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State of Green Business 2018

O relatório “State of Green Business” é uma iniciativa dos profissionais da Green Biz, think tank ambiental nos EUA, e é publicado anualmente com informações sobre o avanço e os impactos da Economia Verde e tendências observadas de evolução de mercado. O Estudo é anual (GB2016 e GB2017) e demonstra uma tendência forte de consolidação deste movimento nos EUA.

Como já evidenciado neste blog, há um movimento global para promover a Economia Verde. Grandes investidores institucionais tem cobrado uma régua objetiva e consistente para evidenciar as políticas e práticas em sustentabilidade das empresas, evoluindo até a avaliação da intensidade do carbono emitido ou a quantidade de água envolvida nos processos produtivos.

Adicionalmente, a proposição de uma agenda global de desenvolvimento baseada nos SDG’s (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) promove um modelo de desenvolvimento calcado em 17 metas para colocar os países em uma rota de desenvolvimento compatível com um sistema materialmente fechado como a Terra.

Tais iniciativas tem o potencial de mudar o mercado, visto que a incorporação de externalidades negativas no preço dos produtos ou a avaliação de riscos socioambientais de cadeias produtivas pode alterar fluxos de caixa pela imposição de multas ou pela agregação de valor ao produto mais sustentável, gerando empregos de qualidade.

As principais tendências detectadas e destacadas pelo Estudo são as seguintes:

  1. Critérios socioambientais (ESG) de desempenho movem-se da periferia para o centro das preocupações, exigindo sistemas robustos de ESG das empresas e evidências materiais de políticas e práticas.
  2. Metas baseadas em ciência entram na estratégia das empresas – As metas definidas para redução de emissões devem estar baseadas em estudos científicos para balizar as ações de redução mais efetivas para cada tipo de empresa.
  3. Investimentos para cumprir as metas de limite de aquecimento em 2 graus e as metas de desenvolvimento sustentável (SDGs) começam a aparecer, por meio de investidores institucionais (fundos soberanos e fundos de pensão) e grandes investidores, exigindo uma mudança de estratégia dos bancos visando captar, aplicar, monitorar, reportar e verificar se os resultados econômicos, sociais e ambientais prometidos pelos projetos estão sendo devidamente entregues à sociedade e aos investidores.
  4. Emissões de carbono entram na contabilidade das empresas mais inovadoras, especialmente aquelas relacionadas à tecnologia. Este poder de indução de práticas tem sido observado, por exemplo, na sede da Apple, onde green bonds foram emitidos para suprir as necessidades de investimento em green building, eficiência hídrica, eficiência energética, energia renovável, novos materiais menos intensivos em uso de energia e novas tecnologias para reaproveitamento de aparelhos e computadores antigos.
  5. Inclusão de pessoas no mercado também entra na agenda, gerando um efeito positivo na percepção dos indivíduos e fomentando o empreendedorismo nas cidades. Para um país como o Brasil, diverso e com boa parte da população fora do mercado de trabalho, é um imperativo considerar tais conceitos nas estratégias.
  6. Novas tecnologias para estocagem de energia dialogam diretamente com a emergência das energias renováveis e a redução da necessidade de grandes plantas produtoras de energia, tendo em vista o caráter de rede descentralizada de produção.
  7. Smart cities, com investimentos em mobilidade, teletrabalho, entregas à distância e cada vez mais eficiência no uso da energia e nos deslocamentos para trabalho e lazer.
  8. Inteligência Artificial promovendo menores impactos ambientais ao avaliar a eficiência do uso de materiais e energia, com sensores de eficiência ambiental avaliando cadeias de fornecedores, impactos diretos e indiretos de investimento em determinadas áreas e promovendo uma mudança radical no cálculo da eficiência produtiva.
  9. Eletrificação da vida ocorre quando se utiliza energia elétrica ao invés de energia não renovável. Já apontada como alternativa para o uso de petróleo diretamente, o uso de energia elétrica para promover mobilidade e aquecimento e resfriamento de edifícios é uma tendência já observada em diversos países em todo o planeta, inclusive na China, onde a poluição das cidades exigiu investimentos diretos em menor poluição e novas fontes renováveis de energia.
  10. Biologia sintética, ou síntese biológica de compostos, promovendo a redução de impactos de cadeias produtivas responsáveis por grandes quantidades de emissão de gases de efeito estufa, tais como a produção de leite ou carne.

Estas tendências já estão ocorrendo nos EUA. O relatório original mostra que o movimento de inovação está empurrando o país para a geração de novas tecnologias de produção, com empregos altamente especializados sendo gerados e novas oportunidades de investimento aparecendo.

Os argumentos para se apoiar a Economia Verde sustentam-se, portanto, nos pilares econômicos, sociais e ambientais com resultados positivos em indicadores relacionados ao Desenvolvimento Sustentável e aos 17 objetivos construídos pela ONU.

É interessante observar, também, como a Economia Verde já está inserida num país altamente empreendedor como os EUA. Para cada uma destas tendências citadas no relatório, há diversos exemplos locais de empresas inovadoras pensando em novas maneiras de fomentar processos produtivos sustentáveis, com viabilidade econômico-financeira comprovada e aproveitando também as oportunidades de levantar recursos com investidores privados interessados em novos processos produtivos.

É a receita do sucesso.

 

 

 

Publicação do Banco Mundial – Mudanças climáticas e escassez hídrica

O relatório “High and Dry: Climate Change, Water and the Economy” analisa os efeitos do crescimento da população, do incremento de renda e a expansão das cidades sobre a demanda por água em um ambiente onde os recursos hídricos estão cada vez mais escassos e com menor qualidade.

Water Scarcity

Fonte: Banco Mundial (2016)

A escassez da água se tornará ainda mais pronunciada considerando-se os impactos das mudanças climáticas e a alteração do ciclo hidrológico. Estimou-se que, continuando-se a considerar as tendências expostas no parágrafo 1, a escassez de água poderá causar perda de 6% do PIB nas regiões mais críticas do planeta em 2050, com impactos sobre a saúde pública, a produção de riqueza e a agricultura, alterando significativamente a capacidade de produção dos ecossistemas dos quais depende o sistema econômico para manter-se gerando retornos.

A insegurança hídrica causada pela mudança dos padrões atuais relativos ao ciclo hidrológico aumentaria o risco de conflitos, causaria o aumento no preço dos alimentos e estimular a migração, impactos observados quando há mudanças drásticas na disponibilidade de recursos.

De acordo com o relatório, a adoção de iniciativas em gestão de recursos hídricos promoveria uma redução do risco de estresse hídrico por meio de estratégias de adoção de tecnologias mais eficientes, adoção de incentivos econômicos para incremento do uso eficiente de água, investimentos em infraestrutura para suprimentos de água com maior qualidade e quantidade.

Tais estratégias devem estar bem relacionadas com a conservação de ecossistemas produtores de água e seriam iniciativas efetivas para diminuir o risco e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos dos quais depende a espécie humana.

O relatório completo é fundamental para profissionais interessados em gestão ambiental pública e privada. Na gestão ambiental pública, a capacidade dos gestores em elaborar os planos de recursos hídricos e os planos de investimento em longo prazo, com a identificação de necessidades de levantamento de recursos e as tarifas a serem cobradas da população é uma habilidade a ser desenvolvida e implementada. Planos relacionados à gestão de recursos hídricos e gestão ambiental não devem estar submetidos aos sabores das ideologias. É efetivamente uma questão de vida ou morte.

Na gestão ambiental privada, as empresas devem estar atentas ao aumento da eficiência produtiva da água que entra em seus processos. À medida que a escassez se torna norma, mais investimentos serão necessários para aumentar a ecoeficiência nos seus processos produtivos. Este aumento da eficiência implica diretamente no investimento em desenvolvimento de tecnologias, no investimento em novos produtos e na participação ativa  e qualificada nas instâncias reguladoras da oferta e demanda de água.

Nossa legislação de recursos hídricos, especialmente a Política Nacional de Recursos Hídricos, estabelece que os Comitês de Bacias, órgãos de planejamento com participação social e responsáveis pelo planejamento de longo prazo, são estruturados com participação do Estado, dos Cidadãos e das Empresas. Sua ação é dada pelas Agências de Águas, que arrecada e destina os recursos arrecadados pelos empreendimentos localizados na bacia hidrográfica aos usos definidos e priorizados nos planos de bacia.

Há muito espaço para avançarmos na Gestão de Recursos Hídricos e na eficiência do uso, considerando o cenário apontado pelo relatório do Banco Mundial. Tem que se avançar, no entanto, na plena implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos.

A possibilidade de juntar-se as metas definidas pelo Brasil na COP 21 (iNDC) de recuperação de áreas degradadas dialoga diretamente com a recuperação dos ecossistemas de suporte ao ciclo hidrológico, com o resultado de aumento de disponibilidade hídrica em quantidade e qualidade adequadas.

Esta possibilidade, no entanto, depende diretamente da participação ativa da sociedade na construção dos Planos de Recursos Hídricos e na implementação adequada da Política Nacional de Recursos Hídricos. Esta implementação depende da sensibilidade dos gestores públicos e dos incentivos à sociedade para adoção de maior eficiência e de uma evolução constante dos mecanismos de gestão ambiental pública e privada.

Descarbonização da Economia Global

O blog da Universidade de Yale publicou hoje uma interessante análise sobre evidências de descarbonização da Economia Global (aqui). A descarbonização refere-se à produção de maior retorno econômico dos processos produtivos com a redução da emissão de carbono por unidade de retorno gerada. É um conceito que remete diretamente à Ecoeficiência e, por consequência, está ligado às áreas de estudo da Ecologia Industrial.

No artigo o autor analisa os dados da Economia Global com as emissões de carbono e atribui esta redução da intensidade de carbono à redução do consumo de carvão mineral, especialmente do maior emissor global, a geração de energia na China. Contribuiu para a redução das emissões a redução do ritmo de expansão das indústrias de cimento e aço, historicamente ligadas às emissões mais altas de gases de efeito estufa, em virtude da desaceleração da Economia chinesa.

O maior avanço observado foi a redução de 80% para 70% de uso de carbono na matriz energética daquele país, bem como com a expansão quase exponencial da produção de energias renováveis (eu destacaria também a implementação de complexos ecoindustriais, posicionando o país como gerador de inovação neste tópico em Ecologia Industrial).

No caso da descarbonização observada na Europa, atribui-se o fato ao deslocamento das indústrias intensivas em carbono para a China, o que contribuiu para o aumento da poluição das cidades, com a consequente necessidade de ação governamental para reduzir as emissões indesejáveis para a atmosfera e para as águas do país.

Dois fatores apontados como cruciais para a ocorrência deste fenômeno foram a redução do preço da geração de energias renováveis, estimuladas pelas tecnologias mais eficientes e pelas compras governamentais, bem como as restrições a serem colocadas pelos estados e pelo mercado à geração de energia com fontes não renováveis. O crescimento exponencial experimentado pela indústria da energia renovável veio para ficar.

Um ponto adicional, amplificado pelos dois fatores apontados, é a fuga de capitais observada por empresas com sua principal atuação em geração de energia não renovável, causando o que tem sido chamado de stranded assets , que representam um risco para a indústria de não renováveis como um todo.

O artigo enfatiza, no entanto, que para seguir este processo de descarbonização da Economia Global é necessário olhar para as emissões relacionadas aos transportes, especialmente à indústria de aviação e de navios, e para as emissões de metano, devido ao seu alto potencial de aquecimento global e à expansão de processos produtivos que causam emissões do gás.

Ainda assim, o problema da redução das emissões não estaria equacionado, visto que o passivo persiste como um problema a ser enfrentado. Estima-se que para manter o planeta com o impacto limitado ao aumento de 2º C e abaixo de 450 ppm não deveremos emitir mais do que 800 bilhões de toneladas, com as emissões chegando a zero em 2050.

Este é um cenário extremamente complicado em que a velocidade da transição da Economia deve apresentar uma aceleração acima do que a que foi vista até o momento, com políticas públicas ativas de fomento à compra de energia renovável e fomento da indústria da energia solar e eólica, bem como a geração descentralizada.Há espaço para avanços mais efetivos, porém tais avanços necessitam ganhar velocidade, tanto em relação ao fomento ativo de alternativas sustentáveis por meio de subsídios diretos ou a retirada de subsídios indiretos à produção de energias não renováveis, bem como a promoção mais intensa da transição da economia tradicional para a economia verde.

Relatório sobre Economia Circular da União Europeia

A proposta de uma Economia Circular (EC) remete ao fechamento dos ciclos materiais de produção e consumo. A redução dos impactos ambientais dos processos econômicos a partir do incremento da reciclagem de materiais, da economia do compartilhamento, do reuso, do reparo e do ecodesign.

O conceito de Economia Circular encaixa-se no modelo mais amplo do conceito de Economia Verde no tocante à redução dos impactos ambientais relacionados aos processos de produção, consumo e descarte e à necessidade de tornar os processos mais eficientes.

O Relatório produzido pela Agência Ambiental Europeia, referência em gestão ambiental pública, sobre Economia Circular e os desafios para implementar iniciativas que promovam a transição de uma economia de extração – produção – consumo – descarte para uma com ciclos materiais fechados é um material crucial para interessados em Gestão Ambiental.

A figura abaixo demonstra os limites da abordagem da Ecologia Circular e sua interrelação com a Economia Verde, que aborda ainda os conceitos da resiliência dos ecossistemas de suporte e o bem-estar humano.

 

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Fonte: Circular Economy in Europe (2016)

As características de uma EC são as seguintes:

  1. Redução do uso de recursos naturais
  2. Incremento no uso de materiais oriundos de reciclagem e reuso
  3. Redução de emissões
  4. Maior eficiência no uso de recursos com redução de perdas na produção e no descarte
  5. Geração de valor com redução ainda maior de fluxos de materiais

Obviamente, quaisquer objetivos ligados à redução de impactos ambientais não estão circunscritos à esfera regional, tendo em vista a interdependência da economia global, com seus fluxos de água, madeira, plantas, metais, minerais e energia.

A Europa está interligada aos grandes fluxos globais de materiais e a promoção da Economia Circular tem efeitos diretos sobre o comércio global, portanto, sendo sujeita à uma abordagem das várias partes interessadas de forma mais ampla, envolvendo governos, negócios, finanças, sociedade civil e cidadãos.

Esta abordagem passa necessariamente pela construção de novos modelos de negócios focados em serviços, consumo colaborativo, eco-inovação, melhoria da governança em sustentabilidade, redução dos subsídios às indústrias consideradas mais poluentes, criação ou utilização de mecanismos financeiros para fomento da EC, dentre outros.

O conceito de Economia Circular remete aos temas abordados em Ecologia industrial, visando reduzir os ciclos de materiais e tornar mais eficiente o uso de energia, demonstrando a propensão europeia em adotar políticas e práticas que podem servir de exemplo aos demais países.

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Fonte: Circular Economy in Europe (2016)

A proposição de uma economia circular é um conceito central da Ecologia Industrial, com a proposta de uma visão evolutiva em termos de produção, partindo de um sistema produtivo aberto sob o ponto de vista do consumo de materiais (com produção, distribuição, consumo e descarte) e energia para o conceito de sistema fechado (produção, distribuição, consumo, reciclagem, produção) sob o ponto de vista material, reduzindo o custo ambiental da extração de material virgem e utilizando materiais já disponíveis nos estoques já existentes.

A utilização do conceito de Economia Circular nos processos econômicos seria o ponto de partida para políticas eficientes de gestão de resíduos sólidos e integração com as políticas de recursos hídricos e de meio ambiente, com a utilização de mecanismos financeiros indutores de ações privadas em gestão ambiental avançada.

Além disso, possibilitaria a efetiva passagem dos mecanismos de comando e controle e conformidade para a transformação dos riscos ambientais associados à produção em oportunidades de ganho de eficiência.

Green bonds e o financiamento da Economia Verde

Green bonds são títulos para captação de recursos cuja destinação é a aplicação em projetos vinculados aos temas da Economia Verde. Envolvem um complexo sistema de captação, verificação por segunda parte e finalmente o relato dos resultados obtidos e podem ser emitidos por entidades estatais, empresas ou bancos visando captar recursos de grandes investidores institucionais, indivíduos ou fundos.

Na revista Environmental Finance deste outono foram publicados artigos que demonstram os argumentos para o investimento preferencial em green bonds. Diversos gestores de fundos afirmam que para que uma empresa emita um green bond sua política de sustentabilidade deve estar bem consolidada internamente.

Uma política consolidada de sustentabilidade e que perpassa as atividades da instituição, seja ela privada ou pública, demonstra o compromisso não somente com os retornos sustentáveis, concretizados em políticas de Governança, sociedade e ambiente integrados, mas também com a gestão do risco reputacional, sinalizando uma preocupação com o longo prazo.

As instituições que agregam a emissão de green bonds para aplicação em projetos relacionados à Economia Verde poderão representar a linha de frente em investimentos em sustentabilidade no período pós-COP 21 e aumentar a atratividade para investidores externos.

Em período de crise, como passamos no Brasil, a emissão de green bonds por instituições públicas e privadas sinalizariam que os mecanismos de gestão em Ambiente, Sociedade e Governança estão evoluindo, servindo como sinais de atratividade para instituições multilaterais.

Ao agregar uma política de longo prazo relacionada à Economia Verde, nos moldes dos conceitos trabalhados no relatório da UNEP, com a emissão de green bonds por bancos públicos e privados, um ciclo de crescimento pode ser criado, atraindo novos recursos para projetos altamente demandados em nossas grandes cidades e em nossa infraestrutura.

Livro eletrônico “Taking Stock of Industrial Ecology”

O livro “Taking stock of Industrial Ecology” foi lançado por pesquisadores da área no encontro Bianual da Sociedade Internacional para a Ecologia Industrial, realizado na Universidade de Surrey, na Inglaterra, em 2015.

Neste livro são compiladas as principais frentes de pesquisa deste ramo da ciência e as principais premissas. A definição de Graedel e Allenby refere-se à Ecologia Industrial como o modo pelo qual a humanidade pode deliberadamente e racionalmente abordar e manter a sustentabilidade, dadas a evolução econômica, cultural e tecnológica da sociedade.

O sistema industrial, no qual podemos encaixar o sistema produtivo da agricultura e pecuária de larga escala, não pode ser analisado isolado dos sistemas naturais que garantem sua existência, mas como parte integrante. Por isso, a visão da Ecologia Industrial é a de que o ciclo total dos materiais deve ser otimizado, para que os recursos, energia e capital sejam preservados e as condições ambientais sejam adequadamente gerenciadas.

Dentre as ferramentas utilizadas para analisar os sistemas produtivos e sua interrelação com os sistemas de suporte, a Ecologia Industrial utiliza principalmente os seguintes:

  1. Análise de Ciclo de Vida, cada vez mais comum para comparar materiais e métodos produtivos e sua eficiência
  2. Design for Environment (DfE), que preconiza o planejamento de produtos e serviços visando causar o menor impacto possível durante o ciclo de vida
  3. Análise de Fluxos Materiais, que quantifica os fluxos de materiais e energia em determinado tempo e território e sinaliza possibilidades de aumento de eficiência (com a variante da Análise de Fluxo de Substâncias, para materiais potencialmente perigosos)
  4. Metabolismo Socioeconômico, que analisa o perfil produtivo dos países e seu consumo de materiais
  5. Análise de input-output, que analisa os fluxos de materiais e energia dentro dos diferentes setores de uma economia nacional
  6. Metabolismo urbano, com os fluxos de energia e matéria dentro das cidades, visando aumentar a eficiência das atividades econômicas internas e reduzir o impacto sobre os sistemas de suporte e
  7. Simbiose industrial, que visa gerar regiões industriais produtivas com a utilização do conceito de resíduo zero.

Estas sete principais ferramentas de análise são utilizadas para avançar este campo científico. Muitas delas já foram analisadas no blog, sendo que cada uma é um mundo à parte e aplica-se ao avanço prático dos conceitos de sustentabilidade, podendo ser aplicados às atividades de diversas partes interessadas, desde os planejadores públicos até os agentes econômicos privados.

Não por acaso pode-se utilizar as ferramentas para praticar gestão ambiental pública ou gestão ambiental privada. Na pública destacam-se a Análise de Fluxos Materiais, o Metabolismo Socioeconômico, o Metabolismo Urbano e a Análise de input-output, com uma possível aplicação de ações de gestão ambiental visando reduzir os impactos ambientais nacionais, regionais ou locais ou desenhar políticas efetivas de redução destes impactos com base nas informações que surgem da aplicação destas ferramentas.

Na gestão ambiental privada destacam-se a Avaliação de Ciclo de Vida, o Design for Environment e a Simbiose Industrial, compondo um amplo leque de alternativas para o avanço das atividades em sustentabilidade.

Como descrito no blog, a cada encontro bianual da Sociedade (IS4IE.org), percebe-se que está havendo um processo de evolução, que na minha visão seria semelhante ao processo de especiação na natureza: Mais pesquisadores especializando-se nas sete ferramentas e promovendo um avanço cada vez maior dos campos. Tais pesquisas, como preconizaram Graeden e Allenby, voltadas para a aplicação prática dos conceitos de sustentabilidade aos processos produtivos e ao planejamento territorial.

Os avanços são evidentes e seguramente a Ecologia Industrial, que é base para a estratégia de Economia Verde da Europa e nos sistemas produtivos na China, bem como aparece nos EUA, tem muito a contribuir após as discussões sobre as emissões de gases de efeito estufa na COP-21, em Paris. Assim como na gestão de recursos hídricos, contaminação de solos e demais processos que causam impacto sobre os sistemas de suporte.

Vale a pena ler o material todo.

Fomento de parques eco-industriais na China

Os Parques Ecoindustriais (Eco Industrial Parks – EIP) baseiam-se nas premissas da Simbiose Industrial, que é uma proposta para organizar arranjos produtivos locais baseados nos conceitos de auto-organização de instituições, com a troca de materiais e energia dentro de processos produtivos para aumentar a eficiência dos sistemas, bem como a geração e transmissão de conhecimentos entre os componentes do ecossistema local.

O artigo “What makes Eco-transformation of Industrial Parks Take Off in China?”, de Yu, Dijkema e de Jon, publicado no Journal of Industrial Ecology, analisa as condições para induzir a formação de parques Ecoindustriais em duas áreas da China e quais instrumentos de gestão ambiental pública e privada foram adotados para implementar e estabelecer este tipo de organização.

A política de EIP (Eco-industrial parks) na China foi lançada em 2001 e foi responsável pela criação de 26 parques demonstrativos do conceito de Simbiose Industrial, com a aprovação de outros 66 programas piloto em fase de implantação, que dialogam com as políticas ambientais e as necessidades do país.

Os instrumentos de gestão ambiental pública e privada utilizados para promover a implementação variam de um parque Ecoindustrial para outro. A utilização de instrumentos econômicos até a formação de redes para difusão de informações permite que a implementação tenha sucesso.

Dentre os instrumentos citados no artigo, destacamos a precificação dos recursos ambientais e rejeitos, o fomento à adoção da ISO 14001 pelas empresas, inclusive com subsídios, a implantação de usinas de tratamento de resíduos, a cogeração de energia, as auditorias ambientais periódicas para verificação de conformidade e do cumprimento de metas, a transparência da divulgação de informações ambientais, o treinamento e disseminação de tecnologias limpas e a formação de redes de colaboração para fomentar a participação de empresas.

Os instrumentos de gestão utilizados não são novidades. Qualquer interessado em gestão ambiental pública ou privada os conhece e aplica em suas atividades e conhece políticas, planos ou programas implementados de forma não integrada.

A novidade é, no entanto, a aplicação de todos eles em conjunto em um tipo de abordagem territorial e participativa, tendo por conceito básico a Simbiose Industrial e seu conceito derivado de Parques Ecoindustriais, com a participação dos atores locais (empresas, governos e sociedade civil) visando o crescimento econômico, a redução do consumo de materiais e energia, o controle da poluição e a melhoria dos processos administrativos e de gestão.

A implementação do conceito às indústrias nas regiões chinesas citadas no artigo consolidam a disposição de resolver os problemas que nós mesmos criamos por meio de abordagens colaborativas visando aumentar a eficiência produtiva.

O conceito faz parte do campo de estudo da Ecologia Industrial e é um arranjo produtivo local cujo ponto de partida é a Economia Circular e a organização territorial de forma a reduzir os impactos ambientais totais da região. A conferir a evolução das iniciativas.

Ferramenta SEDA – Sustainable Economic Development Assessment, do BCG

O Boston Consulting Group (BCG) desenvolveu uma ferramenta denominada SEDA – Sustainable Economic Development Assessment –  que se propõe a analisar de forma integrada diversos indicadores de desempenho para avaliar como os países convertem a produção de riquezas em bem-estar para sua população.

O relatório completo , denominado “Why Well-Being should drive Growth Strategies”, detalha três dimensões e 10 agrupamentos de 43 indicadores, utilizados para avaliar a situação de um país e como ele se posiciona em relação à geração de bem-estar para sua população. No documento são apresentadas diversas análises sobre os indicadores, os resultados para os países do mundo todo e a comparação com os resultados dos demais, com a sugestão de estratégias e planos de ação para decisores públicos, privados e representantes da sociedade civil.

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As três dimensões abordadas são a econômica, a de investimentos e a de sustentabilidade.

Na dimensão econômica são avaliados a estrutura de geração de renda e riqueza, a estabilidade econômica medida em termos de inflação e a volatilidade na produção de crescimento econômico, e o emprego.

A dimensão dos investimentos relaciona-se com o acesso à saúde, medidos pela qualidade dos serviços de saúde, a mortalidade e a morbidade, a educação, medidos pelo acesso e pela qualidade dos serviços ofertados à população, e a infraestrutura, com indicadores de disponibilidade de água, mobilidade urbana, saneamento básico e acesso à infraestrutura de informação e comunicação.

A dimensão da sustentabilidade refere-se ao ambiente, medidos por indicadores de qualidade ambiental e as políticas que visam protegê-la, à governança, medidos pela efetividade do Estado em colocar as políticas em prática, reforçar a transparência, promover a estabilidade e a liberdade, a força da sociedade civil, medidas pela coesão, pelo ativismo civil e pela equidade de gênero, e a igualdade, medida em termos da estrutura da distribuição de renda e desigualdade social.

Ao transpor o trabalho para a gestão de políticas, programas, planos e projetos, vê-se que a elaboração de indicadores de desempenho é um processo importante para que haja gerenciamento. Com base na análise das condições do ambiente pode-se traçar as políticas e planos de longo prazo para a consecução de metas, com a definição de indicadores de desempenho adequados à realidade nacional. A comparação com outros países permite identificar práticas que podem ser implementadas em problemas semelhantes e, mais importante, apontam uma direção na qual se pode caminhar.

Encontro bianual da Sociedade Internacional de Ecologia Industrial 2015

O Encontro bianual da Sociedade Internacional de Ecologia Industrial ocorreu na Universidade de Surrey, Inglaterra, onde pesquisadores de todo o mundo apresentaram  a evolução dos temas associados ao estudo deste interessante campo de pesquisa.

Notável estabelecer a evolução do campo de pesquisa de acordo com os estudos de Allenby em seu livro “industrial Ecology: Policy and Implementation” e presenciar que cada vez mais pesquisadores estão desenvolvendo projetos em seus países relacionados à Ecologia Industrial.

O pressuposto básico da Economia Circular tem sido citado em vários documentos oficiais para a COP 21 e países tem adotado como premissas de seus órgãos ambientais a análise de impactos ambientais das suas economias com base no Life cycle thinking (LCT).

Meu interesse específico neste evento, onde apresentei dois trabalhos em anos anteriores, em 2007 e 2011, foi o da evolução dos ecossistemas industriais, arranjos produtivos locais e regionais onde a abordagem integrada de impactos ambientais e emissões gera um planejamento espacial e temporal visando gerar maior eficiência e sinergias produtivas entre os atores regionais, com fomento por parte do ente estatal, como indutor, e dos entes privados, como implemtadores dos sistemas.

Foi gratificante verificar que o campo de pesquisa evoluiu ao ponto de influenciar diretamente arranjos produtivos industriais na China, no Japão e na União Europeia e EUA e que pesquisadores da UFRJ tentam aplicar os conceitos na indústria sucroalcoleira, com o aproveitamento de resíduos para a geração de energia.

Pontos interessantes emergiram das discussões diversas: um deles,  crítico, refere-se a como fazer para que o tempo dos políticos eleitos localmente consiga sincronizar-se com as soluções de longo prazo. É problema comum que os recursos são limitados em função de demandas ilimitadas e que as prioridades políticas muitas vezes não casam com as prioridades da agenda da sustentabilidade, especialmente no Brasil, onde temos acompanhado com vergonha os efeitos das operações da polícia federal.

Outro ponto importante destacado é o metabolismo das sociedades: como as diferentes localidades utilizam seus recursos para executar suas atividades e quais são as possibilidades para aumento da eficiência dos sistemas urbanos, seja em termos do uso de energia, da mobilidade e dos edifícios.

As conclusões do evento mostram que há grandes novidades sendo implementadas em todo o mundo, que há um compromisso genuíno dos pesquisadores com a implementação da economia circular, com o aumento da eficiência dos sistemas produtivos por meio do LCT e suas técnicas, especialmente a análise de ciclo de vida (LCA ou ACV) e a análise de fluxos de massa (MFA) e a formação de parcerias estratégicas entre os governos e empresas par fomentar os princípios da Ecologia Industrial.

Como bem explicitado por Reid Lifset na palestra inicial, um dos maiores pesquisadores do tema, a Ecologia Industrial é uma das maneiras mais eficientes para praticar a sustentabilidade. Pelos trabalhos apresentados no Congresso, temos tudo para ter esperança numa economia circular chegando ao planeta, especialmente nas economias com maior output, como a chinesa, de onde vieram a maioria dos pesquisadores, e da europeia.

BRF capta 500 milhões de euros em green bonds

O anúncio dos representantes do G7 sobre a redução drástica da produção e consumo de combustíveis fósseis até 2050 é uma daquelas pressões definitivas que fomentam os novos mercados relacionados à sustentabilidade e funcionam como feedbacks positivos para a geração de inovações e estabelecimento de tecnologias de geração de energia mais limpas.
Será mais um impulso necessário para que o mercado financeiro evolua de forma a gerar inovação por meio de produtos e serviços relacionados à captação e financiamento de empreendimentos sustentáveis, nos moldes do que temos comentado no blog sobre os green bonds.
Outra notícia relevante, agora no front do financiamento de atividades empresariais sustentáveis por meio do mercado de capitais, foi dada pela BRF, uma das maiores empresas globais de produção de alimentos. É a maior produtora global de carne de aves e possui um altíssimo poder de negociação com seus fornecedores e alto potencial de induzir práticas sustentáveis pelos seus parceiros comerciais e produtores associados.
A empresa emitiu US$ 557 milhões em green bonds no mercado europeu, com vistas a financiar projetos denominados “verdes”. Os bancos que lideraram a emissão foram o Bank of America Merril Lynch, o Morgan Stanley, o Deutsche Bank, Santander, BNP Paribas e Citi.
Esta captação teve relevância global e os futuros projetos a serem financiados com estes recursos serão aplicados iniciativas de eficiência energética, na redução de emissões de gases de efeito estufa, inclusive da gestão de emissões de metano, em energias renováveis, incluindo biodigestores, projetos de gestão eficiente de recursos hídricos, gestão de efluentes, empacotamento sustentável, gestão de florestas e redução do uso de materiais.

É importante enfatizar que devido à relevância dada pela gestão da cadeia de fornecimento por investidores institucionais externos a empresa conseguiu captar a taxas mais amigáveis, tendo em vista a disposição de induzir práticas mais eficientes na sua cadeia produtiva.

Exemplo e lições a aprender

Esta primeira emissão de green bonds por uma empresa brasileira de relevância global é uma daquelas iniciativas que devem ser acompanhadas de perto pelas instituições financeiras brasileiras, com vistas a replicar este tipo de ação, utilizando a sustentabilidade como atrativo de recursos para financiamento da transição dos sistemas produtivos tradicionais para os conceitos de produção mais limpa.

O mercado de capitais sinaliza, desta forma, que pode ser o melhor caminho para o financiamento deste tipo de empreendimentos, funcionando como um poderoso indutor de práticas sustentáveis nas cadeias produtivas ao gerar sinergias positivas para as empresas, seus fornecedores e para a sociedade.