Conclusões sobre o relatório…

Certa vez, ao apresentar um seminário, perguntei aos ouvintes quais as novidades das conclusões da Eco’92. Sinceramente observei que muito do que foi acordado foi simplesmente conteúdo aspiracional, muitas vezes filosófico, muitas vezes inaplicável com as atuais (à época) cabeças as quais chamam líderes.
De certa forma é verdade. É sim conteúdo apenas aspiracional, pois ao ler o relatório percebe-se que todas as soluções já existem, todos já sabem o que fazer e onde atacar… Onde, então, está o gargalo?
Na minha opinião, nos pressupostos das sociedades… Tais pressupostos ainda não mudaram. As empresas continuam a, para usar um jargão bem conhecido e utilizado como cláusula pétrea de suas políticas, apontar para o crescimento constante, gerando mais retorno para seus investidores. Este retorno é gerado com mais vendas, mais produção, mais consumo, mais prédios, mais fábricas, mais impacto, menos emprego, mais outsourcing…
Tornar os edifícios mais verdes, produzir com menos impacto, observar os limites da pesca, água e florestas, investir em energia renovável, gerenciar melhor os resíduos, transporte mais eficiente, turismo verde, cidades.. e por trás disso tudo o financiamento.
A receita de bolo tem sido implementada em diversos países desde a década de 1970, quando se constrói a maioria das legislações sobre meio ambiente. Há sucessos evidentes, como a Holanda ou o Japão, onde o meio ambiente é parte de todo e qualquer processo de planejamento.
Pode ser que sintamos que não se evolui na velocidade desejável no Brasil, quando comparamos as nossas estatísticas de venda de carros, consumo de energia, saneamento básico, gestão de resíduos sólidos ou desmatamento, mas creio que apontar os problemas já é uma evolução para um país acostumado a viver de marketing e esconder os problemas.
O principal ponto que gostaria de ressaltar em todo o relatório é a questão dos limites. Cada vez mais precisamos incorporar ao processo econômico a questão dos limites. Não há condições de continuar produzindo visando crescer indefinidamente, bem como não há como deixar de incluir os indivíduos tradicionalmente excluídos do processo econômico.
Em época de mudanças climáticas causadas pela emissão de carbono, por exemplo, não tem lógica falar de pré-sal como alternativa para geração de energia. É um contrasenso. As emissões continuarão aumentando, assim como o consumo de combustível fóssil, as obras de infraestrutura continuarão a consumir recursos. Aumentar a eficiência não parece ser suficiente.
Estamos com um grande abacaxi nas mãos e sem a menor possibilidade de descascá-lo… E ainda com uma grande crise econômica que provavelmente apontará para a solução tradicional de crescer, vender e consumir ainda mais.

Sobre Marcio Gama

O cérebro é nossa maior especialização e nos faz humanos e complexos, capazes de pensar, gerir riscos e planejar o futuro. Nos adaptamos a todos os ambientes conhecidos e aprendemos a utilizar os recursos para nossa sobrevivência. Nesta caminhada, aprendemos a nos adaptar. Tentamos resolver os problemas que criamos e esta é a parte da nossa caminhada neste planeta, o único que temos. Sou Biólogo, Mestre em Planejamento e Gestão Ambiental e Especialista em Gerenciamento de Projetos e as análises que faço aqui refletem a minha visão sobre o tema, balizada em artigos científicos e informações de fonte fidedigna e relevantes. Espero que curtam os textos.
Esse post foi publicado em Economia Ecológica, gestão ambiental pública, gestão ambiental privada, Relatório UNEP Towards a Green Economy. Bookmark o link permanente.

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