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Design para a Economia Circular (2)

O quadro abaixo sumariza o impacto de tendências observadas para o circularidade dos materiais numa economia.

A tendência 1 fala sobre a complexidade dos designs de produto. Como exemplo cita os smartphones multifuncionais, que realizam vários serviços que dependeríamos de diversos outros produtos para efetuar. Cita como impacto negativo a dificuldade em separar os componentes em virtude da sua reciclabilidade limitada.

A tendência 2 fala do design modular, que estende o ciclo de vida do produto e permite uma maior remanufatura e reparo.

A tendência 3 fala do produção local on demand e cita claramente a tecnologia de impressão 3D, onde um produto pode ser produzido em qualquer local do planeta, bastando para isso ter o projeto e os materiais que o compõem, aumentando a customização.

A tendência 4 mostra a tendência de se construir serviços a partir de produtos, aumentando a frequência de uso, a longevidade e os serviços de reparo. Um exemplo é a economia do compartilhamento, onde um carro parado pode ser usado por quem precisa do serviço de deslocamento.

A tendência 5 refere-se ao e-commerce e o aumento da eficiência produtiva com menos estoques, onde o produto não precisa de mostruário físico e diminui os deslocamentos dos consumidores para as lojas. Tem sido uma tendência e já tem provocado fechamento de redes tradicionais. Um exemplo claro é a Amazon.com.

A tendência 6 é o aumento da vida útil dos produtos, reduzindo o domínio da obsolescência programada e impactando diretamente a moda.

A tendência 7 lida com o consumo colaborativo, que afetará diretamente a economia da posse em detrimento da economia dos serviços.

A tendência 8 refere-se aos mercados para reciclados, que resulta em empresas especializadas em gerir a reciclagem e destinação de produtos.

A tendência 9, finalmente, lida com a internet das coisas, que permite mais e melhores informações sobre os produtos consumidos e os materiais que os compõem.

Estas 9 tendências ajudam a montar um cenário para a economia circular. Demonstram que há movimento e que precisa-se de condições específicas para desenvolver-se plenamente e tornar a economia um processo circular.

O relatório chama de “enablers”, ou fatores viabilizadores (tradução livre), os três principais fatores geradores de ação:

  1. Deslocamento da economia da posse para a economia de serviços
  2. Usar a impressão 3D e a internet das coisas para reforçar a economia circular
  3. Alinhar políticas e instrumentos para tornar o ciclo de vida de produto mais eficiente

A partir daí provê o diagrama abaixo, onde os requerimentos para uma economia circular emergem em cada fase do ciclo.

A Economia Circular, de acordo com a publicação, é aquela na qual o uso de materiais, incluindo a reciclagem, reuso e recuperação visa reduzir a geração de resíduos, a dependência da extração de matéria-prima e a importação de materiais, com potencial de gerar benefícios ambientais e econômicos.

A abordagem da publicação mais uma vez foca em ações a serem desenvolvidas pelo ente regulador, pelos consumidores e pelas empresas. Uma ação conjunta é o ponto de partida para qualquer movimento que pretenda gerar sinergia.

Muitas das tendências se alinham às necessidades de inovação no uso da tecnologia e é aqui que emerge a interface com o mundo das coisas. Considerando as necessidades de uma economia como a brasileira, a abordagem da Economia Circular como ponto de partida dos nossos projetos de desenvolvimento por parte do regulador e das empresas pode gerar novos movimentos relacionados à atração de investimentos e de novos processos de produção e consumo.

Só temos a ganhar com a consequente geração de empregos necessários para nosso desenvolvimento e novos recursos para aplicar em nossas cidades e nossas cadeias econômicas. A conferir e trabalhar por isso.

Design para a Economia Circular

A União Europeia lançou o relatório “Circular by Design – Products in the Circular Economy“, no qual identifica as premissas para se avançar para uma economia circular focada muito além da eficiência no uso de recursos naturais e na reciclagem de resíduos.

O foco no design significa ultrapassar a obsolescência programada, estendendo a vida útil dos produtos. Entram na ordem do dia o reúso, reparo, redistribuição, remanufatura e reforma, bem como investimentos em pesquisa de produtos com menor potencial degradador do meio ambiente.

Como premissas continuam as de não considerar os processos produtivos lineares, mas desenhar tais processos de forma circular (vemos muito o papel da engenharia de produção em correlação com a engenharia ambiental e as empresas gestoras de sinergias).

O Relatório

A primeira parte do relatório deixa explícitas quatro pressões para adotar uma Economia Circular: Evitar impactos ambientais e sobre a saúde pública relacionados à economia linear, evitar o uso ineficiente de recursos naturais e evitar a dependência de recursos externos à União Europeia.

Minimizar o input de recursos ambientais em processos por meio da manutenção de materiais durante o maior período possível reduz a necessidade de novos materiais e energia, reduzindo os impactos relacionados ao ciclo de vida dos produtos.

Adotadas as políticas para uma economia circular, explícitas nas estratégias de uso de recursos por parte da União Europeia, espera-se o efeito sinérgico do menor uso de materiais e energia na produção, com a consequente redução de emissões relacionadas à maior eficiência.

O esquema conceitual da Economia Circular considera a necessidade de manter os materiais o máximo de tempo possível nos processos produtivos, com valor. Para cumprir o disposto neste esquema, há de se inserir o eco-design desde o início do processo, influenciando na escolha dos materiais, na produção e distribuição, no consumo e acumulação na infraestrutura até o descarte.

Há diversos papeis a serem assumidos nesta transição da economia linear para a economia circular. O Regulador (estados nacionais, regiões, etc) emitem as normas para eficiência energética, energia renovável, monetarização das emissões de carbono por meio de taxas ou cap and trade, que funcionam como forças para direcionamento do mercado.

As empresas, por sua vez, avaliam seus produtos por meio do LCT – Life Cycle Thinking – considerando o design de seus produtos “do berço ao berço”, com uma estimativa dos impactos gerados durante a extração da matéria prima, desenvolvimento, produção, consumo e reaproveitamento.

Os consumidores tendem a escapar da “samsara” da obsolescência programada. Os produtos não podem somente seguir a moda. Há um movimento real de se pagar pelo serviço obtido ao invés da posse e esse movimento tem sido reforçado pelas tecnologias da informação.

De acordo com o relatório, a transição da economia linear para uma economia circular exigiria dos atores diferentes mudanças.

Negócios

  1. Transição do valor do produto para o valor do serviço, com o valor de mercado do serviço sendo medido pelo valor agregado, não somente pelo valor de venda determinado entre o custo de produção e o valor da venda.
  2. Reversão da tendência de produção em massa em escala global, com o produto produzido longe do local de consumo para uma produção localizada e mais eficiente.
  3. Oferta de economia de serviços ao invés da economia da posse do produto
  4. Tendência de avaliar o ciclo de vida do produto desde o design ao invés do binômio consumo-descarte.

Consumidor

  1. Ultrapassar a fase do marketing ligado à obsolescência programada para o serviço oferecido, com iniciativas de co-criação e co-produção de produtos e serviços.
  2. Atitudes relacionadas ao comprar local, reduzindo a necessidade por produtos produzidos a milhares de quilômetros e transportados para a porta de casa.
  3. Acessibilidade ao serviço se torna a norma e não a posse.
  4. Incentivos para a incorporação do ciclo de vida ao ciclo do consumo

Regulador

  1. Fomento de iniciativas mais “microindustriais”, com taxação das emissões de resíduos
  2. Gestão dos produtos para o desenvolvimento local, com produção localizada.
  3. Maior identificação e redução de riscos associados aos materiais usados na produção.
  4. Facilitação da gestão do fim de ciclo de vida, com incentivos em toda a cadeia.

Algumas destas iniciativas já estão sendo incorporadas ao dia a dia das empresas. A transição das empresas para o modelo de serviços é uma tendência observada em diversas empresas de grande porte.

Estas iniciativas tem grande impacto sobre o modelo sob o qual os processos econômicos estão organizados dentro de uma sociedade. Ao avaliar os processos de produção e consumo, verificamos que há muito a avançar no design de produtos e na extensão da sua vida útil.

O próximo post continua a avaliar o material, desta vez com relação às tendências de mercado para uma economia circular.

 

Nova emissão de green bonds da Apple – Economia circular tomando forma na Estratégia da Empresa

Após a emissão do primeiro green bond da Apple no valor de USD 1,5 bilhão a empresa vai ao mercado de novo para emitir novo título de dívida no valor de USD 1 bilhão.

O Green Bond tem por característica financiar projetos e processos sustentáveis de produção, com adicionalidades na eficiência produtiva e na ciclagem de materiais dos processos produtivos.

Os recursos captados serão investidos nas seguintes atividades:

  • Energias renováveis e sistemas de estocagem de energia, sinalizando que a empresa pode diversificar suas atividades e entrar no mercado de baterias;;
  • Green Buildings, objetivo de capítulo específico do relatório de Economia Verde da UNEP, cujos princípios sinalizam que os edifícios podem ser geradores de energia;
  • Novos designs para edifícios eficientes, relacionados ao tópico anterior;
  • Eficiência Energética, aumentando a eficiência ou o Retorno sobre Investimento em Energia (ROIE);
  • Melhoria na qualidade da água, da eficiência do uso e na conservação do recurso, creio que em virtude da crise hídrica da Califórnia;
  • Investimentos no fechamento dos ciclos de materiais em sua cadeia de suprimento, com o poder de negociação da Apple gerando novos processos produtivos limpos em seus fornecedores em todo o mundo;
  • e Eliminação do Uso de Substâncias Tóxicas, numa abordagem que reflete também a Substance Flow Assessment (SFA), técnica aplicada em Ecologia industrial para mapear o caminho de substâncias no ambiente.

Ao avaliar onde serão aplicados os recursos do Green Bond de USD 1 Bilhão identificamos elementos de Ecologia Industrial entrando diretamente na estratégia da Apple. Uma das maiores críticas associadas aos seus produtos é a falta de uma abordagem de ciclo de vida, sem o necessário take-back dos produtos descartados. Já na primeira emissão de Green Bonds a Apple utilizou o recurso para desenvolvimento de uma máquina para reciclar seus produtos em “fim” de ciclo de vida.

O livro Industrial Ecology, Policy Framework and Implementation, de Brad Allenby, já apontava em 1995 como os sistemas produtivos poderiam desenvolver-se até chegar à circularidade, ie., sistemas fechados sobre o ponto de vista do aproveitamento material com fluxo de energia externa ao sistema sustentando esta ciclagem.

No livro Taking Stock of Industrial Ecology observa-se que o campo científico da Ecologia Industrial tem se diferenciado e ramificado, usando várias das técnicas associadas à disciplina, tais como o metabolismo societário, a MFA, a SFA, a Avaliação de Ciclo de Vida, tendo por premissa que a Ecologia Industrial seria a ciência da sustentabilidade e que é possível atingir-se a circularidade material de processos usando apenas o input de energia externa ao sistema.

Reforça-se nas ações da Apple o uso da Ecologia Industrial na elaboração de estratégias de sustentabilidade específicas, com o conhecimento científico relacionado sendo utilizado e aplicado à área de finanças, com o potencial de gerar sinergias globais na gestão ambiental privada.

A acompanhar o desenvolvimento de novas ações.

Quantificação dos plásticos nos oceanos – Nature Communications

Artigo interessante na Nature Communications se propõe a quantificar  as emissões de plásticos para os oceanos, com vistas a realizar uma primeira aproximação da intensidade dos inputs de poluição que sai dos rios para os mares, baseados na gestão de resíduos, densidade populacional e informação hidrológica.

A estimativa de material descartado nos oceanos anualmente está entre 1,15 e 2,41 milhões de toneladas, com 74% do descarte total ocorrendo entre maio e outubro. Os 20 rios mais poluídos estão em sua maioria na Ásia, com o Rio Amazonas aparecendo em sétimo lugar no volume total de resíduos descartados.

O método utilizado permite estimar a quantidade de resíduos plásticos descartados nos Oceanos de forma global (talvez por isso a grande incerteza na estimativa), apontando para as prioridades na gestão destes resíduos.

Os parâmetros utilizados permitiram encontrar uma correlação positiva entre a quantidade de plásticos descartados e a densidade populacional, a produção de resíduos por habitante, a presença de represas nos rios (que resulta em barreira física para a fluxo de materiais plásticos), dentre outros.

A quantificação é o primeiro passo para estabelecer prioridades (dentro do princípio de que o que não é quantificado não é gerenciado). Prioridades territoriais para a intervenção em termos de gestão, prioridades para financiamento e em que período do ano, visto que foi encontrada uma diferença em função do período do ano (ligadas às variáveis de clima, p.ex. precipitação).

O estudo inicial levanta várias hipóteses com relação à geração de resíduos e sua dinâmica de distribuição global, com fatores que podem ter correlações positivas ou negativas nesta dinâmica de descarte global.

A gestão de resíduos, portanto, continua a ser um problema crítico para os gestores ambientais, tanto públicos quanto privados. A adoção de princípios de Economia Circular na fase de design de produtos (o DfE – Design for Environment) é uma das possíveis soluções em escala. O incremento do valor do plástico descartado também pode ser um fator indutor da reciclagem.

A redução do uso de embalagens e dos produtos descartáveis também é uma das bandeiras adotadas globalmente por grupos de pressão, com resultados razoáveis na utilização de produtos não recicláveis e resultando em legislação restritiva por parte de alguns países e estados, como a França, Holanda e Califórnia (EUA).

O uso da incineração em alguns países, como o Japão e a Islândia, também é uma maneira de reduzir o volume de resíduos e o descarte no mar, em que pese as emissões gasosas altamente poluentes.

O documentário Trashed demonstra que, mesmo que resolvamos o problema altamente complexo do descarte de plástico nos oceanos por meio das soluções tecnológicas do DfE ou redução do volume de resíduos produzidos, ainda existe um passivo a ser enfrentado nos aterros sanitários e lixões em torno do planeta e que continuarão a causar impactos muito tempo depois do seu descarte.

De qualquer forma estimar a quantidade de resíduos plásticos descartados nos oceanos é um primeiro passo para o gerenciamento: O problema foi identificado e as quantidades foram estimadas. Daí, pode-se passar a priorizar a solução politicamente, considerando que será identificada como uma questão crítica e receberá recursos e responsáveis para o tema.

Análise das políticas públicas de eficiência de uso de recursos na União Europeia

A Agência Ambiental Europeia (AAE) produz relatórios de gestão ambiental pública e privada de alta qualidade. Isso não é novidade, como podemos atestar neste link. O relatório n. 10/2016 trata da análise das iniciativas dos países-membros em eficiência no uso de recursos materiais.

O conceito que baliza a eficiência do uso de recursos materiais é o de Ecoeficiência: Produzir maior retorno econômico reduzindo o impacto ambiental das atividades econômicas e o desperdício de recursos, aumentar o reuso e a reciclagem e reduzir a pressão sobre os recursos naturais não renováveis.

A proposta do relatório é a de levantar informações sobre as políticas adotadas em eficiência no uso de recursos nos países e colocar os países da UE no caminho para uma economia circular.

Uma Economia Circular envolve conceitos de Ecologia Industrial, quando se planeja o desenvolvimento de produtos ecoeficientes desde o nascimento do conceito, com as premissas da reciclabilidade e do design para o ambiente (DfE), até a proposta de aproveitamento e reaproveitamento total de resíduos. Adicionalmente pode-se citar a proposta de desenvolvimento de complexos eco-industriais com resíduo zero, com integração da produção entre indústrias e redução de perdas de energia e materiais em processos.

As principais evidências de que as políticas da União Europeia estão desenvolvendo-se em direção à Economia Circular são as seguintes:

a. Institucionalização da questão, com a destinação de recursos humanos, técnicos e financeiros para tratar do tema nos Estados;

b. Integração de políticas de energia, materiais e resíduos;

c. Percepção da necessidade de focar em iniciativas de Ecodesign (DfE), novos modelos de negócios, ações sobre o comportamento do consumidor e incentivos para desenvolvimento científico.

A adoção dos conceitos de Ecologia Industrial  nas políticas da AAE demonstra que o pensamento científico subjacente à área de pesquisa entrou na ordem do dia nas políticas da União Europeia, transformando-se em estratégias e planos de ação tendo por meta induzir a circularidade dos processos econômicos. Estes conceitos passam a ser importantes para cidadãos, empresas e governos e viram parâmetros para avaliação da efetividade das ações propostas pelos países.

A adoção de metas concretas para mensurar a efetividade das ações em eficiência no uso de materiais, no entanto, ainda é um desafio reconhecido pela AAE, visto que os estados estão em diferentes estágios de evolução da política de gestão de recursos. Reconhece-se que o incremento da troca de experiências resulta em evolução mais rápida das políticas adotadas nos estados-membros.

Redução de emissões de GEE em transportes

Texto publicado hoje na environment360, blog de assuntos ambientais da Universidade de Yale, analisa a ausência de metas para a redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) relacionadas ao transporte de pessoas e cargas em torno do planeta.

A motivação emerge do fato de que as emissões de navios e aviões respondem por 6% das emissões globais de GEE, com expectativa de chegar a 40% das emissões globais em 2040, e que existe uma dificuldade em atribuir as emissões aos países, tendo em vista a natureza transfronteiriça destas atividades.

A posição das duas principais organizações relacionadas ao transporte de cargas e pessoas em relação ao tema emissões de GEE revelam posições antagônicas e tentativas de bloquear iniciativas com base na velha dicotomia crescimento econômico x responsabilidade ambiental.

Enquanto a Internacional Civil Aviation Organization (ICAO) analisa que tipo de ações tomar, visando claramente gerar um compromisso a ser seguido pelas empresas responsáveis por até 90% das emissões do transporte aéreo, com a tendência a investir em renovação tecnológica em biocombustíveis para redução das emissões líquidas e compensação por meio de doação de recursos ao REDD+, a Internacional Maritime Organization (IMO) ainda tem dúvidas quanto à assunção de metas para redução de emissões, com o argumento de que a adoção de metas reduziria o crescimento econômico.

No texto publicado explica-se também que houve discussões no âmbito dos países desenvolvidos e em desenvolvimento e que metas para o transporte marítimo foram bloqueadas pelo grupo dos BRICs, Brasil, China, Rússia e Índia, justamente com base no argumento dicotômico, causando estranheza à Sustainable Shipping Initiative (SSI), cujos membros incluem a Maersk, a Carnival e grandes usuários como a Cargill.

Os grandes movimentos globais surgidos a partir da COP 21, visando pressionar os processos produtivos e os elos de distribuição e consumo a eles ligados, dentre eles a logística, demonstram que haverá uma busca acelerada por eficiência e esta busca terá por resultados maior investimento em ciência e tecnologia, com motores cada vez mais eficientes, combustíveis mais eficientes e ações urgentes para redução de consumo de combustível.

As cadeias produtivas que sustentam a transição para a Economia Verde serão beneficiadas pelo investimento em pesquisa e desenvolvimento e novas cadeias produtivas relacionadas. No entanto, como bem visto nos papéis desempenhados por governos, organizações não governamentais e associações de classe, uma maior pressão relacionada às metas de redução de emissões e em investimento em eficiência no uso de energia seguramente terá um efeito sinérgico na aceleração da busca por soluções, sejam elas políticas, tecnológicas ou comportamentais.

O mundo prepara-se para uma economia de baixo carbono. O Brasil deverá estar preparado para não somente receber para conservar e gerir de forma sustentável suas florestas, mas também desenvolver tecnologias de baixa emissão carbono que possam incorporar-se no mercado global. E nossas crianças já deveriam estar aprendendo isso.

É nosso desafio.

Publicação do Banco Mundial – Mudanças climáticas e escassez hídrica

O relatório “High and Dry: Climate Change, Water and the Economy” analisa os efeitos do crescimento da população, do incremento de renda e a expansão das cidades sobre a demanda por água em um ambiente onde os recursos hídricos estão cada vez mais escassos e com menor qualidade.

Water Scarcity

Fonte: Banco Mundial (2016)

A escassez da água se tornará ainda mais pronunciada considerando-se os impactos das mudanças climáticas e a alteração do ciclo hidrológico. Estimou-se que, continuando-se a considerar as tendências expostas no parágrafo 1, a escassez de água poderá causar perda de 6% do PIB nas regiões mais críticas do planeta em 2050, com impactos sobre a saúde pública, a produção de riqueza e a agricultura, alterando significativamente a capacidade de produção dos ecossistemas dos quais depende o sistema econômico para manter-se gerando retornos.

A insegurança hídrica causada pela mudança dos padrões atuais relativos ao ciclo hidrológico aumentaria o risco de conflitos, causaria o aumento no preço dos alimentos e estimular a migração, impactos observados quando há mudanças drásticas na disponibilidade de recursos.

De acordo com o relatório, a adoção de iniciativas em gestão de recursos hídricos promoveria uma redução do risco de estresse hídrico por meio de estratégias de adoção de tecnologias mais eficientes, adoção de incentivos econômicos para incremento do uso eficiente de água, investimentos em infraestrutura para suprimentos de água com maior qualidade e quantidade.

Tais estratégias devem estar bem relacionadas com a conservação de ecossistemas produtores de água e seriam iniciativas efetivas para diminuir o risco e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos dos quais depende a espécie humana.

O relatório completo é fundamental para profissionais interessados em gestão ambiental pública e privada. Na gestão ambiental pública, a capacidade dos gestores em elaborar os planos de recursos hídricos e os planos de investimento em longo prazo, com a identificação de necessidades de levantamento de recursos e as tarifas a serem cobradas da população é uma habilidade a ser desenvolvida e implementada. Planos relacionados à gestão de recursos hídricos e gestão ambiental não devem estar submetidos aos sabores das ideologias. É efetivamente uma questão de vida ou morte.

Na gestão ambiental privada, as empresas devem estar atentas ao aumento da eficiência produtiva da água que entra em seus processos. À medida que a escassez se torna norma, mais investimentos serão necessários para aumentar a ecoeficiência nos seus processos produtivos. Este aumento da eficiência implica diretamente no investimento em desenvolvimento de tecnologias, no investimento em novos produtos e na participação ativa  e qualificada nas instâncias reguladoras da oferta e demanda de água.

Nossa legislação de recursos hídricos, especialmente a Política Nacional de Recursos Hídricos, estabelece que os Comitês de Bacias, órgãos de planejamento com participação social e responsáveis pelo planejamento de longo prazo, são estruturados com participação do Estado, dos Cidadãos e das Empresas. Sua ação é dada pelas Agências de Águas, que arrecada e destina os recursos arrecadados pelos empreendimentos localizados na bacia hidrográfica aos usos definidos e priorizados nos planos de bacia.

Há muito espaço para avançarmos na Gestão de Recursos Hídricos e na eficiência do uso, considerando o cenário apontado pelo relatório do Banco Mundial. Tem que se avançar, no entanto, na plena implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos.

A possibilidade de juntar-se as metas definidas pelo Brasil na COP 21 (iNDC) de recuperação de áreas degradadas dialoga diretamente com a recuperação dos ecossistemas de suporte ao ciclo hidrológico, com o resultado de aumento de disponibilidade hídrica em quantidade e qualidade adequadas.

Esta possibilidade, no entanto, depende diretamente da participação ativa da sociedade na construção dos Planos de Recursos Hídricos e na implementação adequada da Política Nacional de Recursos Hídricos. Esta implementação depende da sensibilidade dos gestores públicos e dos incentivos à sociedade para adoção de maior eficiência e de uma evolução constante dos mecanismos de gestão ambiental pública e privada.

State of Green Business 2016

Os editores do site greenbiz.com publicam anualmente um relatório extremamente interessante sobre as tendências em sustentabilidade. Os autores apresentam 10 tendências obtidas do monitoramento sistemático de informações sobre o tema e quais impactos elas terão sobre as atividades econômicas.

As dez tendências citadas no trabalho são as seguintes:

  1. A consolidação do conceito de Economia Circular gerando novas tecnologias, processos e produtos
  2. A gestão tecnológica das cadeias de suprimento gerando cada vez mais eficiência no uso de recursos
  3. Infraestrutura Verde atraindo investimentos
  4. Indústria de mineração tornando-se mais limpa
  5. Agricultura promovendo a regeneração de sistemas naturais
  6. Reciclagem de carbono promovendo a redução de emissões de GEE
  7. Geração de empregos relacionados à sustentabilidade atraindo mais profissionais
  8. Microgeração apresentando um crescimento expressivo
  9. Economia do compartilhamento alcançando as empresas
  10. A chamada Economia Azul, relacionada à proteção e uso sustentável dos Oceanos, tornando-se cada vez mais importante para um planeta resiliente.

A análise das 10 tendências mostra uma tendência evolutiva resultante da pressão adaptativa exercida pela sociedade em suas mais diversas instâncias. E pressões adaptativas exigem respostas dos componentes dos ecossistemas, visando aproveitar-se dos “nutrientes” disponíveis.

Negociações internacionais, como a COP-21, pressionam os Estados Nacionais a assumirem responsabilidades, adotando medidas para reduzir suas emissões a partir de inventários nacionais de emissões.

Do mesmo modo, investidores institucionais globais e grandes investidores retiram investimentos de empresas cujos “core business” em energias não-renováveis podem comprometer a existência da sociedade como um todo e esta sociedade pressiona por soluções para maior qualidade ambiental e maior resiliência dos sistemas de suporte à vida.

Há um grande movimento se consolidando e o Brasil pode ser parte importante da solução.

 

Relatório sobre Economia Circular da União Europeia

A proposta de uma Economia Circular (EC) remete ao fechamento dos ciclos materiais de produção e consumo. A redução dos impactos ambientais dos processos econômicos a partir do incremento da reciclagem de materiais, da economia do compartilhamento, do reuso, do reparo e do ecodesign.

O conceito de Economia Circular encaixa-se no modelo mais amplo do conceito de Economia Verde no tocante à redução dos impactos ambientais relacionados aos processos de produção, consumo e descarte e à necessidade de tornar os processos mais eficientes.

O Relatório produzido pela Agência Ambiental Europeia, referência em gestão ambiental pública, sobre Economia Circular e os desafios para implementar iniciativas que promovam a transição de uma economia de extração – produção – consumo – descarte para uma com ciclos materiais fechados é um material crucial para interessados em Gestão Ambiental.

A figura abaixo demonstra os limites da abordagem da Ecologia Circular e sua interrelação com a Economia Verde, que aborda ainda os conceitos da resiliência dos ecossistemas de suporte e o bem-estar humano.

 

Sem Título

Fonte: Circular Economy in Europe (2016)

As características de uma EC são as seguintes:

  1. Redução do uso de recursos naturais
  2. Incremento no uso de materiais oriundos de reciclagem e reuso
  3. Redução de emissões
  4. Maior eficiência no uso de recursos com redução de perdas na produção e no descarte
  5. Geração de valor com redução ainda maior de fluxos de materiais

Obviamente, quaisquer objetivos ligados à redução de impactos ambientais não estão circunscritos à esfera regional, tendo em vista a interdependência da economia global, com seus fluxos de água, madeira, plantas, metais, minerais e energia.

A Europa está interligada aos grandes fluxos globais de materiais e a promoção da Economia Circular tem efeitos diretos sobre o comércio global, portanto, sendo sujeita à uma abordagem das várias partes interessadas de forma mais ampla, envolvendo governos, negócios, finanças, sociedade civil e cidadãos.

Esta abordagem passa necessariamente pela construção de novos modelos de negócios focados em serviços, consumo colaborativo, eco-inovação, melhoria da governança em sustentabilidade, redução dos subsídios às indústrias consideradas mais poluentes, criação ou utilização de mecanismos financeiros para fomento da EC, dentre outros.

O conceito de Economia Circular remete aos temas abordados em Ecologia industrial, visando reduzir os ciclos de materiais e tornar mais eficiente o uso de energia, demonstrando a propensão europeia em adotar políticas e práticas que podem servir de exemplo aos demais países.

Pasted Graphic

Fonte: Circular Economy in Europe (2016)

A proposição de uma economia circular é um conceito central da Ecologia Industrial, com a proposta de uma visão evolutiva em termos de produção, partindo de um sistema produtivo aberto sob o ponto de vista do consumo de materiais (com produção, distribuição, consumo e descarte) e energia para o conceito de sistema fechado (produção, distribuição, consumo, reciclagem, produção) sob o ponto de vista material, reduzindo o custo ambiental da extração de material virgem e utilizando materiais já disponíveis nos estoques já existentes.

A utilização do conceito de Economia Circular nos processos econômicos seria o ponto de partida para políticas eficientes de gestão de resíduos sólidos e integração com as políticas de recursos hídricos e de meio ambiente, com a utilização de mecanismos financeiros indutores de ações privadas em gestão ambiental avançada.

Além disso, possibilitaria a efetiva passagem dos mecanismos de comando e controle e conformidade para a transformação dos riscos ambientais associados à produção em oportunidades de ganho de eficiência.

Livro eletrônico “Taking Stock of Industrial Ecology”

O livro “Taking stock of Industrial Ecology” foi lançado por pesquisadores da área no encontro Bianual da Sociedade Internacional para a Ecologia Industrial, realizado na Universidade de Surrey, na Inglaterra, em 2015.

Neste livro são compiladas as principais frentes de pesquisa deste ramo da ciência e as principais premissas. A definição de Graedel e Allenby refere-se à Ecologia Industrial como o modo pelo qual a humanidade pode deliberadamente e racionalmente abordar e manter a sustentabilidade, dadas a evolução econômica, cultural e tecnológica da sociedade.

O sistema industrial, no qual podemos encaixar o sistema produtivo da agricultura e pecuária de larga escala, não pode ser analisado isolado dos sistemas naturais que garantem sua existência, mas como parte integrante. Por isso, a visão da Ecologia Industrial é a de que o ciclo total dos materiais deve ser otimizado, para que os recursos, energia e capital sejam preservados e as condições ambientais sejam adequadamente gerenciadas.

Dentre as ferramentas utilizadas para analisar os sistemas produtivos e sua interrelação com os sistemas de suporte, a Ecologia Industrial utiliza principalmente os seguintes:

  1. Análise de Ciclo de Vida, cada vez mais comum para comparar materiais e métodos produtivos e sua eficiência
  2. Design for Environment (DfE), que preconiza o planejamento de produtos e serviços visando causar o menor impacto possível durante o ciclo de vida
  3. Análise de Fluxos Materiais, que quantifica os fluxos de materiais e energia em determinado tempo e território e sinaliza possibilidades de aumento de eficiência (com a variante da Análise de Fluxo de Substâncias, para materiais potencialmente perigosos)
  4. Metabolismo Socioeconômico, que analisa o perfil produtivo dos países e seu consumo de materiais
  5. Análise de input-output, que analisa os fluxos de materiais e energia dentro dos diferentes setores de uma economia nacional
  6. Metabolismo urbano, com os fluxos de energia e matéria dentro das cidades, visando aumentar a eficiência das atividades econômicas internas e reduzir o impacto sobre os sistemas de suporte e
  7. Simbiose industrial, que visa gerar regiões industriais produtivas com a utilização do conceito de resíduo zero.

Estas sete principais ferramentas de análise são utilizadas para avançar este campo científico. Muitas delas já foram analisadas no blog, sendo que cada uma é um mundo à parte e aplica-se ao avanço prático dos conceitos de sustentabilidade, podendo ser aplicados às atividades de diversas partes interessadas, desde os planejadores públicos até os agentes econômicos privados.

Não por acaso pode-se utilizar as ferramentas para praticar gestão ambiental pública ou gestão ambiental privada. Na pública destacam-se a Análise de Fluxos Materiais, o Metabolismo Socioeconômico, o Metabolismo Urbano e a Análise de input-output, com uma possível aplicação de ações de gestão ambiental visando reduzir os impactos ambientais nacionais, regionais ou locais ou desenhar políticas efetivas de redução destes impactos com base nas informações que surgem da aplicação destas ferramentas.

Na gestão ambiental privada destacam-se a Avaliação de Ciclo de Vida, o Design for Environment e a Simbiose Industrial, compondo um amplo leque de alternativas para o avanço das atividades em sustentabilidade.

Como descrito no blog, a cada encontro bianual da Sociedade (IS4IE.org), percebe-se que está havendo um processo de evolução, que na minha visão seria semelhante ao processo de especiação na natureza: Mais pesquisadores especializando-se nas sete ferramentas e promovendo um avanço cada vez maior dos campos. Tais pesquisas, como preconizaram Graeden e Allenby, voltadas para a aplicação prática dos conceitos de sustentabilidade aos processos produtivos e ao planejamento territorial.

Os avanços são evidentes e seguramente a Ecologia Industrial, que é base para a estratégia de Economia Verde da Europa e nos sistemas produtivos na China, bem como aparece nos EUA, tem muito a contribuir após as discussões sobre as emissões de gases de efeito estufa na COP-21, em Paris. Assim como na gestão de recursos hídricos, contaminação de solos e demais processos que causam impacto sobre os sistemas de suporte.

Vale a pena ler o material todo.