eficiência no uso de recursos estão na ordem do dia, eu diria que a frequência do aparecimento de artigos relacionadas ao tema em jornais ao mercado financeiro é um deles. O Financial Times (link) publicou ontem um artigo muito consistente sobre os desafios do gerenciamento de recursos hídricos nos próximos anos, considerando os componentes da equação IPAT. Impacto ambiental diretamente proporcional ao crescimento da população, padrão de consumo crescente em função do aumento de renda e das tecnologias utilizadas para exploração de recursos.

O artigo demonstra como as grandes empresas que utilizam a água em seus processos produtivos estão expandindo sua atuação para proteger os recursos hídricos, visto que a deterioração da qualidade  das fontes implica em maiores custos para tratamento e a diminuição da quantidade implica em custos maiores em captação do recurso. Outra frente de exposição aos riscos é o valor da marca da empresa perante a sociedade, investidores, seguros e o Estado.

Dos exemplos dados no artigo, destacaria a captação de água dos Alpes franceses pela EDF, que teve que receber investimentos em virtude do retraimento dos glaciares dos topos das montanhas (mudanças climáticas!!!). De acordo com a Global Water Intelligence , desde 2011 foram aplicados US$ 84 bilhões em conservação, gestão e captação de água. Estes investimentos foram originados por racionamento de água, necessidade de eficiência no uso do recurso, conservação de água e novas exigências regulatórias visando controle da qualidade de efluentes.

O texto cita novamente que cerca de 70% do uso de água vem da agricultura, com 22% originado da indústria e 8% dos usuários domésticos. Estes dados demonstram que há necessidade de investimentos em tecnologias que aumentem a eficiência na conversão de água em biomassa, reduzam as perdas do recurso e promovam a proteção de águas superficiais e subterrâneas (como se costuma afimar desde sempre)…

A novidade é realmente o aparecimento do tema em cada vez mais fóruns relacionados à indústria financeira. O Fórum Econômico Mundial discute a escassez de água, a revista The Economist promove seminários sobre os Oceanos e a necessidade de conservação de recursos, o Financial Times publica um especial sobre a água, Bancos Verdes emitem títulos de longo prazo para financiamento de iniciativas em eficiência do uso de recursos hídricos. Me parece que sinaliza-se que a questão da água está entrando no mainstream também, com os riscos e oportunidades associados ao tema. Podemos inferir que a pressão por privatização dos recursos hídricos chegarão e que o papel das agências reguladoras se tornará cada vez mais importante.

É sabido que a cobrança pelo uso da água obriga grandes usuários a desenvolver métodos para o uso racional. Na nossa Política Nacional de Recursos Hídricos, que dá origem aos Comitês de Bacias Hidrográficas, às Agências de Águas e aos Planos de Gerenciamento por Bacias Hidrográficas, o pressuposto de que a água tem um valor econômico visa fomentar o uso eficiente. O fato é que, por sermos um país essencialmente exportador de commodities agrícolas e proteína animal, em virtude das nossas vantagens competitivas e comparativas, precisaremos cobrar pelo uso dos recursos hídricos dos grandes usuários agropecuários, incluindo o custo da recuperação da qualidade da água devolvida aos corpos d’água.

Como quantificar o valor deste recurso que será cada vez mais escasso para os grandes usuários e como cobrar monetariamente a responsabilidade pela qualidade de água de todos os usuários? Desafios para os próximos anos que deveríamos procurar nos programas de governo dos candidatos.

Análise de Fluxos de Massa na Agricultura

Um ponto interessante a analisar-se sob o ponto de vista da Análise de Fluxos de Massa são os impactos da mineração na agricultura. Como bem se sabe, o chamado ecossistema agroindustrial depende de uma alta entrada de insumos não renováveis para aumentar a produtividade primária dos ecossistemas naturais.

Um exemplo disso são os fertilizantes minerais utilizados para a produção de grãos no cerrado. Sob uma perspectiva de MFA, a contabilização dos fluxos dos minerais necessários para a produção, calcário para correção do solo, Nitrogênio, Potássio e Fósforo, bem como da energia necessária para produzir os desejáveis produtos que consumimos ou importamos, representam uma sinalização importante da visão integrada dos impactos ambientais que produzimos ou “fazemos produzir” em outros locais do planeta.

Sem contar que a Análise de Fluxo de Substâncias (Substance Flow Analysis) poderia nos ser muito útil para verificar o fluxo dos agroquímicos na natureza, incluindo aí a contaminação de rios, da atmosfera e os prováveis impactos sobre a saúde pública da população que consome estes recursos hídricos. Tais sinais, a combinação das informações da MFA e da SFA, seriam importantíssimas como indicadores de políticas e práticas relacionadas às nossas políticas ambientais.

Instrumentos de gestão ambiental pública e privada na Política Integrada de Produto na Europa

Um livro interessantíssimo que nos permite verificar como a gestão ambiental pública e privada na Europa vem sendo implementada é o Ecological Economics and Industrial Ecology: A Case Study for IPP, disponível na versão eletrônica na http://www.amazon.com. Em um breve resumo, detalharei os instrumentos disponíveis para uma política ambiental integrada, e que, logicamente, representam oportunidades para uma economia verde e sustentável.

Instrumentos econômicos
1. Padrões mínimos de qualidade sob o ponto de vista ambiental
2. Responsabilidade extendida ao produtor
3. Acordos entre indústria e ente regulador
4. Auto-regulação pela indústria
5. Sistemas de gestão ambiental orientadas para o produto
6. Painéis de partes interessadas para análise de produtos

Instrumentos informativos
7. Impostos e taxas
8. Sistemas de depósito e devolução
9. Suporte a pesquisa e desenvolvimento
10. Assistência técnica e educação
11. Assistência financeira
12. Compras públicas sustentáveis
13. Rotulagem ambiental tipos 1, 2 e 3
14. Rotulagem da energia
15. Informações mandatórias nas etiquetas de produtos
16. Educação
17. Alertas ao consumidor
18. Campanhas de conscientização do consumidor
19. Regras para a publicidade

Alguns outros instrumentos são utilizados pela união europeia, tais como:
20. Cotas para uso de materiais recicláveis
21. Ecodesign de produtos
22. Responsabilidade do produto
23. Cotas de emissão transacionáveis no mercado
24. Rotulagem orgânica de alimentos
25. Realização de testes e Divulgação de resultados
26. Retirada do mercado
27. Licenças
28. restrições na distribuição
29. Garantias estendidas
30. Obrigações para o consumidor
31. Benefícios para o consumidor
32. Quotas para reciclagem e recuperação
33. Concursos para o melhor ecodesign
34. Acordos para divulgação de informações para as indústrias.

Bom, temos assunto para vários posts.

Environmental Finance de Outubro 2011

Uma publicação muito interessante e que tem tudo a ver com os assuntos abordados no relatório “Towards a Green Economy”, especialmente no que diz respeito ao financiamento da nova Economia Verde é a publicação Environmental Finance.
É uma publicação especializada em aspectos relacionados ao financiamento de projetos de sustentabilidade e a evolução do mercado Verde.
Neste mês a revista traz novidades sobre o investimento em energia renovável, com o impacto da crise sobre os projetos devido à redução da disponibilidade de recursos e como enfrentar e financiar as cidades sustentáveis, tendo em vista o aumento da população urbana em todo o mundo, com as consequências observáveis em termos de mobilidade urbana e pressão sobre infraestrutura. Além disso, mostram um aspecto muito interessante do mercado do desmatamento evitado, que tem crescido muito no sudeste asiático.
Uma ação que provavelmente vai ocorrer em breve é a especialização de bancos no financiamento do mercado verde, com utilização de recursos já disponíveis no sistema financeiro a um custo mais baixo.
Pensando na economia como um todo, há possibilidades em energias renováveis, infraestrutura, edifícios verdes, biodigestores, agricultura orgânica, seguros, varejo, enfim, em todas as áreas onde atua um banco. Qual será o primeiro banco a aproveitar tais oportunidades?
A atividade de um banco é retirar dinheiro a uma taxa x e emprestar para quem precisa a uma taxa x + y… Se os recursos para funding destas atividades é mais barato, os bancos podem ganhar muito ao realizar estas operações “sustentáveis”. Pensemos, por exemplo, se os bancos tiverem uma área de consultores financeiros com background ambiental, eles poderão prospectar negócios com menores taxas para o tomador.

Isso vai acontecer… Basta saber quem no Brasil será o primeiro…

Conclusões sobre o relatório…

Certa vez, ao apresentar um seminário, perguntei aos ouvintes quais as novidades das conclusões da Eco’92. Sinceramente observei que muito do que foi acordado foi simplesmente conteúdo aspiracional, muitas vezes filosófico, muitas vezes inaplicável com as atuais (à época) cabeças as quais chamam líderes.
De certa forma é verdade. É sim conteúdo apenas aspiracional, pois ao ler o relatório percebe-se que todas as soluções já existem, todos já sabem o que fazer e onde atacar… Onde, então, está o gargalo?
Na minha opinião, nos pressupostos das sociedades… Tais pressupostos ainda não mudaram. As empresas continuam a, para usar um jargão bem conhecido e utilizado como cláusula pétrea de suas políticas, apontar para o crescimento constante, gerando mais retorno para seus investidores. Este retorno é gerado com mais vendas, mais produção, mais consumo, mais prédios, mais fábricas, mais impacto, menos emprego, mais outsourcing…
Tornar os edifícios mais verdes, produzir com menos impacto, observar os limites da pesca, água e florestas, investir em energia renovável, gerenciar melhor os resíduos, transporte mais eficiente, turismo verde, cidades.. e por trás disso tudo o financiamento.
A receita de bolo tem sido implementada em diversos países desde a década de 1970, quando se constrói a maioria das legislações sobre meio ambiente. Há sucessos evidentes, como a Holanda ou o Japão, onde o meio ambiente é parte de todo e qualquer processo de planejamento.
Pode ser que sintamos que não se evolui na velocidade desejável no Brasil, quando comparamos as nossas estatísticas de venda de carros, consumo de energia, saneamento básico, gestão de resíduos sólidos ou desmatamento, mas creio que apontar os problemas já é uma evolução para um país acostumado a viver de marketing e esconder os problemas.
O principal ponto que gostaria de ressaltar em todo o relatório é a questão dos limites. Cada vez mais precisamos incorporar ao processo econômico a questão dos limites. Não há condições de continuar produzindo visando crescer indefinidamente, bem como não há como deixar de incluir os indivíduos tradicionalmente excluídos do processo econômico.
Em época de mudanças climáticas causadas pela emissão de carbono, por exemplo, não tem lógica falar de pré-sal como alternativa para geração de energia. É um contrasenso. As emissões continuarão aumentando, assim como o consumo de combustível fóssil, as obras de infraestrutura continuarão a consumir recursos. Aumentar a eficiência não parece ser suficiente.
Estamos com um grande abacaxi nas mãos e sem a menor possibilidade de descascá-lo… E ainda com uma grande crise econômica que provavelmente apontará para a solução tradicional de crescer, vender e consumir ainda mais.

Parte 3 – Apoiando a transição para uma economia verde global – Finanças

A despeito da atual crise financeira em todo o mundo, não se pode prescindir do sistema financeiro quando se fala em sustentabilidade. Este capítulo final do relatório fala disso.

1. O volume de recursos requerido para financiar a economia verde é estimado em 1 a 2,5% do PIB global por ano de 2010 a 2050. Pensemos na infraestrutura, energia, transporte, edifícios e em todas as áreas citadas neste relatório e teremos uma ideia do desafio.
2. As oportunidades para financiamento da economia verde referem-se ao mercado de capitais e o investimento em empresas sustentáveis, ao financiamento de iniciativas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, fundos de estímulo da recuperação da economia. Os fundos de pensão e companhias de seguros, que controlam cerca de 39 trilhões de dólares, podem exercer uma grande pressão adaptativa sobre as empresas e apoiar o nascimento desta nova economia verde.
3. A preocupação com a sustentabilidade em seus investimentos tem direcionado o sistema financeiro para investir em empresas cujas práticas de sustentabilidade estejam firmemente ancoradas na minimização de riscos ambientais, sociais e de governança.
4. As necessidades de abrir as informações sobre as empresas e relatar periodicamente as ações em prol da sustentabilidade pelas empresas estão aumentando a transparência das empresas e direcionando suas ações.
5. Há necessidade de ações claras em prol da regulamentação do sistema financeiro para que ele seja capaz de financiar a economia verde por meio de mecanismos de fomento.
6. As finanças públicas também devem considerar o investimento em áreas que direcionem à economia verde, privilegiando cadeias econômicas que olhem para o assunto da sustentabilidade global, nacional e local com base na pegada ecológica dos seus portifólios de investimento.

Mais uma vez, no capítulo final do relatório, as conclusões remetem à necessidade de financiamento da economia verde e da articulação de diversos atores sociais para promover adequamente esta mudança. Esta mudança já está ocorrendo rapidamente. Já existem bancos de nicho atuando somente no mercado verde nos EUA, existem bancos no Brasil de olho somente neste mercado verde e como capitalizar em suas estratégias e práticas a emergência da economia verde.

As áreas citadas neste relatório, por exemplo, já são financiadas por bancos. Para incluir sustentabilidade em suas carteiras, os Bancos podem agir como consultores de sustentabilidade para seus clientes, acelerando a implantação da economia verde.

Isso não é utopia. Já existem bancos que atuam desta maneira em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Conclusões da segunda parte do relatório “Towards a Green Economy”

A questão da sustentabilidade precisa ser resolvida dentro das cidades e no sistema industrial também. A mobilidade sustentável, a gestão de resíduos sólidos, de emissões de gases, de efluentes líquidos precisa ser equacionada se as sociedades desejam que as cidades se tornem centros de qualidade de vida superior também.
O uso não sustentável de recursos e do consumo de energia, emissões de carbono, poluição e os problemas na saúde pública.
Ao tempo que representam o local das maiores oportunidades de trabalho, as cidades precisam melhorar seus processos internos. Esverdear a economia e os processos de gestão das cidades envolve pensar de forma integrada as soluções. Como se deslocar, como gerar oportunidades, como reduzir o despedício de recursos, como melhorar a qualidade de vida.
Não há solução única para os problemas, tendo em vista que cada cidade é única também. Inicia-se pelo planejamento urbano, pelo planejamento territorial, relaciona-se com as políticas públicas, os instrumentos regulatórios e os incentivos econômicos, bem como as regulamentações visando tornar o espaço público mais sustentável.
Boas iniciativas parecem pipocar em todo o mundo. Por exemplo em San Francisco, onde tornou-se um diferencial da cidade investir na economia verde. Redes de supermercados como a Whole Foods, áreas produtoras de vinhos sem agrotóxicos, Roupas produzidas com algodão orgânico, deslocamentos sustentáveis por metrô, bondes ou à pé, hotéis certificados pelo LEED – Leadership in Environmental and Energy Design, Cafeterias fornecendo apenas alimentos orgânicos, cafés produzidos de forma sustentável, complexos ecoindustriais com emissão zero e reaproveitamento total de resíduos. Isso não é sonho, já existe em diversos locais no mundo.
É possível melhorar já as condições de vida das pessoas e das cidades apenas com a aplicação de tecnologias já existentes e com os incentivos econômicos colocados de forma mais eficiente.

Parte 2 – Investimento em Energia Renovável e Eficiência no Uso de Recursos – Cidades

O capítulo “Cidades” é especialmente importante. Uma população crescentemente urbana, demandante de bens e serviços fornecidos pelas cidades, com afluência crescente, terá cada vez mais necessidade de melhorar seus processos internos que garantem a sobrevivência deste organismo econômico e social.
Os principais pontos enfatizados são os seguintes:
1. O desenvolvimento urbano deverá ser grandemente melhorado, pois ao tempo que 50% dos habitantes do planeta vivem em cidades, de 60 a 80% do consumo de energia ocorre nas cidades, bem como 75% das emissões. A rápida urbanização exerce pressão sobre os suprimentos de água potável, esgotos, o ambiente, a saúde pública, que afetam primeiramente os mais pobres. A urbanização também pode ser caracterizada pela periferização do desenvolvimento, resultando em divisão social, emissões de carbono, demandas de energia e pressão sobre os ecossistemas.
2. As oportunidades para redução de impactos e adoção de uma economia verde repousam na melhoria dos processo de gestão relacionados à redução das emissões de carbono e poluição, melhoria da qualidade dos ecossistemas, minimização de riscos ambientais. A melhoria de sistemas de transportes, a construção de edifícios mais sustentáveis, sistemas de uso de água e gerenciamento de resíduos devem ser planejados para reduzir o impacto do uso de recursos e de energia.
3. As cidades verdes combinam alto potencial de inovoação e produtividade com custos mais baixos e impacto ambiental reduzido. Altas densidades são uma característica central das cidades verdes, com ganhos de eficiência e produtividade causados pela proximidade entre as empresas e atividades econômicas, enquanto reduzem o uso de recursos e consumo de energia. A infraestrutura urbana inclui estradas, ferrovias, água e saneamento ambiental a menores custos devido ao adensamento. A congestão urbana relacionada à densidade e os custos econômicos associados podem ser reduzidos por meio de tarifas e transporte público.
4. As cidades são importantíssimas para a economia verde. A proximidade, densidade e variedade intrínseca às cidades estimulam a inovação. As indústrias verdes precisam do transporte público, da energia, instalação e reparos e as cidades desenvolverão indústrias verdes baseadas em alta tecnologia próximas aos centros urbanos.
5. A melhoria do transporte público, a melhoria de acesso aos serviços públicos, combustíveis limpos e geração de energia limpa reduzem o tempo despendido nos deslocamentos e melhoram a qualidade de vida e de saúde das populações.
6. Diversos atores sociais devem participar da gestão das cidades, melhorando os feedbacks informacionais e construindo soluções consensuadas, resultando em um plano estratégico de longo prazo para cidades e territórios urbanos.
7. As soluções para os problemas das cidades devem ser específicas para cada situação. Cada cidade é unica. O contexto de seu planejamento, legislação, informação e financiamento para direcionar a economia precisam de uma abordagem com múltiplos atores.