Arquivo da categoria: Comentário pessoal

Revista Guia Exame 2014 – Gestão Ambiental Privada levada a sério

A Edição 2014 do Guia Exame Sustentabilidade premia as empresas por suas iniciativas em sustentabilidade. As iniciativas, além de reduzir o consumo de recursos naturais renováveis e não-renováveis, geram retorno financeiro e de imagem para as empresas, que consolidam-se como líderes em tais iniciativas.

Há muito o blog escreve sobre a gestão ambiental pública e a gestão ambiental privada e as diferenças entre ambas. No âmbito da gestão ambiental privada, é de extrema importância analisar quais iniciativas adotadas reduzem o risco de perda de receitas pelas empresas.

Dentre as iniciativas adotadas, destaco as seguintes:

1. Adoção pela Tetrapak do plástico “verde” em suas embalagens

Como bem sabemos, grande parte dos resíduos domésticos descartados diariamente são de embalagens Tetrapak, compostas de camadas de plástico, papel e alumínio, e altamente prejudiciais ao meio ambiente (qualquer visita a aterro sanitário ou lixão mostra isso). A adoção da tecnologia do plástico verde e o poder de compra da Tetrapak podem alterar significativamente o equilíbrio de mercado em favor deste tipo de plástico. Restaria, depois, a evidente pergunta do que fazer com o passivo ambiental. De acordo com a´Política Nacional de Resíduos Sólidos, a sociedade paga uma parte, a empresa paga outra e o Estado fiscaliza. Tá ok?

2. Unilever e a certificação de seus fornecedores

A meta de atingir 100% de certificação de seus fornecedores até o final da década é uma ação de grande escala da Unilever que pode resultar em grandes ganhos para sustentabilidade ambiental. Com 5000 parceiros a Unilever desenvolveu um sistema de seleção e avaliação que inclui programas de qualidade e adoção de práticas socioambientais. Os insumos agrícolas devem passar por programas de certificação e a Unilever incentiva a adoção de certificações reconhecidas pelo mercado. O poder de negociação da empresa em relação aos fornecedores e ao mercado podem ser cruciais para deslocar a régua da sustentabilidade na produção no Brasil. Como indicadores o executivo da empresa cita que passou de 20% para 40% de insumos de fontes certificadas em três anos. Impressionante.

3. Criação de unidade de negócios para aproveitar oportunidades de reciclagem

O valor econômico dos resíduos descartados e o seu reaproveitamento são temas críticos para uma gestão ambiental efetiva. A EMBRACO aproveita cerca de 99% dos mais de 2 milhões de compressores produzidos e descartados, dando nova destinação ao que recicla. Isso significa 12.000 toneladas de resíduos reaproveitados, incluindo o reaproveitamento de 60.000 refrigeradores. Como bem se sabe, a reciclagem dos compressores de geladeiras devem obedecer a certos critérios, visto que o gás utilizado para resfriamento precisa ser coletado e tratado. Esta iniciativa, quando casada com a implementação plena da Política Nacional de Resíduos Sólidos, pode dar um ótimo resultado.

4. Utilização do conceito de economia circular pela HP

A economia circular é o conceito principal da Ecologia Industrial, onde busca-se o reaproveitamento total da energia e matérias utilizados em sistemas produtivos. A HP promove tanto o reaproveitamento de matéria-prima reciclada e reinserção de materiais nos processos produtivos por seus fornecedores quanto a pesquisa por tecnologias que aumentam a eficiência dos seus produtos. É crucial para a abordagem da empresa o conceito de Análise de Ciclo de Vida, no qual se avaliam os impactos ambientais dos processos produtivos deste a extração de recursos naturais até o descarte. Com isso, é possível escolher alternativas técnicas e tecnológicas para reduzir o impacto total dos produtos e assim aumentar a eficiência produtiva.

A revista detalha diversas outras iniciativas, mas estas quatro são emblemáticas. Adoção de novas tecnologias, certificação de fornecedores, novos negócios relacionados à reciclagem e a aposta na economia circular são movimentos muito eficientes que usam o poder de negociação das empresas nos seus mercados de atuação para gerar um novo patamar, superior, sem dúvida, de equilíbrio. As exigências de grandes empresas para seus fornecedores tem um grande poder transformador nas cadeias produtivas e nos impactos para a sociedade. São estudos de casos que deveriam ser analisados em todas as escolas de administração pública.

EF – Outono de 2013 – Água

Estima-se que dois terços da população global viverão em locais com estresse de água, onde a qualidade e quantidade disponível tornar-se-ão problemas para estas sociedades. A Sarasin’s Sustainable Water Fund acredita que em médio e longo termo as perspectivas de crescimento privado do mercado da gestão de recursos hídricos terá um retorno de investimento interessante, visto que há uma demanda reprimida por projetos de captação, tratamento e distribuição de água em diversas partes do mundo que apresentam um crescimento da população e da economia.
Outro tema é a tecnologia. O desenvolvimento de sementes resistentes ao estresse hídrico por empresas de biotecnologia, o aumento da produtividade relacionado ao aproveitamento da água para geração de biomassa, os sistemas mais eficientes de uso de água em cidades também são áreas onde já existem empresas investindo e com alto potencial de crescimento.
Mercados com alta demanda por atualização de sistemas de fornecimento de água que apresentam pouco investimento histórico também são candidatos a receber mais investimentos. Os EUA, especificamente, tem um sistema de coleta, tratamento e distribuição que necessitará de atualização. Neste caso, talvez seja um competidor por recursos com os demais países do mundo, especialmente aqueles com alta população e crescimento econômico, que usualmente resulta em maior demanda por soluções em gestão de recursos hídricos.
No Brasil já temos a lei 9433/97, a Política Nacional de Recursos Hídricos, que representa uma grande modernização à gestão no país. Exige a formação de Comitês de Bacia tripartite, com participação do poder público, setor produtivo e sociedade, atribui valor econômico à água e exige a cobrança pelo seu uso, e exige um plano de uso da bacia hidrográfica, de forma a planejar as intervenções e gerar recursos para investimento em infraestrutura de melhoria da qualidade e quantidade de água disponível para a população da bacia hidrográfica.
Em virtude da complexidade de aplicação da lei, é necessária ainda a evolução dos mecanismos de formação e gestão de recursos, porém a realização de obras necessárias para prover a sociedade adequadamente deste recurso vai fomentar um grande mercado privado brasileiro para empresas especializadas no tema.

Debate interessante na Environmental Finance

Desinvestir em empresas que produzem aquecimento global tem sido discutido em fundos de pensão. A revista Environmental Finance de setembro/outubro/novembro de 2013 perguntou a dois gestores de fundos de pensão a opinião relativa a desinvestimento em empresas que produzem tais impactos e quais critérios seriam importantes para realizar a análise.

Jack Ehnes, CEO do fundo de pensão de professores da Califórnia, é responsável por investimentos de USD 170 bilhões, defende que, ao olhar para o longo prazo, há necessidade de previsibilidade no mercado. Cita como exemplo a mudança de postura da administração Obama em relação à do ex-presidente Bush e que mudanças abruptas no mercado não seriam bem percebidas pelos beneficiários do fundo.

Christine Meisingset, gestora de investimento sustentável na Storebrand, com USD 76 bilhões em investimento, defende as ações tomadas pelo fundo de exclusão de 13 empresas de carvão e 6 de petróleo que exploram petróleo de xisto. Segundo ela, é uma questão de tempo até que as políticas em relação às mudanças climáticas e regulamentos comecem a afetar a avaliação de empresas e os investidores institucionais precisam atentar para este fato.

Ambos citam o longo prazo para justificar tanto a decisão de desinvestimento ou manutenção da posição. Um ponto importante levantado por Christine refere-se na exclusão de empresas baseada em eventos pontuais relacionados a danos ambientais ou a exclusão baseada em análise de riscos ambientais setoriais.

Admite-se que o ranqueamento das empresas de energia seria realizado de acordo com a intensidade de carbono da produção de energia e que optaria-se pelo investimento em energia de gás natural, com menor intensidade de carbono.

É importante considerar que já há fundos de pensão internacionais considerando a intensidade de carbono na construção de seu portfólio de investimentos, apesar da iniciativa não aparecer de forma comum no mercado. Uma possível evolução do mercado aponta para uma seletividade maior dos fundos de pensão na hora de investir. A questão do risco baseado nas crescentes evidências científicas sobre as mudanças climáticas e aquecimento global seguramente serão critérios de análise para investimento. 

Na minha opinião, pode haver perda de valor de empresas petrolíferas, especialmente aquelas que produzem combustíveis com base em fósseis e aquelas que exploram petróleo em ambientes mais arriscados.

Percepção e realidade

Costumo falar para meus alunos virtuais que podemos medir o grau de desenvolvimento de um país pelas políticas e práticas que adotam em relação ao tratamento de seus resíduos.

Inicio o curso com uma pergunta básica: Quais são os principais problemas ambientais do seu município?

A partir desta pergunta, tendo em vista os diferentes locais onde eles vivem, consigo ter um panorama de como está o nosso país em termos de saneamento ambiental.

Os problemas são enormes. Desde a simples coleta de resíduos, passando para destinação e separação, até o descarte inadequado de lixo hospitalar sem qualquer preocupação de gestores ambientais públicos ou privados (quando os há).

A partir destas informações, utilizando o princípio da cibernética dos feedbacks, consegue-se perceber que não ha prioridade política para a gestão do saneamento ambiental, como bem podemos evidenciar pelas pesquisas do PNAD que frequentemente recebemos.

Uma questão emerge: Estarão nossos “gestores” olhando para esta questão? Estarão eles destinando recursos do orçamento dos municípios para melhorar a coleta, destinação e tratamento de resíduos sólidos, de efluentes líquidos ou de emissões? Terão eles a sensibilidade necessária para elaborar a necessária legislação local? Há empresas no município para efetuar o gerenciamento de resíduos?

Certa vez, e não vou me lembrar exatamente quando, li um artigo no qual se falava que a coleta seletiva e reciclagem só eram viáveis em municípios com médio para grande porte, em virtude da “riqueza” do que era descartado. Não sei se foi considerado na atual Política Nacional de Resíduos Sólidos este “limite”.

Sei que pelo que leio dos meus alunos, ainda estamos longe de uma efetiva gestão integrada de recursos. Temos a política nacional de recursos hídricos, que determina que a unidade de planejamento é a bacia hidrográfica, determina a cobrança pelos recursos hídricos por agências de bacia, que seriam responsáveis, por sua vez, por aplicar os recursos em melhorias que resultassem no aumento da quantidade e qualidade de água, de acordo com as prioridades apontadas pelos comitês de bacia. Muito difícil de executar, seguramente.

Além disso, há a necessidade de organizar a ocupação humana nos municípios, que dependem da vontade dos políticos locais, da localização de suas bases eleitorais e outros critérios menos claros e técnicos. O resultado, todos sabemos: Qualquer época de chuva no Brasil gera desastres.

Se há critérios técnicos para realizar o planejamento territorial, a gestão de resíduos sólidos, o saneamento ambiental e a gestão de emissões, seria responsabilidade dos gestores eleitos resolver estes problemas, juntamente com a população e as empresas locais. A pressão funciona muito bem, quando acompanhada por soluções.

O que não dá para entender é que continuemos a verificar, a partir das informações recebidas pelos alunos, a inadequação dos sistemas de saneamento ambiental e de planejamento territorial e as terríveis consequências em termos de saúde pública e desastres ambientais aos quais temos nos acostumado, e que o jogo, com relação ao ambiente, é somente um jogo de empurra à procura de mais verbas, muitas vezes não aplicadas diretamente nas necessidades que geraram as demandas por recursos.

Gestão de resíduos na União Europeia – Princípios

Baixei um documento bastante interessante no site da Agência Ambiental Europeia chamado “Being Wise with waste: The EU’s approach to waste management”. A intenção do documento é apresentar alguns dados e mostrar quais princípios norteiam a política ambiental europeia para a gestão de resíduos sólidos.
Para começar, contextualizam o interessado no tema sobre os volumes de resíduos gerados na União Europeia. São 500 milhões de habitantes gerando 0,5 tonelada de resíduo por ano por habitante, somados a 360 milhões de toneladas de resíduos dos processos industriais, 900 milhões de toneladas da construção e 95 milhões de toneladas da geração de energia e gestão de recursos hídricos (Primeiro ponto positivo: informações detalhadas sobre de onde vem o impacto. Pressão exercida: 500 milhões de habitantes gerando todos estes resíduos em um espaço bastante limitado induz a busca por soluções).
Um desafio adicional percebido pela Agência Ambiental Europeia, e que é um problema comum em todos os países que passam pela revolução tecnológica, é que os resíduos tem se tornado mais complexos, com um mix de materiais mais difíceis de separar e reciclar, especialmente no que se refere aos resíduos eletrônicos (eu me recuso a descartar meus resíduos eletrônicos sem saber onde eles vão parar. Só tirar do meu campo de visão não é suficiente!).
A AAE estima que do total de resíduos gerados, cerca de 100 milhões de toneladas contém metais pesados e toxinas cujo tratamento é caro e que acabam por induzir o envio deste tipo de cargas para outros países do mundo, essencialmente aqueles não desenvolvidos, o que deveria ser crime, na minha opinião.
Tudo isso somado, e considerando os demais impactos sobre o ambiente, levaram à União Europeia a desenvolver sua abordagem para a gestão de resíduos sólidos em cima de dois pressupostos básicos:
A hierarquia da destinação do resíduo, onde a preferência recai sobre aqueles que permitem melhor gerenciamento ambiental, com a preferência para prevenção da geração em detrimento das demais, de acordo com o esquema abaixo:
1. Prevenção – Evitar o uso de produtos que geram muito resíduos
2. Preparação para re-uso
3. Reciclagem
4. Recuperação de materiais
5. Descarte
A abordagem de ciclo de vida envolve a análise de um produto ou serviço em todas as fases de seu ciclo, desde a extração, o design, a produção, a distribuição, o uso, a coleta ou disposição, o reúso, reciclagem ou recuperação até a recolocação em novos processos produtivos. A abordagem de ciclo de vida permite às empresas e aos consumidores estabelecer parâmetros de comparação entre os impactos ambientais do consumo de materiais de acordo com o escore ambiental dos produtos similares ou substitutos.
As opções disponíveis para a gestão de resíduos são a acumulação em aterros sanitários (que são fechados caso não observem os padrões estabelecidos pela AAE), o uso da energia por meio da incineração, a reciclagem de materiais em conjunto com o produtor, numa política de responsabilidade estendida ao produtor que gera pesquisa por novas soluções, o re-uso e a prevenção, que é a análise prévia à aquisição do impacto que o consumo irá causar, chegando ao eco-design, que é projetar o ciclo de vida visando o reaproveitamento total.
Os resultados desta política tem sido a redução de material que vai parar em aterros sanitários, resultado desejado em ambiente com grande população e pequeno espaço, como a União Europeia. Porém, persiste o problema do lixo eletrônico e da exportação ilegal (ou legal) de resíduos para países em desenvolvimento, com padrões ambientais menos restritos.

O que poderíamos aproveitar para o Brasil, que ainda está na fase de encerramento de seus lixões e tem uma política nacional de resíduos sólidos praticamente recém-aprovada? Temos problemas com projetos para aterros sanitários, temos problemas com as prefeituras, que não consideram este tipo de projeto relevante, tendo em vista o retorno financeiro insuficiente (na visão dos prefeitos e câmaras de vereadores), a pouca pressão a que estão submetidos os gestores públicos no tema, diversos contratos com empresas de gestão de resíduos com problemas legais e sob suspeita, uma cultura não empresarial de reciclagem de resíduos, posição pouco amigável, para não dizer contrária, das empresas para políticas de responsabilidade estendida aos produtores.
Como dito no texto do dia do meio ambiente, precisamos avançar muito.

Dia do meio ambiente… Ja é tempo de avançar…

Dia internacional do meio ambiente… A julgar pelas propagandas das empresas nos jornais e revistas, vivemos no melhor dos mundos… todos tem acesso à água potável, saneamento básico universal, tratamento de resíduos sólidos, mobilidade urbana, prédios inteligentes, energias renováveis e todas as empresas são parceiras do desenvolvimento sustentável da sociedade brasileira… Só que não…
O autor Nassim Nicholas Kaleb afirma em seu livro “Antifragile…” que se as empresas fossem tudo isso que afirmam em suas peças de marketing, não necessitariam investir tanto em comunicação para falar o quão boas são. Concordo plenamente. Imaginem, por exemplo, que as empresas fossem obrigadas por lei a reciclar as embalagens que produzem para colocar seus produtos no mercado. Seria racional, seria lógico. Eu, consumidor, compro o produto, não a embalagem.
Quem deveria estar nos aterros sanitários coletando e reciclando lixo não são os indivíduos mais desfavorecidos da sociedade, mas as empresas que efetivamente produzem os impactos com suas embalagens de longo ciclo de vida. Vamos analisar, por exemplo, a destinação dada às lâmpadas fluorescentes, pilhas e resíduos eletrônicos. Alguém já se perguntou para onde são levados estes resíduos? Para onde os postos de coleta os destinam? Será que são reciclados? Quem está pagando por isso? Quem está fiscalizando? Num país onde parte significativa da população não tem acesso à água potável (mas tem acesso aos estádios de futebol certificados pelo GBC Brasil), não tem acesso ao saneamento básico, não tem acesso à coleta de lixo diária, quem garante que os postos de recolhimento estão destinando os resíduos coletados à reciclagem?
Uma iniciativa interessante que há uma década tem sido sugerida é a responsabilidade estendida ao produtor, no âmbito da ecologia industrial. Ou seja, os produtores também são responsáveis por providenciar a reciclagem, financiando os custos da recolocação dos materiais nos ciclos produtivos. Trata-se evidentemente de uma tentativa de fechar os ciclos de materiais, encaminhando para a reciclagem e reaproveitamento os resíduos gerados no processo de consumo.
Como reagiriam as empresas e lobistas caso a responsabilidade estendida ao produtor fosse adotada no Brasil? Tenho sérias desconfianças de que seriam investidos mais recursos em lobby do que em melhoria de processos, tendo em vista o histórico da relevância do assunto para as políticas públicas em meio ambiente adotadas no país. Seria criado mais um fundo ambiental para recolher dinheiro para ser utilizado para compra de apoio político de prefeitos relutantes.
Acho importante que comemoremos o dia do meio ambiente, mas já é hora, aliás, já passou da hora, de deixarmos a maquiagem verde das grandes empresas e as campanhas publicitárias dos governos em suas esferas federal, estadual e municipal e partirmos para soluções efetivas para os problemas ambientais que afligem a população. Tratarmos de forma séria a gestão ambiental pública e privada e sairmos do simplismo das soluções rápidas, baratas e usualmente equivocadas. Temos que deixar de ser o país onde se investe mais em construção de imagem do que em soluções efetivas para melhoria da qualidade de vida, baseados em padrões de desempenho.

Seminário 25 anos da Constituição Federal e a Proteção dos Ecossistemas Costeiros e Marinhos

A Frente Parlamentar Ambientalista e a Fundação SOS Mata Atlância realizaram o evento “Seminário 25 anos da Constituição Federal e a Proteção dos Ecossistemas Costeiros e Marinhos” no dia 11 de abril de 2013. Escreverei sobre a percepção que tive sobre o descaso com o qual nós brasileiros estamos tratando nossos oceanos e a absoluta falta de capacidade de implementar uma política pública ambiental com eficiência.
É comum ouvirmos que a nossa legislação ambiental beira à perfeição. Nossas leis, com objetivos e instrumentos avançados, garantiriam que a nossa qualidade ambiental estaria assegurada. Tudo está nas leis. A Política Nacional de Meio Ambiente, lei 6938/81, o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro, a lei nº 7661/88, a Política Nacional de Recursos Hídricos, a lei nº 9433/97, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, lei 12305/2010. Se aplicados os conceitos, princípios e ferramentas disponíveis nas leis, estaríamos realmente em outro patamar.
Durante o evento, foi dito que os instrumentos para a gestão ambiental adequada dos ecossistemas costeiros e marinhos estão todos ali: Levantamento de informações, planejamento envolvendo as partes interessadas, elaboração de planos de manejo, monitoramento da qualidade da água, ações de melhoria da produtividade. No entanto, quando se faz uma análise do que foi implementado até o momento, descobre-se que a maioria dos estados brasileiros não fez o plano de gerenciamento dos seus recursos nem protege os ecossistemas que garantem a produtividade primária das zonas costeiras. Descobre-se que não há gerenciamento dos resíduos lançados ao mar e que há pouca informação sobre o assunto, e quando há não é considerada pelos gestores responsáveis pelo meio ambiente nos estados e prefeituras.
É um conceito comum em cibernética que há o estímulo, a resposta e a adaptação. Com a insuficiência de informação sobre os ecosssistemas costeiros e marinhos para subsidiar o gerenciamento, seguramente as políticas públicas não serão adequadamente implementadas ou estarão defasadas com relação às necessidades reais. Esta inadequação levará ao insucesso das políticas e à maior degradação do ambiente, provavelmente em escala superior à sua capacidade de suporte e adaptação.
Um ponto crítico colocado com bastante propriedade pelos participantes do evento é que não temos ainda estações de monitoramento em quantidade adequada. Que não controlamos a quantidade de pescado. Que nosso litoral é predominantemente oligotrófico, ou seja, tem baixa produtividade primária, o que aumenta o esforço de pesca (quantidade de tempo e recursos gastos para conseguir determinada quantidade de pescado). Que não temos informações suficientes. Que nossa pesca muitas vezes é predatória, revolvendo e destruindo os ecossistemas marinhos que são responsáveis pela reprodução dos peixes.
Ainda assim, sabendo disso, o governo federal lança um programa para estímulo à pesca industrial, mesmo sabendo que nossas águas são oligotróficas. A sinalização de esgotamento dos recursos pesqueiros, evidente, não foi suficiente para gerar no governo federal uma sinalização de que o mais urgente seria RECUPERAR a capacidade produtiva das zonas costeiras, por meio da recuperação dos ecossistemas.
E para recuperar os ecossistemas, o primeiro ponto é gerenciar os resíduos gerados nos ecossistemas terrestres. São ´milhares de toneladas de agrotóxicos, esgotos, resíduos industriais, dentre outros, lançados diariamente nos rios e lagos, que são carreados para o mar, destruindo os ecossistemas que garantem a produtividade primária dos oceanos. Estas milhares de toneladas acumulam na biomassa, inclusive na biomassa dos peixes, que são pescados e consumidos pela população em geral. Qual será o nível de contaminação destes peixes?
A gestão ambiental pública e privada necessita ser urgentemente melhorada, isto é evidente. O primeiro ponto a abordar seria olhar de forma integrada os impactos ambientais regionais, não somente focar no licenciamento de empreendimentos. Uma boa proposta, infelizmente ainda com os vícios dos Estudos de Impactos Ambientais, seria realizar a Avaliação Ambiental Estratégica, mas incluindo duas técnicas oriundas da ecologia industrial: A primeira é a Análise de Fluxos de Massa (MFA), onde seriam quantificadas todas as entradas de material em determinado espaço territorial, e a Análise do Fluxo de Substâncias (SFA) onde seriam quantificados e mapeados os fluxos de substâncias potencialmente danosas sobre determinado território e para onde estariam sendo carreadas.
Creio que tais análises, integradas à Avaliação Ambiental Estratégica e ao planejamento regional, dariam boas pistas sobre as prioridades de investimento em qualidade ambiental.
O que se torna repetitivo, é evidente, é que não temos tido sucesso em mapear os impactos e reduzi-los e isso tem causado problemas que nossos fracos mecanismos de feedback não tem captado. A situação dos ecossistemas marinhos, exposta de forma contundente no evento, evidencia mais uma vez que não temos tido sucesso em transformar as políticas nacionais relacionadas ao meio ambiente em ações efetivas, planejadas, e que resultam em melhoria de indicadores ambientais.
Há cenários já trabalhos por futurólogos da morte dos oceanos já no quinquênio 2015-2020. Esta é uma questão crítica.

Será que a lógica da relação das empresas e seus consumidores é semelhante à da relação de dependência química???

Não tenho dúvida que toda empresa busca isso: Um consumidor que fica viciado (ou fidelizado) em consumir seus produtos pelo resto da vida. E são várias as estratégias: As imagens, o design, os atributos não materiais, o preço, as técnicas de marketing… Tudo isso para que o consumidor tenha uma relação de dependência da empresa.
Costumo discutir com minha irmã que passamos do controle da igreja para o controle do estado e agora as empresas tentam fazer isso. Quando passaremos para o controle da sociedade, quando decidiremos o que produzir, como produzir… Não podemos deixar para as empresas que nos avisem quando um produto delas próprias pode nos fazer mal ou prejudicar nossas vidas.
É preciso definir bem as responsabilidades e estabelecer o que queremos, com que tipo de controles e baseados em avaliações de terceiros. E ainda assim, não temos garantias de que as empresas estão efetuando ou não greenwashing ou que o consumo de seus produtos pode impactar nossas vidas.
Vigilância sempre.

Estabelecendo prioridades no processo político – Sustentabilidade como discurso ou prática?

Tornou-se comum para as empresas desenvolverem planos de comunicação complexos apenas para divulgar intenções ou políticas. O Greenwashing tornou-se uma verdadeira febre, em parte porque as empresas (ingenuamente ou deliberadamente) não conseguiam desenvolver um conceito de sustentabilidade, com uma métrica reconhecida, que permitisse às demais partes interessadas na atividade da empresa reconhecê-la como sustentável.
Algumas destas métricas são bem conhecidas: possuir uma política ambiental e social, possuir ações com base nesta política, realizar auditorias de conformidade periódicas, estabelecer exigências sociais e ambientais para os fornecedores e terceirizados (incluindo a conformidade com leis trabalhistas), todas estas ações evidenciam que a administração da empresa preocupa-se com o assunto. Adicionalmente, uma preocupação real em fazer mais do que somente mostrar, investir em inovação, novos materiais, reciclabilidade dos produtos, políticas de take-back, todas são iniciativas que apontam para um novo horizonte nos processos econômicos.
Tem se discutido muito até que ponto as empresas tem incorporado a sustentabilidade ou apenas investido em comunicação. Bom, não se pode negar que o marketing tem aprontado das suas, gerando mais confusão e enganando o consumidor do que explicando. Para mentes mais liberais, quem tem que procurar a informação é o consumidor, sendo que a função da empresa é apenas vender mais, fidelizar o consumidor e torná-lo “dependente” da empresa, mais ou menos como uma relação de fornecedor-viciado.
As métricas desenvolvidas para medir a sustentabilidade medem justamente as políticas e práticas socioambientais e buscam evidências para as respostas das empresas. Realmente dá para acreditar quando um DJSI emite um relatório das empresas mais sustentáveis do planeta, com pontuação e disponível publicamente, sim, pois não se pode ter uma empresa sustentável e fechada às demandas da sociedade.
Existe um ponto, no entanto, que me incomoda nesta métrica: Não se mede o que a empresa produz. É perfeitamente possível que uma empresa de petróleo tenha políticas e práticas consistentes, ainda que a queima de seu produto produza emissões de gases de efeito estufa.
Um outro ponto interessante é que há empresas que produzem tabaco e cigarros que investem muito em práticas e políticas socioambientais consistentes, mas o seu produto tem alto impacto sobre a saúde humana. Ainda assim, tais empresas patrocinam revistas que falam sobre sustentabilidade. É inconsistente.
Do mesmo modo, como tratar bancos que tem políticas e práticas de sustentabilidade mas mantém as taxas de juros altas e não tem práticas de educação financeira ou mascaram seus índices estabelecendo metas de desempenho quase desumanas para seus funcionários, estimulando a pressão excessiva de chefes sobre seus subordinados.
Reconhecemos que a realidade hoje é muito melhor, sob o ponto da vista da sustentabilidade, do que há vinte anos atrás, quando foram lançados os embriões da responsabilidade socioambiental corporativa, porém sem vigilância e pressão as empresas tendem a investir mais em comunicação do que em ações reais.
A sociedade civil tem importância crucial nisso. Reconheçamos, por exemplo, a importância das ONGs ambientalistas, muitas delas com corpo técnico muito qualificado, que fazem pressão sobre as empresas e desnudam o véu da ideologia do marketing como fim, não como meio. Muitos relatórios internacionais de ONGs colocaram pressão sobre os bancos, exigindo deles muito mais do que a simples retórica socioambiental.
À medida que as relações vão se tornando mais complexas dentro das sociedades, mais temas vão sendo incorporados. Em geral, nos países democráticos e desenvolvidos, a sociedade tem um peso muito grande na pressão sobre as empresas e na definição dos conteúdos importantes e obrigatórios que as empresas devem seguir, em parceira com os governos.
Da próxima vez que observar campanhas de empresas com água, meio ambiente preservado, florestas, e utilizando a palavra mágica sustentabilidade, pense duas vezes (ou mais). Muitas destas estratégias não tem rebatimento real nas atividades da empresa e são feitas apenas para convencê-lo a consumir mais daquela empresa. Abram o olho.

Environmental Finance de Outubro 2011

Uma publicação muito interessante e que tem tudo a ver com os assuntos abordados no relatório “Towards a Green Economy”, especialmente no que diz respeito ao financiamento da nova Economia Verde é a publicação Environmental Finance.
É uma publicação especializada em aspectos relacionados ao financiamento de projetos de sustentabilidade e a evolução do mercado Verde.
Neste mês a revista traz novidades sobre o investimento em energia renovável, com o impacto da crise sobre os projetos devido à redução da disponibilidade de recursos e como enfrentar e financiar as cidades sustentáveis, tendo em vista o aumento da população urbana em todo o mundo, com as consequências observáveis em termos de mobilidade urbana e pressão sobre infraestrutura. Além disso, mostram um aspecto muito interessante do mercado do desmatamento evitado, que tem crescido muito no sudeste asiático.
Uma ação que provavelmente vai ocorrer em breve é a especialização de bancos no financiamento do mercado verde, com utilização de recursos já disponíveis no sistema financeiro a um custo mais baixo.
Pensando na economia como um todo, há possibilidades em energias renováveis, infraestrutura, edifícios verdes, biodigestores, agricultura orgânica, seguros, varejo, enfim, em todas as áreas onde atua um banco. Qual será o primeiro banco a aproveitar tais oportunidades?
A atividade de um banco é retirar dinheiro a uma taxa x e emprestar para quem precisa a uma taxa x + y… Se os recursos para funding destas atividades é mais barato, os bancos podem ganhar muito ao realizar estas operações “sustentáveis”. Pensemos, por exemplo, se os bancos tiverem uma área de consultores financeiros com background ambiental, eles poderão prospectar negócios com menores taxas para o tomador.

Isso vai acontecer… Basta saber quem no Brasil será o primeiro…