A Fundação Ellen MacArthur tem sido um dos grandes think tanks para a disseminação das práticas em Economia Circular. A Economia Circular, conforme publicamos ontem, baseia-se na analogia com sistemas ecológicos naturais, onde há um sistema materialmente fechado e energeticamente aberto em equilíbrio dinâmico, adaptativo e por vezes disruptivo.

A adoção dos conceitos de economia circular pelas empresas tem ocorrido de forma consistente. Cada vez mais, em todo o mundo, as empresas tem preocupado em tornar seus processos produtivos mais eficientes, reduzindo os desperdícios e aumentando a eficiência do uso de materiais e de energia. Obviamente, dado o fluxo exponencial de informações disponíveis para os indivíduos, há pessoas interessadas em investir em modelos de economia circular, tendo em vista que as empresas que adotam tais parâmetros e conceitos em suas atividades usualmente gerem de maneira mais efetiva suas externalidades ambientais e econômicas e promovem benefícios adicionais aos seus ecossistemas.

O Fundo BlackRock é o maior gestor de fundos privados do mundo e em aliança recente com a Fundação Ellen MacArthur iniciou um movimento que aproximará investidores e empresas comprometidas com o fechamento destes ciclos materiais e ciclos energéticos, bem como alinhará estes investidores com as megatendências globais relacionadas às mudanças climáticas (adaptação e mitigação), escassez de recursos, inovações disruptivas e urbanização acelerada. Um ponto importante a destacar-se, também, ao tratar do maior Fundo Global, é a exclusão de investimento em empresas de carvão e petróleo e gás, o que remete um forte sinal para as demais gestoras de recursos.

A iniciativa dos dois parceiros envolve a alocação de recursos de investidores em três principais categorias de empresas:

• Incentivadoras: Empresas que adotam os princípios de Economia Circular em suas operações com impacto positivo primordial no valor da empresa.

• Viabilizadoras: Empresas provedoras de soluções para outras empresas tornarem-se circulares, como por exemplo provedoras de plataformas de revenda ou compartilhamento, tecnologias para reciclagem e inovação.

• Beneficiárias: Empresas que beneficiam da transição para a economia circular, como por exemplo aquelas que tem a demanda por seus produtos sustentáveis aumentada pela redução da demanda por produtos não sustentáveis. Se há uma disposição do mercado em mover-se nesta direção e cada vez mais investidores interessados em soluções que reduzam a pegada humana no planeta, seguramente aparecerão empresas dispostas a desenvolver processos produtivos inovadores, bem como produtos com menor impacto ambiental por unidade.

Sob o ponto de vista da alocação de recursos por parte de investidores, a aproximação da gestora com o think tank pode ocasionar movimentos sinergísticos interessantes, acelerando a transição para uma economia de baixo carbono e sustentável, mais eficiente.

CEBDS e a Economia Circular

Uma premissa fundamental da Ecologia Industrial é a de que os processos econômicos (extração, produção, consumo, descarte, reaproveitamento) devem espelhar-se nos ciclos da natureza. Esta analogia parte da premissa de que os ciclos biogeoquímicos e de materiais na natureza permitem um reaproveitamento perfeito dos materiais utilizados, que são reinseridos em novos fluxos de materiais e energia. Outra premissa é de que há espaço para aumentar a eficiência no uso de materiais e energia, com teóricos em ecologia industrial apontando que se pode aumentar em até 10 vezes esta eficiência, com base nos conhecimentos atuais de física, química e biologia.

A Economia Circular aponta para o uso desta analogia com sistemas ecológicos naturais, onde os fluxos materiais são fechados e os fluxos de energia são abertos, para mostrar que é possível aumentar a eficiência do uso de materiais e energia também nos processos econômicos, reintroduzindo em novos processos produtivos os materiais que seriam descartados em cadeias produtivas lineares de extração, produção, consumo e descarte.

Fonte: Quebrando muros – Economia Circular – CEBDS (2019)

O material do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (link abaixo) mostra que há soluções de grande porte sendo geradas pelas grandes empresas brasileiras e estas soluções impactarão suas cadeias de fornecedores, criando um feedback positivo para sustentabilidade em processos produtivos, lembrando sempre dos conceitos de teoria geral dos sistemas de Von Bertalanffy e considerando que pode haver um efeito rebote de aumento de consumo em virtude do aumento da eficiência e redução do custo de produção.

As Políticas Privadas de sustentabilidade adotadas pelas empresas que constam do material podem potencializar as Políticas Públicas em gestão de resíduos e efluentes e é preciso aproximar ambas e integrar com as políticas nacional, estaduais e municipais de gestão de resíduos e efluentes. Há espaço para avanço, desde que as informações sejam disseminadas para aumento da eficiência.

Abaixo o link para o trabalho completo.

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Para criar movimento e preocupação com relação à qualidade e gestão do meio ambiente é necessário que a informação esteja disponível para a sociedade. A informação de qualidade, baseada em ciência, em método, é o primeiro passo para que os recursos ambientais sejam adequadamente gerenciados, sempre sob o ponto de vista de não comprometer a base de recursos de que utilizamos para manter nossos processos econômicos, seja em sua função de fonte de recurso ou de sumidouro de emissões.

A tarefa de transformar informação científica em informação útil para o dia a dia, que gera pressão sobre os responsáveis por elaborar e gerir políticas públicas e privadas de gestão ambiental tem sido assumida por diversos divulgadores científicos, com o objetivo de demonstrar os riscos a que a sociedade está exposta.

O livro “There is no planet B: A Handbook for the Make or Break Years“, de Mike Berners-Lee, apresenta um resumo interessante sobre os principais problemas ambientais, seus efeitos sinérgicos sobre a atividade econômica e social e possíveis soluções.

Separado em oito grandes tópicos Alimentação, Clima e Ambiente,  Energia, Viagem e Transportes, Crescimento, Dinheiro e Métricas, Pessoas e Trabalho, Negócios e Tecnologia, Valores, Verdade e Confiança e fechando com Habilidades para o Mundo de Hoje, o livro resume toneladas de conhecimento acumulado em 200 páginas de textos leves e efetivos na entrega de uma mensagem necessária.

As informações divulgadas são baseadas na melhor ciência disponível e demonstram o tamanho do problema e as soluções que precisam ser avaliadas e adotadas em larga escala por políticos, empresários e cidadãos, caso seja uma escolha das sociedades evitarem a deterioração de diversos indicadores de qualidade ambiental.

O livro nos lembra, ainda, que as mudanças climáticas são apenas um dos indicadores de impacto ambiental, conforme nos lembra o círculo de Rockstrom (2009). Os limites estão sendo ultrapassados e as consequências são não lineares e apresentam sinergias entre si, com potencial de amplificar os impactos sobre as vidas dos seres vivos do planeta.

Considerando uma abordagem de gestão de riscos, estamos ainda engatinhando na procura ativa pela resolução de tais problemas utilizando as ferramentas tradicionais de gestão ambiental. O compasso da resolução de problemas, considerando políticos imunes às informações científicas, bem como as empresas que ganham com a degradação e exploração acima da capacidade de suporte do ambiente, necessitará de uma ação bem mais efetiva da sociedade como pressão adaptativa.

Esta pressão adaptativa depende da difusão de informação científica.

Os objetivos do desenvolvimento sustentável da ONU abordam necessidades comuns dos países em promover investimentos e desenvolvimento de suas economias, ao mesmo tempo em que melhorem a qualidade de vida da população e promovam a conservação ou uso racional de recursos ambientais.

São 17 metas para impulsionar políticas públicas e promover o desenvolvimento sustentável, nas suas perspectivas econômicas, ambientais e sociais, com base no conceito de utilização dos recursos naturais para suprir as necessidades das gerações atuais sem comprometer a disponibilidade de recursos para necessidades das futuras gerações.

São incorporadas às metas diversas necessidades sociais, tais como saúde, saneamento, educação, paz, justiça, igualdade, dentre outros, e uma das principais questões que surgem desta extensa agenda é como mobilizar recursos para suprir tais necessidades?

Os bancos de desenvolvimento internacionais, tais como BID, Banco Mundial e Corporação Andina de Fomento, tem investido em estratégias para mobilizar recursos privados dos países para investimentos em projetos que tenham por objetivo suprir alguns dos objetivos do desenvolvimento sustentável.

A estratégia utilizada tem sido denominada de “blended finance“, onde o capital público ou destes bancos se aliam ao capital privado para abordar necessidades específicas de capital onde possam causar impacto social e ambiental positivo e gerar lucros para os investidores públicos e privados.

Fonte: OECD – Making blended finance work for the sustainable development goals (2018)

O mecanismo de blend e de mobilização de recursos privados agrega às captações a necessidade de eficiência na utilização de recursos, com resultados verificáveis, e a verificação periódica dos resultados gerados por terceira parte, reduzindo a possibilidade de corrupção relacionada a processos não eficientes de gestão pública e agregando velocidade na aplicação de recursos e geração de resultados.

Esta agenda do blended finance conecta-se diretamente à percepção consolidada de investidores institucionais, investidores privados e poupadores de que a abordagem deficiente dos problemas sociais e ambientais aumenta os riscos e reduz os retornos.

Esta percepção tem funcionado como pressão adaptativa sobre o sistema financeiro global, que por sua vez tem sido demandado pelos seus clientes (diga-se fundos de pensão, grandes investidores, dentre outros) sobre as externalidades sociais e ambientais geradas pela aplicação de seus recursos e sobre o impacto que produzem sobre as sociedades.

A conexão dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável com as finanças tem potencial de acelerar as soluções para problemas sociais e ambientais e apresenta-se como tendência para os próximos anos. Resta saber, no caso do Brasil, se conseguiremos aproveitar esta disposição das instituições financeiras internacionais, nacionais e investidores brasileiros para gerar projetos que supram nossas necessidades de melhorias em indicadores sociais e ambientais.

Relatório da União Europeia sobre resíduos plásticos

A gestão ambiental refere-se ao processo de gerir seus recursos sem que se esgote a capacidade de suporte do ambiente, tanto como fonte de matérias primas quanto de sumidouro de emissões e resíduos.

Para tanto, são necessárias informações sobre extração, produção, consumo, descarte ou reciclagem, visando antecipar o impacto do uso contínuo do espaço territorial para as atividades econômicas humanas e planejar as ações que podem reduzir este impacto.

A União Europeia lançou o relatório Preventing Plastic Waste in Europe, onde detalha as ações que os países membros estão adotando para reduzir a produção de plásticos na economia europeia.

 

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Fonte: https://www.eea.europa.eu/publications/preventing-plastic-waste-in-europe

De acordo com o relatório o primeiro foco é na redução da entrada de plásticos no processo produtivo. Esquematicamente, a gestão do resíduo começa pela prevenção da produção, na qual se inserem iniciativas de design de produtos.

Eu waste hierarchyO relatório cita que foram produzidas 8,3 bilhões de toneladas de plástico em todo o mundo até 2015, dos quais 6,3 bilhões de toneladas foram descartadas, com apenas 9% do volume total reciclado, 12% incinerado e 79% destinado a aterros sanitários e lixões, com o impacto correspondente.

Políticas – instrumentos e medidas

Para enfrentar o desafio de gerir este recurso, o modelo utilizado pela União Europeia identifica cinco tipos diferentes de medidas em gestão ambiental:

  1. Informativas – Medidas para levar informação aos cidadãos e empresas sobre a destinação mais adequada para os resíduos gerados. São os selos ambientais, as campanhas exclusivas para influenciar comportamentos desejados;
  2. Regulatórias – Mandatórios por lei e cobrem proibições, padrões, banimentos de materiais visando determinar as práticas que devem ser tomadas para gerir os resíduos por comunidades, empresas e cidadãos. Podem regular também o acesso aos mercados ao restringir a produção e comercialização de produtos plásticos específicos;
  3. Baseadas em mercado (market based) – Instrumentos para gerar mudança de comportamento do consumidor e de práticas de negócios para incorporação do valor das externalidades do uso do plástico em suas cadeias produtivas. São taxas, subsídios, responsabilidade estendida ao produtor e pagamento por descarte adequado;
  4. Financiamento -Apoio financiamento para cumprir metas regulatórias ou de mercado, induzindo melhores práticas desde a fase de design até a de fim de ciclo de vida ou fomento de indústrias para o tratamento do resíduo plástico em diversos estágios do ciclo de vida de produto;
  5. Compromissos voluntários – Compromissos firmados entre empresas e demais instituições visando incrementar suas políticas e práticas internas.

Metas

Assim como não há gestão sem informação, monitoramento e instrumentos, não é possível melhoria contínua sem o estabelecimento de metas de desempenho em gestão ambiental. O relatório mostra que metas absolutas de redução, tanto quanto metas relativas, são importantes para medir a implementação e sucesso dos instrumentos implementados para gerir o resíduo plástico.

Dentre os destacados na publicação citamos as metas de redução absolutas, as metas para redução relativa do uso de plástico em relação ao retorno financeiro gerado, as metas para reuso e as reduções em relação a metas quantitativas previamente estabelecidas.

Sem metas se torna mais difícil a condução das políticas, visto que a incapacidade de mensurar o sucesso ou insucesso reflete em descontrole dos indicadores.

Indicadores

Outro fator importante destacado em um processo de gestão são os indicadores monitorados para verificação do sucesso das medidas de gestão implementadas. Dentre os mais citados nos países membros estão as seguintes:

  1. Quantidade de resíduo plástico produzido
  2. Reuso de plásticos para empacotamento
  3. Introdução de taxas de depósito
  4. Número de medidas implementadas para prevenção da geração de resíduos
  5. Uso de sacolas plásticas

Um exemplo interessante é o do Reino Unido, que introduziu as seguintes metas e indicadores para 2025:

  • 100% de sacolas plásticas recicláveis ou compostáveis;
  • 70% dos resíduos efetivamente reciclados ou em compostagem;
  • Eliminação de itens problemáticos ou de uso único por meio do redesign, inovação ou modelos alternativos de entrega;
  • 30% de plástico reciclado nos compostos de plástico para embalagens.

Tais metas e indicadores serão forças indutoras de mudanças de comportamentos de empresas e indivíduos, por meio de instrumentos e medidas específicos para apoiar a mudança de patamar da sociedade no que tange à gestão de resíduos plásticos, em consonância com o disposto nas premissas para uma economia circular e com os movimentos para a Ecologia Industrial.

Ainda assim, com iniciativas para reduzir o impacto do plástico sobre a vida das pessoas e promover uma gestão ambiental adequada, as tendências de futuro são de incremento do uso de plástico per capita, reforçando a necessidade de adoção de políticas e práticas de gestão ambiental o mais cedo possível, tendo em vista que a gestão de quantidades crescentes de resíduos impõe desafios para a gestão territorial e aos investimentos em tratamento.

Este movimento, no entanto, deve ser estimulado não somente na Europa, mas em todo o mundo. Vê-se, por exemplo, que países desenvolvidos tem exportado seus resíduos para países em desenvolvimento e chamando isso de gestão ambiental, promovendo o movimento conhecimento como “environmental displacement“, quando você simplesmente desloca o seu impacto ambiental para outros  países, mantendo sua própria qualidade ambiental em detrimento de países que aceitam receber tais tipos de resíduos.

Outro fator importante a ser considerado é a substituição do plástico por outros materiais com maior impacto ambiental na fase de extração. Um exemplo claro é a substituição por folha de alumínio, que claramente apresenta a fase de extração como altamente geradora de impactos.

Para contrabalançar tais efeitos, o design de produtos deve ser otimizado, bem como o ciclo de vida deve ser estendido e o uso de materiais deve considerar o impacto ambiental total dos materiais.

A publicação da Agência Ambiental Europeia demonstra que é possível desenhar políticas tendo por base a Economia Circular e a Ecologia Industrial. O ponto de partida para a gestão de resíduos plásticos passa obrigatoriamente pelo incremento da eficiência das políticas e práticas nestas duas áreas do conhecimento.

 

 

Artigo científico importante foi publicado em janeiro de 2019 no Journal of Industrial Ecology no volume 23, pelos pesquisadores Aurelien Bruel, Jakub Kronenberg, Nadege Troussier e Bertrand Guillaume, intitulado “Linking Industrial Ecology and Ecological Economics – a Theoretical and Empirical Foundation for the Circular Economy”.

A proposta para discussão assenta-se nas interseções entre os conceitos basilares da Economia Ecológica e da Ecologia Industrial e o estabelecimento da Economia Circular.

A Economia Circular refere-se a um modelo de produção e consumo de bens que extrapola o processo linear baseado na extração, produção, consumo e descarte, propondo como modelo de produção a circularidade do uso de materiais, a eficiência e as energias renováveis como ponto de partida para uma evolução nos modelos de produção e consumo.

Os autores pretendem com o artigo avaliar as intersecções dos conceitos teóricos da Ecologia Industrial e da Economia Ecológica e suas contribuições para o aumento da eficiência produtiva de acordo com os limites dos ecossistemas dos quais as atividades econômicas dependem.

A fundamentação teórica da Ecologia Industrial, segundo os autores do artigo, é a analogia com os processos de ecossistemas naturais, na proposta de transformar processos industriais em processos cíclicos, reduzindo o impacto sobre o sistema ecológico, do qual o subsistema econômico faz parte.

Para a transformação em processos cíclicos exige o fechamento de ciclos materiais e de energia, eficiência energética e a desmaterialização, utilizando para tanto modelos para manufatura sustentável e o design de produtos e processos mais eficientes.

Os processos industriais são descritos como uma configuração de processos de estoques e fluxos de matéria, energia e informação, com o uso de diferentes ferramentas e métodos para avaliar os impactos ambientais durante o ciclo de vida de produtos e serviços.

Para a Economia Ecológica o objeto de estudo são as interações entre a economia, a sociedade e o ambiente, visando construir políticas ambientais ou de sustentabilidade que reduzam a pegada ambiental da produção econômica. Neste ponto, o sistema produtivo é conceituado como materialmente fechado e energeticamente aberto, com capacidade limitada de funcionar como fonte de recursos ou sumidouro de emissões e resíduos sem que haja um colapso dos sistemas de suporte à vida.

O conceito fundamental da área de pesquisa são as leis da termodinâmica e sua relação com a Economia, cujos conceitos foram primeiramente construídos por Nicholas Georgescu-Roegen, focando na necessidade de reduzir a degradação entrópica dos sistemas ecológicos.

Adequar os sistemas produtivos aos conceitos da Economia Ecológica exigem não somente uma adequação técnica ou aumento da eficiência, mas também a reflexão sobre as necessidades de consumo. Sob esta perspectiva, agrega-se a “suficiência” do que é produzido, visto a capacidade limitada de extração e assimilação de impactos.

O modelo de gestão ambiental que incorpora tais conceitos deveria agregar a conservação da biodiversidade, prevenção e adaptação às mudanças climáticas e a preservação da capacidade ecossistêmica de prover bens e serviços ambientais para a população, visando atribuir ao sistema de atribuição de valor os processos ecossistêmicos.

Em resumo, a Economia Ecológica assenta-se sobre o conceito dos limites ecossistêmicos globais, nacionais, regionais e locais de produção e descarte dos processos produtivos, como gerir recursos por meio da gestão de ecossistemas e reduzir as pressões dos processos produtivos humanos para evitar uma possível disrupção de sistemas que suportam a vida no planeta.

Economia Circular e relações com os conceitos das duas áreas

O objetivo da Economia Circular é otimizar o uso de recursos naturais, reduzir a poluição e os resíduos e assegurar o funcionamento adequado dos ecossistemas, bem como promover o bem estar humano, promovendo a desvinculação entre o impacto ambiental e o crescimento econômico.

O artigo categoriza as ações para fomento da economia circular em micro, meso ou macro nível. O foco do micro seriam as empresas e o comportamento do consumidor, o foco do meso o estabelecimento de parques eco-industriais e o macro a gestão de cidades, estados ou países.

A China tem sido citada como um dos países mais efetivos em inclusão dos conceitos de Economia Circular em suas políticas públicas, seguidas pela Suécia e Alemanha, com o uso de instrumentos políticos, econômicos e de gestão.

Dentre estes instrumentos destacam-se os limites para emissão, os impostos e taxas ambientais, as certificações ambientais e ecológicas, a produção mais limpa, eficiência no uso de água e energia, avaliação de ciclo de vida de produto e sistemas de gestão ambiental, todos instrumentos oriundos da Ecologia Industrial e considerando os limites ecossistêmicos.

As similaridades entre a Ecologia Industrial e a Economia Ecológica baseiam-se na manutenção das atividades socioeconômicas dentro dos limites ecossistêmicos, visando evitar rupturas permanentes e de alto impacto acima da capacidade de resiliência de sistemas, o caráter interdisciplinar, a abordagem de teoria de sistemas, o uso de tabelas de input-output (insumo produto) e o interesse tanto nos fluxos monetários quanto nos fluxos de materiais, energia e informação, como forma de agregar outros parâmetros de avaliação na produção de valor.

As diferenças calcam-se no caráter mais conceitual da Economia Ecológica em relação ao caráter mais prático da Ecologia industrial e o uso do sistema natural como modelo pela Ecologia Industrial em contraposição ao modelo de estoque de capital natural gerando fluxos de serviços ecossistêmicos.

Das interações dentre os dois sistemas de pensamento e a integração com a Economia Circular existem oportunidades para incremento dos sistemas de gestão ambiental em nível local, no que tange ao comportamento dos consumidores e empresas, regionais, com o planejamento das atividades econômicas de acordo com as peculiaridades locais e as capacidades de suporte e recursos disponíveis e nacionais, tendo sempre em vista a resiliência dos ecossistemas e a necessidade de aproveitamento de recursos no longo prazo.

Tais iniciativas já tem tomado forma em diversos países, sob a forma de políticas específicas de produção e consumo sustentáveis, ainda que alguns retrocessos em relação à eficiência no uso de energias e água tenham sido observados, especialmente quando se investe em energias renováveis e novas tecnologias para eficiência energética.

É crucial que a sustentabilidade seja vista como um valor da sociedade e não somente objeto de disputa política, visto que é do interesse geral aumentar a eficiência produtiva, reduzir os impactos ambientais e aumentar a qualidade de vida da população.

Com a integração de áreas da ciência com objetivos comuns, com ferramentas e técnicas que permitem agir desde o macro até o microplanejamento, é possível avançar na agenda da sustentabilidade de forma a fomentar a eficiência do uso de recursos e reduzir o impacto ambiental das atividades humanas, incrementando a resiliência dos sistemas ecológicos dos quais dependemos para realizar as atividades socioeconômicas.

 

 

 

Global Risks Report 2019 – Fórum Econômico Mundial

A elaboração de cenários serve para avaliar as tendências, identificar temas emergentes e gerar incertezas que podem influenciar a atividade das instituições.

Tais cenários indicam para a alta administração, no caso de empresas, os riscos, potencial de impacto e probabilidades de ocorrência de eventos que podem servir como oportunidades ou, em último caso, encerrar as atividades, caso não haja adaptação de estratégias.

Sendo verdade isso quando se aplica a empresas, imaginemos o potencial de dano quando se trata do planeta Terra, sede de todas as interações sociais, econômicas e ambientais da espécie humana.

O Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum) publica anualmente o relatório de riscos globais, avaliados pelo blog desde 2015 (veja 2015, 2016, 2018). Neste fórum estão reunidos líderes empresariais e governamentais globais, com alto potencial de produzir e direcionar os esforços globais, onde diversos relatórios técnicos são lançados e avaliados e os grandes temas, na visão destes líderes, são discutidos.

Um dos relatórios mais relevantes, com periodicidade anual, é o de Riscos Globais. Este relatório emerge do trabalho de diversos especialistas e pretende demonstrar os riscos, cruzamento de probabilidade e impacto provável, aos quais o planeta e a humanidade estariam sujeitos.

Em 2019 os especialistas identificaram riscos relacionados aos eventos climáticos extremos, às falhas em mitigação ou adaptação às mudanças climáticas, desastres naturais, ciberataques, desastres ambientais causados pelo homem, crises na água e colapsos em ecossistemas e perda de biodiversidade, todos estes com alto potencial de impacto e alta probabilidade de ocorrência, conforme demonstra o gráfico abaixo.

Fonte: Global Risks Report 2019 – World Economic Forum

Considerando o que tem sido noticiado, publicado em periódicos científicos e tem sido fartamente divulgado, vários dos riscos já se tornaram realidade e deveriam ser priorizados em qualquer agenda de governo, visando proteger sua própria população e aos processos ecológicos que sustentam as atividades econômicas, bem como aqueles que podem comprometer a qualidade de vida de suas populações.

Outro gráfico interessante é a interrelação entre os riscos identificados e as tendências existentes. Do intercruzamento entre os dois temos a intensidade da mudança e os efeitos que poderão causar nas sociedades humanas.

Fonte: Global Risks Report 2019 – World Economic Forum

Destaca-se aqui a profunda instabilidade social que avizinha-se, de acordo com os especialistas consultados, em se mantendo a tendência de polarização das sociedades (que temos observado não somente no Brasil), nacionalismo e concentração de renda, dentre outros. A soma dos efeitos tem potencial explosivo nos países, somando aí ao comprometimento da base de recursos naturais necessária para as atividades econômicas que sustentam a humanidade.

Na terceira figura avaliada, a proposta é um diagrama de feedbacks positivos, ou seja, fatores interligados que intensificam os efeitos dos riscos observados. Este tipo de análise é eficiente para demonstrar que há uma relação de dependência entre os fatores e que podem ocorrer ainda efeitos sinergísticos não lineares, intensificando exponencialmente a velocidade das mudanças.

Fonte: World Risk Report 2019 – World Economic Forum

A importância de mudanças não lineares e sinergísticas é que elas mudam a estrutura do ecossistema, visto que não permitem aos integrantes uma adaptação adequada às novas condições.

Uma ruptura nos nós de rede com maior impacto e probabilidade de ocorrência, citados anteriormente, tem efeitos sinergísticos sobre todos os fatores a eles interligados. Eventos climáticos extremos, falhas na mitigação e adaptação às mudanças climáticos, crises na produção de alimentos, falhas em governança nacional, migração involuntária e instabilidade social, dentre outros fatores, estão interligados.

A evolução das tendências, bem como a probabilidade de ocorrência e a intensidade avaliadas demonstram que podemos estar no limite de uma ruptura de larga escala sob o ponto de vista ambiental, com implicações igualmente largas para a estabilidade social nos países e perdas econômicas significativas.

Tais informações são sinais do ambiente para governos, empresas e cidadãos, que precisam incluir a gestão de riscos em suas estratégias. Estes sinais de que os riscos associados à degradação das condições ambientais estão aumentando a probabilidade de ocorrência e o impacto já tem sido deslocados no gráfico para uma maior relevância no planejamento.

O princípio da precaução deveria nos guiar no que tange à consideração de tais riscos, pois a própria base de suporte à vida pode estar seriamente comprometida e gerar efeitos negativos sinergísticos sobre a estabilidade social, governança estatal e processos econômicos que sustentaram a espécie humana.

Para os interessados no texto completo, façam o download no link WEF_Global_Risks_Report_2019.

State of Green Business 2019

O processo de Planejamento Estratégico de empresas e instituições não pode abrir mão de acompanhar os acontecimentos, tendências, temas emergentes e incertezas que podem afetar suas ações.

O acompanhamento dos chamados think tanks é crucial para que possam ser identificados riscos e oportunidades que afetam as variáveis políticas, econômicas, sociais, tecnológicas, ambientais e de legislação com potencial impacto.

Um dos think tanks mais interessantes sob a perspectiva socioambiental vem do pessoal do Greenbiz.com, organização de empresas e indivíduos dos EUA que promovem negócios sustentáveis, bem como relatórios de qualidade sobre tendências, temas emergentes e incertezas, bem como cenários.

O relatório “State of Green Business”, editado anualmente (leia os posts de 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018), mostra as tendências em sustentabilidade e responsabilidade socioambiental corporativa, abordando o tema de forma integrada e com visão pró economia circular e economia verde.

O relatório de 2019 identifica as 10 principais tendências no horizonte do GreenBiz:

  1. A profissão exige cada vez mais especialização em diversas áreas de interesse, desde ciência de materiais e até finanças, design de produtos e contabilidade. De acordo com o estudo, haverá mais especialização e novos empregos, especialmente em economia circular, energia renovável e gestão de fornecedores.
  2. A extensão do ciclo de vida de produtos começa a aparecer como preocupação dentre os consumidores, deixando de lado os descartáveis ou de difícil gestão logística. Esta tendência tem reflexo direto nas empresas cujo ciclo de negócios é anual e periódico e cujas inovações aparecem de ano em ano.
  3. A gestão dos solos aparece como fundamental para enfrentar as mudanças climáticas, visto que contém três vezes mais carbono que o estocado na atmosfera e que a cada ano temos mais terras degradadas necessitando de recuperação. Este fato impulsiona a atividade da economia da regeneração ambiental, com diversas grandes empresas investindo em novas tecnologias.
  4. Empresas privadas investem em florestas com recursos próprios, fomentando a economia da conservação, tanto com base na compensação de emissões de gases de efeito estufa quanto na recuperação ecológica. A Apple, por exemplo, implementa projetos de reflorestamento nos EUA, na China e na Colômbia.
  5. Ônibus e caminhões elétricos a caminho para substituir os atuais movidos a diesel e reduzir drasticamente a poluição urbana, liderados pela China, onde atingiu níveis alarmantes para a população das cidades. Outro movimento a destacar-se é a iniciativa da FedEx e UPS, nos EUA, para reduzir as emissões de GEE de suas atividades em logística.
  6. Empresas e governos investem em eficiência energética e dobram a produtividade, demonstrando que a troca de motores e de materiais com maior eficiência no uso de energia é um filão que começa a ser explorado e pode reduzir drasticamente a emissão de GEE.
  7. Green loans diminuem o custo do capital para empresas, com seus investimentos em sustentabilidade na produção dando retorno no acesso aos mercados financeiros e novos instrumentos de financiamento. O mercado está incorporando as externalidades socioambientais positivas em prêmios para empresas com sistemas ESG robustos e verificados.
  8. A caça aos superpoluidores tem mobilizado governos e pressionado empresas a realizar pesquisas e substituir materiais, com as premissas de reduzir o impacto ambiental de suas atividades.
  9. Iniciativas de disclosure de informações sobre risco-carbono tem pressionado as empresas a abrir as suas informações para investidores e incluir em suas estratégias de negócios a variável ambiental. Com mais informação há necessidade de maior envolvimento com a realização de inventários, quantificação de emissões e compensação.
  10. Metas baseadas em ciência vão além do carbono, quantificando impactos na água, uso da terra, biodiversidade e oceanos, expandindo o escopo original da gestão de impactos sob a ótica do carbono, apesar da interrelação entre todos os componentes da equação. De acordo com a publicação, as empresas tem que adequar seus modelos de negócios aos limites do planeta, descolando o aumento do retorno sobre o investimento do consumo de recursos naturais além da capacidade de suporte do ecossistema.

As dez tendências não estão ocorrendo apenas fora do Brasil. Para cada uma destas ações temos iniciativas que estão entrando no mercado brasileiro e para os quais temos que nos adaptar. Entidades como a FEBRABAN, a Fundação Getúlio Vargas – Centro de Estudos em Sustentabilidade – e o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável tem promovido a introdução destes temas nas grandes empresas brasileiras, funcionando como indutor de boas práticas ou, como este blog costuma dizer, uma pressão adaptativa para um ambiente cada vez mais restrito de negócios.

O desafio ainda é enorme. Na minha empresa, por exemplo, temos o desafio de calcular o impacto socioambiental de nossa atividade fim e incorporar ao cálculo do resultado econômico as externalidades negativas e positivas geradas.

Como bem ressaltou hoje o Jose Truda Palazzo Jr, grande ambientalista brasileiro, só discurso de globalismo nos fará chacota global. O mundo está se movendo e o Brasil está no mundo, os impactos ambientais e sociais negativos se acumulam e somente os governos não darão soluções efetivas. Cuidemos ativamente de nosso planeta, cuidemos ativamente dos nossos negócios, seguindo as melhores práticas globais e aproveitando para desenvolver nosso país.

 

Viagem de mergulhos e a degradação nossa de cada dia

Callum Roberts, Biólogo da Universidade de York, Inglaterra, escreveu vários livros importantes sobre conservação dos oceanos, com uma extensa pesquisa bibliográfica baseada em registros históricos de abundância da fauna e flora marinhas e como nós temos nos acostumado a olhar a degradação e estabelecer o vazio dos mares como o novo normal.
Dentre os livros que tenho dele destaco dois: “The Unnatural History of Sea” e “The Ocean of Life: The fate of man and the sea”. Nestes livros ele constrói uma tese interessante, baseada em registros historiográficos, de que há um rebaixamento do sarrafo em termos de necessidades de conservação e de que, seguindo na trajetória demonstrada pelas tendências de exploração de recursos pesqueiros e do aparecimento de zonas mortas, os oceanos decididamente entrarão numa fase de extinção de biodiversidade.
Dentre os impactos apontados por Callum Roberts nas duas obras destacaria a sobrepesca, avançando sobre espécies com reprodução lenta e espécies importantes para a estabilidade dos ecossistemas, o lançamento de matéria orgânica em excesso nos oceanos, acima da capacidade de suporte e processamento desta matéria orgânica em biomassa, e a poluição por plásticos e demais rejeitos de fonte humana.

Mergulhos…

Há duas semanas e meia iniciei uma viagem para mergulhos no litoral de São Paulo, a partir de Santos, e Rio de Janeiro, subindo de Paraty a Buzios. Paramos em Santos, para mergulhar na Laje de Santos, Ilhabela, Alcatrazes, Paraty, Angra dos Reis e Ilha Grande, Arraial do Cabo, Cabo Frio e Buzios, por fim.
Na laje de Santos não foi possível mergulhar, em virtude das condições atmosféricas (ventos e correntes). Em Ilhabela observamos a degradação da vida marinha em mergulhos na Ilha das Cabras. Absolutamente nada de vida a ver. Praias sem condições de banho em virtude do lançamento de esgoto in natura nas águas do oceano.

Em Paraty, na Ilha dos Meros, não há meros, pois foram pescados, e por ser um peixe com ciclo de vida longo, cuja idade reprodutiva começa aos 40 anos, é um sério candidato a extinguir-se.
Em Angra dos Reis, especificamente Ilha Grande, alguns cavalos marinhos (dois), tartarugas pequenas e algas, corais e cnidários, peixes de pequeno porte. As áreas em São Paulo e Rio de Janeiro são Parques estaduais (caso de Ilhabela) e APA (caso de ilha Grande). Esperava mais em termos de vida marinha.
Após dois dias de intervalo de superfície no RJ, para ver Flamengo 2 x 1 Botafogo e Creed 2 com meu filho mais novo, mais mergulhos. Chegamos em Arraial do Cabo, onde as águas estavam absolutamente contaminadas por esgotos e sujeira. Apesar de mergulhos em águas protegidas, uma pobreza de vida marinha. Não posso afirmar que sempre foi assim, mas foi preocupante… e a cidade intitula-se “Capital Brasileira do Mergulho”, necessita de um plano de ação mais efetivo para não matar o ecoturismo que gera muitos empregos e renda para o município.
Em Cabo Frio mergulhamos em pontos bastante preservados, com algas, poríferos, cnidários, equinodermos, cardumes de peixes pequenos e tartarugas verdes (e de pente). No entanto, presenciamos pesca em período de defeso. Em Buzios os relatos foram de tartarugas marinhas, mas em pontos que necessitam de longa navegação.
Ao visualizar de forma tão efetiva o que Callum Roberts destacou em suas teses defendidas nos livros citados, precisamos efetivamente definir o que queremos de uma economia da conservação e mais, da recuperação ambiental.
Em diversos dos pontos citados podemos criar uma vibrante economia da conservação, mas antes precisamos recuperar o que foi perdido. Sob o ponto de vista econômico, há lógica em uma moratória de alguns anos na pesca, de estabelecer uma efetiva gestão ambiental para gerir resíduos e efluentes de empresas e indivíduos, bem como reduzir a quantidade de esgoto lançados em nossas praias.
Impossível não comparar o que foi visto neste curto espaço de tempo com as áreas conservadas do México (Baja California) e Equador (Galápagos). Tais áreas movimentam o turismo de conservação e geram muitas receitas para seus países e suas populações, que se engajam na preservação, num caso típico de feedback positivo para as políticas de conservação e gestão de patrimônio natural.
Adicionalmente, e não posso deixar de citar, é impossível não se emocionar com a beleza da nossa Mata Atlântica, nosso bioma mais dizimado ao longo da história, do qual restam apenas 3% do total, encontrando-se com o mar no entorno da rodovia Rio-Santos. É um patrimônio espetacular, que se bem gerido pode colocar o Brasil na rota do turismo de preservação.
É a economia da recuperação ambiental, preservação e conservação tomando forma e nós precisamos estar atentos para não perdemos esta oportunidade.

Limites ecológicos e econômicos e o oceano

O site Yale Environment 360 produz artigos sobre temas ambientais e sua relação com os processos econômicos. Em artigo publicado na última semana o biólogo marinho Daniel Pauly defende a moratória da pesca em mares profundos, visando permitir que os processos ecológicos sejam minimamente recuperados.

A sobrepesca é um impacto sobre o meio ambiente que implica na captura de recursos pesqueiros acima da capacidade de reprodução e crescimento das espécies, com o comprometimento ou ruptura irreversível das cadeias alimentares necessárias para o seu desenvolvimento.

Sylvia Earle e Calum Roberts, dois pesquisadores sobre oceanos, também posicionam a sobrepesca como um dos grandes problemas ambientais a serem enfrentados pelas sociedades que dependem do mar como fonte de proteína animal na próxima década, com apontamentos de que os processos ecológicos que sustentam a produção podem estar à beira do colapso.

A saída defendida por Daniel Pauly é a criação de áreas protegidas marinhas nas águas internacionais, permitindo a recuperação das cadeias alimentares e dos ecossistemas por elas sustentados.

As evidências coletadas por Pauly da depleção de recursos estão no indicador esforço de pesca, referente à quantidade de milhas navegadas para obter determinado retorno financeiro, um pouco semelhante ao desenvolvido pelo pessoal do EROI (retorno de energia sobre o investimento), que mede a intensidade do consumo de energia para se obter determinado retorno financeiro.

Segundo o pesquisador, o estabelecimento de áreas protegidas globais provocaria um aumento da quantidade de peixes, que por transbordamento repovoariam as zonas econômicas exclusivas dos países.

Sob o ponto de vista econômico, no entanto, os países que dominam a pesca em águas internacionais (Espanha, Coreia do Sul, Taiwan) e obtém os maiores retornos econômicos resistem à ideia, mesmo que a medida seja necessária para a gestão adequada dos recursos e, caso não implementada, custe o comprometimento irreversível dos estoques pesqueiros.

Neste ponto recuperamos o necessário conceito de capacidade de suporte: Há limites nos recursos disponíveis para sustentar determinadas populações e há limites ecológicos para a captura das espécies sem que o sistema seja comprometido.

Os relatos de Callum Roberts nos livros “The unnatural history of sea” e “The Ocean of Life: The Fate of Man and the Sea” demonstra o quão intensa foi a degradação e a exploração a que submetemos os mares e oceanos, ao ponto de comprometer os ecossistemas dos quais dependemos para suprir parte significativa da necessidade de proteína das populações humanas.

Mais uma vez os limites para exploração de recursos devem ser lembrados. O conceito de recursos renováveis e não renováveis aplica-se somente se aos renováveis forem dados tempo para recuperação. Indicadores de que os limites estão sendo extrapolados referem-se ao aumento da energia necessária para acessar os estoques pesqueiros e do tamanho dos recursos capturados.

Voltando ao autor do artigo, há necessidade de recuperar-se as fontes de recursos dos quais dependemos para viver. Segundo o conceito fundamental da Economia Ecológica, o Sistema Econômico é um subsistema Ecológico. A exploração de um recurso renovável acima da taxa de recomposição deste recurso impacta diretamente os meios de subsistência das populações que dele dependem.