Arquivo da categoria: Política Ambiental

Análise das políticas públicas de eficiência de uso de recursos na União Europeia

A Agência Ambiental Europeia (AAE) produz relatórios de gestão ambiental pública e privada de alta qualidade. Isso não é novidade, como podemos atestar neste link. O relatório n. 10/2016 trata da análise das iniciativas dos países-membros em eficiência no uso de recursos materiais.

O conceito que baliza a eficiência do uso de recursos materiais é o de Ecoeficiência: Produzir maior retorno econômico reduzindo o impacto ambiental das atividades econômicas e o desperdício de recursos, aumentar o reuso e a reciclagem e reduzir a pressão sobre os recursos naturais não renováveis.

A proposta do relatório é a de levantar informações sobre as políticas adotadas em eficiência no uso de recursos nos países e colocar os países da UE no caminho para uma economia circular.

Uma Economia Circular envolve conceitos de Ecologia Industrial, quando se planeja o desenvolvimento de produtos ecoeficientes desde o nascimento do conceito, com as premissas da reciclabilidade e do design para o ambiente (DfE), até a proposta de aproveitamento e reaproveitamento total de resíduos. Adicionalmente pode-se citar a proposta de desenvolvimento de complexos eco-industriais com resíduo zero, com integração da produção entre indústrias e redução de perdas de energia e materiais em processos.

As principais evidências de que as políticas da União Europeia estão desenvolvendo-se em direção à Economia Circular são as seguintes:

a. Institucionalização da questão, com a destinação de recursos humanos, técnicos e financeiros para tratar do tema nos Estados;

b. Integração de políticas de energia, materiais e resíduos;

c. Percepção da necessidade de focar em iniciativas de Ecodesign (DfE), novos modelos de negócios, ações sobre o comportamento do consumidor e incentivos para desenvolvimento científico.

A adoção dos conceitos de Ecologia Industrial  nas políticas da AAE demonstra que o pensamento científico subjacente à área de pesquisa entrou na ordem do dia nas políticas da União Europeia, transformando-se em estratégias e planos de ação tendo por meta induzir a circularidade dos processos econômicos. Estes conceitos passam a ser importantes para cidadãos, empresas e governos e viram parâmetros para avaliação da efetividade das ações propostas pelos países.

A adoção de metas concretas para mensurar a efetividade das ações em eficiência no uso de materiais, no entanto, ainda é um desafio reconhecido pela AAE, visto que os estados estão em diferentes estágios de evolução da política de gestão de recursos. Reconhece-se que o incremento da troca de experiências resulta em evolução mais rápida das políticas adotadas nos estados-membros.

Redução de emissões de GEE em transportes

Texto publicado hoje na environment360, blog de assuntos ambientais da Universidade de Yale, analisa a ausência de metas para a redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) relacionadas ao transporte de pessoas e cargas em torno do planeta.

A motivação emerge do fato de que as emissões de navios e aviões respondem por 6% das emissões globais de GEE, com expectativa de chegar a 40% das emissões globais em 2040, e que existe uma dificuldade em atribuir as emissões aos países, tendo em vista a natureza transfronteiriça destas atividades.

A posição das duas principais organizações relacionadas ao transporte de cargas e pessoas em relação ao tema emissões de GEE revelam posições antagônicas e tentativas de bloquear iniciativas com base na velha dicotomia crescimento econômico x responsabilidade ambiental.

Enquanto a Internacional Civil Aviation Organization (ICAO) analisa que tipo de ações tomar, visando claramente gerar um compromisso a ser seguido pelas empresas responsáveis por até 90% das emissões do transporte aéreo, com a tendência a investir em renovação tecnológica em biocombustíveis para redução das emissões líquidas e compensação por meio de doação de recursos ao REDD+, a Internacional Maritime Organization (IMO) ainda tem dúvidas quanto à assunção de metas para redução de emissões, com o argumento de que a adoção de metas reduziria o crescimento econômico.

No texto publicado explica-se também que houve discussões no âmbito dos países desenvolvidos e em desenvolvimento e que metas para o transporte marítimo foram bloqueadas pelo grupo dos BRICs, Brasil, China, Rússia e Índia, justamente com base no argumento dicotômico, causando estranheza à Sustainable Shipping Initiative (SSI), cujos membros incluem a Maersk, a Carnival e grandes usuários como a Cargill.

Os grandes movimentos globais surgidos a partir da COP 21, visando pressionar os processos produtivos e os elos de distribuição e consumo a eles ligados, dentre eles a logística, demonstram que haverá uma busca acelerada por eficiência e esta busca terá por resultados maior investimento em ciência e tecnologia, com motores cada vez mais eficientes, combustíveis mais eficientes e ações urgentes para redução de consumo de combustível.

As cadeias produtivas que sustentam a transição para a Economia Verde serão beneficiadas pelo investimento em pesquisa e desenvolvimento e novas cadeias produtivas relacionadas. No entanto, como bem visto nos papéis desempenhados por governos, organizações não governamentais e associações de classe, uma maior pressão relacionada às metas de redução de emissões e em investimento em eficiência no uso de energia seguramente terá um efeito sinérgico na aceleração da busca por soluções, sejam elas políticas, tecnológicas ou comportamentais.

O mundo prepara-se para uma economia de baixo carbono. O Brasil deverá estar preparado para não somente receber para conservar e gerir de forma sustentável suas florestas, mas também desenvolver tecnologias de baixa emissão carbono que possam incorporar-se no mercado global. E nossas crianças já deveriam estar aprendendo isso.

É nosso desafio.

Fomento de parques eco-industriais na China

Os Parques Ecoindustriais (Eco Industrial Parks – EIP) baseiam-se nas premissas da Simbiose Industrial, que é uma proposta para organizar arranjos produtivos locais baseados nos conceitos de auto-organização de instituições, com a troca de materiais e energia dentro de processos produtivos para aumentar a eficiência dos sistemas, bem como a geração e transmissão de conhecimentos entre os componentes do ecossistema local.

O artigo “What makes Eco-transformation of Industrial Parks Take Off in China?”, de Yu, Dijkema e de Jon, publicado no Journal of Industrial Ecology, analisa as condições para induzir a formação de parques Ecoindustriais em duas áreas da China e quais instrumentos de gestão ambiental pública e privada foram adotados para implementar e estabelecer este tipo de organização.

A política de EIP (Eco-industrial parks) na China foi lançada em 2001 e foi responsável pela criação de 26 parques demonstrativos do conceito de Simbiose Industrial, com a aprovação de outros 66 programas piloto em fase de implantação, que dialogam com as políticas ambientais e as necessidades do país.

Os instrumentos de gestão ambiental pública e privada utilizados para promover a implementação variam de um parque Ecoindustrial para outro. A utilização de instrumentos econômicos até a formação de redes para difusão de informações permite que a implementação tenha sucesso.

Dentre os instrumentos citados no artigo, destacamos a precificação dos recursos ambientais e rejeitos, o fomento à adoção da ISO 14001 pelas empresas, inclusive com subsídios, a implantação de usinas de tratamento de resíduos, a cogeração de energia, as auditorias ambientais periódicas para verificação de conformidade e do cumprimento de metas, a transparência da divulgação de informações ambientais, o treinamento e disseminação de tecnologias limpas e a formação de redes de colaboração para fomentar a participação de empresas.

Os instrumentos de gestão utilizados não são novidades. Qualquer interessado em gestão ambiental pública ou privada os conhece e aplica em suas atividades e conhece políticas, planos ou programas implementados de forma não integrada.

A novidade é, no entanto, a aplicação de todos eles em conjunto em um tipo de abordagem territorial e participativa, tendo por conceito básico a Simbiose Industrial e seu conceito derivado de Parques Ecoindustriais, com a participação dos atores locais (empresas, governos e sociedade civil) visando o crescimento econômico, a redução do consumo de materiais e energia, o controle da poluição e a melhoria dos processos administrativos e de gestão.

A implementação do conceito às indústrias nas regiões chinesas citadas no artigo consolidam a disposição de resolver os problemas que nós mesmos criamos por meio de abordagens colaborativas visando aumentar a eficiência produtiva.

O conceito faz parte do campo de estudo da Ecologia Industrial e é um arranjo produtivo local cujo ponto de partida é a Economia Circular e a organização territorial de forma a reduzir os impactos ambientais totais da região. A conferir a evolução das iniciativas.

A Lei da Água – Documentário

As crises são momentos importantes para colocar na ordem do dia temas importantes, mas muitas vezes negligenciados pelos reguladores quando comparados às demais demandas da sociedade.

A questão da água explodiu este ano. Apesar do risco real de desabastecimento, que ainda não foi afastado em SP e outros estados, os movimentos gerados pela percepção aumentada de risco colocaram o tema como crucial para obter uma resposta política e social.

O Documentário a Lei da Água surge para tentar explicar a crise da água. Pretende demonstrar como a alteração do código florestal vai resultar (já resultou) em redução da proteção de nascentes e margens de rios e as ligações entre a vegetação e a produção de água. Tem também diversos depoimentos dos agentes políticos que viabilizaram a alteração do código florestal.

A exibição do documentário foi viabilizada em Brasília por meio de financiamento coletivo (crowdfunding) e é crucial para quem se interessa pelo tema. O evento acontecerá no cinema 8 do CasaPark, no dia 30 de março, às 21:30h.

Para saber mais, acesse o blog do filme (https://aleidaaguafilme.wordpress.com/), curta no facebook (https://www.facebook.com/aleidaagua) e assista o trailer (https://agua.catarse.me/pt/aguabrasilia8?ref=profile_created_projects).

Trabalho com altíssima qualidade – The European Environment – State and Outlook – European Environmental Agency

Uma das etapas de um planejamento bem feito é a elaboração de cenários de longo prazo, visando identificar e antecipar tendências, sinais e incertezas e permitir a análise das condições do ambiente onde se atua.

A União Europeia produziu o relatório “The European Environment – State and Outlook” com o objetivo de mapear os indicadores de desempenho do ambiente europeu e elaborar cenários para o desenvolvimento destes indicadores, bem como dos fatores que influenciarão a sua evolução.

Em um estudo de cenários as premissas são importantes, bem como o casamento com as metas já estabelecidas de outros planos com a mesma interferência territorial. Neste trabalho, por exemplo, tenta-se unir os objetivos ambientais da UE aos objetivos do planejamento para o continente até 2020.

Neste trabalho foram identificados 84 tópicos de interesse com potencial para afetar os cenários de desenvolvimento. 11 tendências globais, 25 áreas de interesse em relação à economia, 9 trabalhos de comparação de indicadores e 39 resumos da situação ambiental de cada país da União Europeia.

O cruzamento das informações que constam destes trabalhos permite ao gestor ambiental ter uma visão integrada da situação e planejar as ações a serem tomadas para incrementar a qualidade ambiental de seu território, no médio e longo prazo.

As premissas adotadas para direcionar o cenário de futuro da União Europeia quanto ao meio ambiente são as seguintes:

1. Envelhecimento da população europeia em contraponto às altas taxas de reprodução em países em desenvolvimento;

2. Urbanização crescente, com migração das áreas rurais para áreas urbanas;

3. Risco de pandemias e doenças crescente;

4. Mudanças tecnológicas aceleradas;

5. Alteração do ritmo de crescimento econômico;

6. Mundo multipolar;

7. Competição por recursos naturais;

8. Pressões crescentes sobre os ecossistemas;

9. Consequências severas das mudanças climáticas ocorrerão;

10. Poluição aumentando;

11. Necessidades de governança.

A integração entre as grandes premissas e os demais dados permitem uma tomada de decisão mais qualificada. Nos próximos posts detalharei os planos de ação.

Environmental Finance – Atualização do post sobre stranded assets

O relatório “Carbon constraints cast a shadow over the future of the coal industry“, elaborado pela agência de rating Standard & Poor’s, adverte seus investidores de que as reservas de carvão com alto custo de extração podem tornar-se inviáveis sob o ponto de vista econômico em virtude de medidas relacionadas às políticas ambientais adotadas por grandes consumidores, como China e EUA, urbanização e crescimento das cidades, o uso de gás natural e as mudanças no grid da China. Esta notícia reforça o sinal dado por investidores de que poderá haver precificação do carbono gerado, com os riscos associados à sua extração. Uma sinalização forte de que pode haver a precificação do carbono é que, de acordo com o Banco Mundial, cerca de 40% das emissões internacionais de GEE estarão sob o efeito de legislação nos próximos 5 anos.

Financial Times de hoje: “A world without water”

Se existem indicadores de que os investimentos em eficiência no uso de recursos estão na ordem do dia, eu diria que a frequência do aparecimento de artigos relacionadas ao tema em jornais ao mercado financeiro é um deles. O Financial Times (link) publicou ontem um artigo muito consistente sobre os desafios do gerenciamento de recursos hídricos nos próximos anos, considerando os componentes da equação IPAT. Impacto ambiental diretamente proporcional ao crescimento da população, padrão de consumo crescente em função do aumento de renda e das tecnologias utilizadas para exploração de recursos.

O artigo demonstra como as grandes empresas que utilizam a água em seus processos produtivos estão expandindo sua atuação para proteger os recursos hídricos, visto que a deterioração da qualidade  das fontes implica em maiores custos para tratamento e a diminuição da quantidade implica em custos maiores em captação do recurso. Outra frente de exposição aos riscos é o valor da marca da empresa perante a sociedade, investidores, seguros e o Estado.

Dos exemplos dados no artigo, destacaria a captação de água dos Alpes franceses pela EDF, que teve que receber investimentos em virtude do retraimento dos glaciares dos topos das montanhas (mudanças climáticas!!!). De acordo com a Global Water Intelligence , desde 2011 foram aplicados US$ 84 bilhões em conservação, gestão e captação de água. Estes investimentos foram originados por racionamento de água, necessidade de eficiência no uso do recurso, conservação de água e novas exigências regulatórias visando controle da qualidade de efluentes.

O texto cita novamente que cerca de 70% do uso de água vem da agricultura, com 22% originado da indústria e 8% dos usuários domésticos. Estes dados demonstram que há necessidade de investimentos em tecnologias que aumentem a eficiência na conversão de água em biomassa, reduzam as perdas do recurso e promovam a proteção de águas superficiais e subterrâneas (como se costuma afimar desde sempre)…

A novidade é realmente o aparecimento do tema em cada vez mais fóruns relacionados à indústria financeira. O Fórum Econômico Mundial discute a escassez de água, a revista The Economist promove seminários sobre os Oceanos e a necessidade de conservação de recursos, o Financial Times publica um especial sobre a água, Bancos Verdes emitem títulos de longo prazo para financiamento de iniciativas em eficiência do uso de recursos hídricos. Me parece que sinaliza-se que a questão da água está entrando no mainstream também, com os riscos e oportunidades associados ao tema. Podemos inferir que a pressão por privatização dos recursos hídricos chegarão e que o papel das agências reguladoras se tornará cada vez mais importante.

É sabido que a cobrança pelo uso da água obriga grandes usuários a desenvolver métodos para o uso racional. Na nossa Política Nacional de Recursos Hídricos, que dá origem aos Comitês de Bacias Hidrográficas, às Agências de Águas e aos Planos de Gerenciamento por Bacias Hidrográficas, o pressuposto de que a água tem um valor econômico visa fomentar o uso eficiente. O fato é que, por sermos um país essencialmente exportador de commodities agrícolas e proteína animal, em virtude das nossas vantagens competitivas e comparativas, precisaremos cobrar pelo uso dos recursos hídricos dos grandes usuários agropecuários, incluindo o custo da recuperação da qualidade da água devolvida aos corpos d’água.

Como quantificar o valor deste recurso que será cada vez mais escasso para os grandes usuários e como cobrar monetariamente a responsabilidade pela qualidade de água de todos os usuários? Desafios para os próximos anos que deveríamos procurar nos programas de governo dos candidatos.

Saúde dos mares e a necessidade de integração de políticas públicas

Leio o seguinte artigo http://www.valor.com.br/internacional/3399950/oceanos-estao-virando-lixoes-invisiveis e imagino: Como deve estar funcionando no Brasil?

Recentemente, há uns seis meses, participei de um evento sobre gestão de recursos costeiros, no qual alguns dos profissionais e pesquisadores ouvidos externaram a preocupação com a ausência de planos de gerenciamento costeiro, um instrumento da política nacional de gerenciamento costeiro que data da década de 1980. Ao ler o artigo citado, vi que cita-se que o gerenciamento costeiro exige uma integração com a política de resíduos e efluentes gerados em terra, visto que muito do material, especialmente o plástico, é carreado para os mares.

No Brasil temos várias políticas sobre meio ambiente com diversos instrumentos. Cada uma delas visa planejar a ocupação territorial e gerir de forma mais eficiente os aspectos relacionados ao meio ambiente. Fala-se de licenciamento, planejamento territorial, planejamento territorial tendo por base a bacia hidrográfica, gerenciamento de resíduos sólidos… Será que há integração dentre os instrumentos? Penso que não.

Em Ecologia se sabe que há integração entre os diversos aspectos físico-químico-biológicos e co-evolução dentre os componentes bióticos e abióticos de um ecossistema. A questão das bolinhas de plástico no sabão líquido mostra bem os impactos de uma ação simples sobre a poluição dos oceanos e como se impactam as relações entre os componentes deste ecossistema marinho.

Me preocupa se isso está sendo observado pelo Ministério do Meio Ambiente na elaboração de suas políticas, na implementação de seus planos e na melhoria da qualidade ambiental dos ecossistemas. Será que já estamos olhando para o gerenciamento costeiro de forma integrada ao gerenciamento de recursos hídricos, que por sua vez deve estar integrado ao gerenciamento de resíduos sólidos tendo por guarda-chuva a Política Nacional de Meio Ambiente?

Creio que já está na hora de integrarmos todas estas políticas e fazermos uma consolidação das leis ambientais no Brasil, visando ganhar eficiência na gestão pública. Acho que é impossível para um prefeito e secretários de municípios realizar uma efetiva gestão ambiental pública com a quantidade de instrumentos que devem ser implementados, assim como uma gestão ambiental privada torna-se impossível e inútil sem uma visão integrada do sistema.

Já há necessidade de avançarmos na Avaliação Ambiental Estratégica de políticas, planos e programas, integrando todos os instrumentos numa abordagem territorial mais ampla, incluindo, logicamente a Análise de Fluxos de Materiais ou de massa. Isso indicaria os principais impactos ambientais por território, de acordo com suas cadeias produtivas e projetos de infraestrutura.

É preciso que façamos este movimento.

Percepção e realidade

Costumo falar para meus alunos virtuais que podemos medir o grau de desenvolvimento de um país pelas políticas e práticas que adotam em relação ao tratamento de seus resíduos.

Inicio o curso com uma pergunta básica: Quais são os principais problemas ambientais do seu município?

A partir desta pergunta, tendo em vista os diferentes locais onde eles vivem, consigo ter um panorama de como está o nosso país em termos de saneamento ambiental.

Os problemas são enormes. Desde a simples coleta de resíduos, passando para destinação e separação, até o descarte inadequado de lixo hospitalar sem qualquer preocupação de gestores ambientais públicos ou privados (quando os há).

A partir destas informações, utilizando o princípio da cibernética dos feedbacks, consegue-se perceber que não ha prioridade política para a gestão do saneamento ambiental, como bem podemos evidenciar pelas pesquisas do PNAD que frequentemente recebemos.

Uma questão emerge: Estarão nossos “gestores” olhando para esta questão? Estarão eles destinando recursos do orçamento dos municípios para melhorar a coleta, destinação e tratamento de resíduos sólidos, de efluentes líquidos ou de emissões? Terão eles a sensibilidade necessária para elaborar a necessária legislação local? Há empresas no município para efetuar o gerenciamento de resíduos?

Certa vez, e não vou me lembrar exatamente quando, li um artigo no qual se falava que a coleta seletiva e reciclagem só eram viáveis em municípios com médio para grande porte, em virtude da “riqueza” do que era descartado. Não sei se foi considerado na atual Política Nacional de Resíduos Sólidos este “limite”.

Sei que pelo que leio dos meus alunos, ainda estamos longe de uma efetiva gestão integrada de recursos. Temos a política nacional de recursos hídricos, que determina que a unidade de planejamento é a bacia hidrográfica, determina a cobrança pelos recursos hídricos por agências de bacia, que seriam responsáveis, por sua vez, por aplicar os recursos em melhorias que resultassem no aumento da quantidade e qualidade de água, de acordo com as prioridades apontadas pelos comitês de bacia. Muito difícil de executar, seguramente.

Além disso, há a necessidade de organizar a ocupação humana nos municípios, que dependem da vontade dos políticos locais, da localização de suas bases eleitorais e outros critérios menos claros e técnicos. O resultado, todos sabemos: Qualquer época de chuva no Brasil gera desastres.

Se há critérios técnicos para realizar o planejamento territorial, a gestão de resíduos sólidos, o saneamento ambiental e a gestão de emissões, seria responsabilidade dos gestores eleitos resolver estes problemas, juntamente com a população e as empresas locais. A pressão funciona muito bem, quando acompanhada por soluções.

O que não dá para entender é que continuemos a verificar, a partir das informações recebidas pelos alunos, a inadequação dos sistemas de saneamento ambiental e de planejamento territorial e as terríveis consequências em termos de saúde pública e desastres ambientais aos quais temos nos acostumado, e que o jogo, com relação ao ambiente, é somente um jogo de empurra à procura de mais verbas, muitas vezes não aplicadas diretamente nas necessidades que geraram as demandas por recursos.

Gestão de resíduos na União Europeia – Princípios

Baixei um documento bastante interessante no site da Agência Ambiental Europeia chamado “Being Wise with waste: The EU’s approach to waste management”. A intenção do documento é apresentar alguns dados e mostrar quais princípios norteiam a política ambiental europeia para a gestão de resíduos sólidos.
Para começar, contextualizam o interessado no tema sobre os volumes de resíduos gerados na União Europeia. São 500 milhões de habitantes gerando 0,5 tonelada de resíduo por ano por habitante, somados a 360 milhões de toneladas de resíduos dos processos industriais, 900 milhões de toneladas da construção e 95 milhões de toneladas da geração de energia e gestão de recursos hídricos (Primeiro ponto positivo: informações detalhadas sobre de onde vem o impacto. Pressão exercida: 500 milhões de habitantes gerando todos estes resíduos em um espaço bastante limitado induz a busca por soluções).
Um desafio adicional percebido pela Agência Ambiental Europeia, e que é um problema comum em todos os países que passam pela revolução tecnológica, é que os resíduos tem se tornado mais complexos, com um mix de materiais mais difíceis de separar e reciclar, especialmente no que se refere aos resíduos eletrônicos (eu me recuso a descartar meus resíduos eletrônicos sem saber onde eles vão parar. Só tirar do meu campo de visão não é suficiente!).
A AAE estima que do total de resíduos gerados, cerca de 100 milhões de toneladas contém metais pesados e toxinas cujo tratamento é caro e que acabam por induzir o envio deste tipo de cargas para outros países do mundo, essencialmente aqueles não desenvolvidos, o que deveria ser crime, na minha opinião.
Tudo isso somado, e considerando os demais impactos sobre o ambiente, levaram à União Europeia a desenvolver sua abordagem para a gestão de resíduos sólidos em cima de dois pressupostos básicos:
A hierarquia da destinação do resíduo, onde a preferência recai sobre aqueles que permitem melhor gerenciamento ambiental, com a preferência para prevenção da geração em detrimento das demais, de acordo com o esquema abaixo:
1. Prevenção – Evitar o uso de produtos que geram muito resíduos
2. Preparação para re-uso
3. Reciclagem
4. Recuperação de materiais
5. Descarte
A abordagem de ciclo de vida envolve a análise de um produto ou serviço em todas as fases de seu ciclo, desde a extração, o design, a produção, a distribuição, o uso, a coleta ou disposição, o reúso, reciclagem ou recuperação até a recolocação em novos processos produtivos. A abordagem de ciclo de vida permite às empresas e aos consumidores estabelecer parâmetros de comparação entre os impactos ambientais do consumo de materiais de acordo com o escore ambiental dos produtos similares ou substitutos.
As opções disponíveis para a gestão de resíduos são a acumulação em aterros sanitários (que são fechados caso não observem os padrões estabelecidos pela AAE), o uso da energia por meio da incineração, a reciclagem de materiais em conjunto com o produtor, numa política de responsabilidade estendida ao produtor que gera pesquisa por novas soluções, o re-uso e a prevenção, que é a análise prévia à aquisição do impacto que o consumo irá causar, chegando ao eco-design, que é projetar o ciclo de vida visando o reaproveitamento total.
Os resultados desta política tem sido a redução de material que vai parar em aterros sanitários, resultado desejado em ambiente com grande população e pequeno espaço, como a União Europeia. Porém, persiste o problema do lixo eletrônico e da exportação ilegal (ou legal) de resíduos para países em desenvolvimento, com padrões ambientais menos restritos.

O que poderíamos aproveitar para o Brasil, que ainda está na fase de encerramento de seus lixões e tem uma política nacional de resíduos sólidos praticamente recém-aprovada? Temos problemas com projetos para aterros sanitários, temos problemas com as prefeituras, que não consideram este tipo de projeto relevante, tendo em vista o retorno financeiro insuficiente (na visão dos prefeitos e câmaras de vereadores), a pouca pressão a que estão submetidos os gestores públicos no tema, diversos contratos com empresas de gestão de resíduos com problemas legais e sob suspeita, uma cultura não empresarial de reciclagem de resíduos, posição pouco amigável, para não dizer contrária, das empresas para políticas de responsabilidade estendida aos produtores.
Como dito no texto do dia do meio ambiente, precisamos avançar muito.