Financial Times de hoje: “A world without water”

Se existem indicadores de que os investimentos em eficiência no uso de recursos estão na ordem do dia, eu diria que a frequência do aparecimento de artigos relacionadas ao tema em jornais ao mercado financeiro é um deles. O Financial Times (link) publicou ontem um artigo muito consistente sobre os desafios do gerenciamento de recursos hídricos nos próximos anos, considerando os componentes da equação IPAT. Impacto ambiental diretamente proporcional ao crescimento da população, padrão de consumo crescente em função do aumento de renda e das tecnologias utilizadas para exploração de recursos.

O artigo demonstra como as grandes empresas que utilizam a água em seus processos produtivos estão expandindo sua atuação para proteger os recursos hídricos, visto que a deterioração da qualidade  das fontes implica em maiores custos para tratamento e a diminuição da quantidade implica em custos maiores em captação do recurso. Outra frente de exposição aos riscos é o valor da marca da empresa perante a sociedade, investidores, seguros e o Estado.

Dos exemplos dados no artigo, destacaria a captação de água dos Alpes franceses pela EDF, que teve que receber investimentos em virtude do retraimento dos glaciares dos topos das montanhas (mudanças climáticas!!!). De acordo com a Global Water Intelligence , desde 2011 foram aplicados US$ 84 bilhões em conservação, gestão e captação de água. Estes investimentos foram originados por racionamento de água, necessidade de eficiência no uso do recurso, conservação de água e novas exigências regulatórias visando controle da qualidade de efluentes.

O texto cita novamente que cerca de 70% do uso de água vem da agricultura, com 22% originado da indústria e 8% dos usuários domésticos. Estes dados demonstram que há necessidade de investimentos em tecnologias que aumentem a eficiência na conversão de água em biomassa, reduzam as perdas do recurso e promovam a proteção de águas superficiais e subterrâneas (como se costuma afimar desde sempre)…

A novidade é realmente o aparecimento do tema em cada vez mais fóruns relacionados à indústria financeira. O Fórum Econômico Mundial discute a escassez de água, a revista The Economist promove seminários sobre os Oceanos e a necessidade de conservação de recursos, o Financial Times publica um especial sobre a água, Bancos Verdes emitem títulos de longo prazo para financiamento de iniciativas em eficiência do uso de recursos hídricos. Me parece que sinaliza-se que a questão da água está entrando no mainstream também, com os riscos e oportunidades associados ao tema. Podemos inferir que a pressão por privatização dos recursos hídricos chegarão e que o papel das agências reguladoras se tornará cada vez mais importante.

É sabido que a cobrança pelo uso da água obriga grandes usuários a desenvolver métodos para o uso racional. Na nossa Política Nacional de Recursos Hídricos, que dá origem aos Comitês de Bacias Hidrográficas, às Agências de Águas e aos Planos de Gerenciamento por Bacias Hidrográficas, o pressuposto de que a água tem um valor econômico visa fomentar o uso eficiente. O fato é que, por sermos um país essencialmente exportador de commodities agrícolas e proteína animal, em virtude das nossas vantagens competitivas e comparativas, precisaremos cobrar pelo uso dos recursos hídricos dos grandes usuários agropecuários, incluindo o custo da recuperação da qualidade da água devolvida aos corpos d’água.

Como quantificar o valor deste recurso que será cada vez mais escasso para os grandes usuários e como cobrar monetariamente a responsabilidade pela qualidade de água de todos os usuários? Desafios para os próximos anos que deveríamos procurar nos programas de governo dos candidatos.

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