Recursos são realmente renováveis? Por que um supertrawler?

A leitura do livro texto de Economia Ecológica do Daly e Farley – Ecological Economics – Principles and Applications – nos coloca uma grande pulga atrás da orelha. Recursos naturais renováveis só são renováveis SE houver uma taxa de reposição adequada da população que se está explorando economicamente.

Para que sejam renováveis, os recursos deveriam ser extraídos numa taxa abaixo do rendimento máximo sustentável, visto que as populações de animais e plantas explorados economicamente são necessárias não somente para o consumo humano, mas para suprir funções ecológicas importantes no equilíbrio dinâmico de ecossistemas e aos serviços prestados pela manutenção deste equilíbrio.

Desta forma, recursos só seriam renováveis se, mesmo com a extração do recurso dentro dos limites do rendimento máximo sustentável, não houvesse perda das funções ecossistêmicas e dos serviços ecossistêmicos que prestam.

Isso posto, vamos à análise de uma notícia sobre um supertrawler, que foi chamado de “Estrela da Morte dos Oceanos”. Este supertrawler navega sob bandeira holandesa e tem por objetivo explorar o máximo possível (economicamente, não ecologicamente) no menor prazo possível, visando a dar o máximo de retorno sobre o investimento para seus investidores.

Ora, claro que sob uma sociedade capitalista todo investimento deve dar retorno e este retorno sobre o investimento não é eticamente condenável, porém, esta superexploração impacta diretamente a capacidade das espécies exploradas em manter as cadeias alimentares que promovem o fluxo e estoque de serviços ambientais dos quais todos dependemos.

Deste modo, qual deveria ser a postura dos investidores em navios com este potencial disruptivo de ecossistemas? Aqui e ali temos notícias de que supertrawlers estão sendo lançados ao mar para capturar o máximo possível de recursos no menor prazo possível para propiciar o máximo de retorno financeiro para os investidores.

Ocorre que, como toda discussão em termos de externalidades, ou seja, custos não incorporados ao valor financeiro, os valores relacionados aos ecossistemas empobrecidos ou destruídos não são capturados, causando uma avaliação subvalorizada do valor da manutenção dos ecossistemas e dos serviços prestados por eles.

Ora, se o objetivo é cumprir a tendência de morte dos oceanos em 2050, como diversos futurologistas vêm apontando, em se continuar o Business as usual nos oceanos, estamos na trajetória certa.

Certo também é que somos uma espécie extremamente diversa e que cada indivíduo responde a alguns tipos específicos de estímulo. Neste ponto, no entanto, privilegiar o financeiro para responder aos desafios da realidade impede que os demais, não sujeitos somente aos estímulos financeiros, aproveitem as maravilhas da diversidade neste mundo.

Do mesmo jeito, pode-se justificar que governos e investidores olhem apenas para o retorno sobre o investimento, a variável econômica, desprezando todas as demais áreas do conhecimento científico que sustentam a necessidade de mais ciência para melhor identificação de riscos e melhor gerenciamento de estoques sob o ponto de vista ecológico?

Esta é a pergunta de vários trilhões de dólares… Uma vez destruídas as cadeias alimentares e levadas as espécies à extinção, quais são os efeitos e os feedbacks positivos e negativos sobre os fatores que tornam possível a vida humana? Dependemos sim, fundamentalmente, da manutenção dos limites ecossistêmicos para uma vida produtiva, para gerar os fluxos de matéria e energia a que estamos acostumados. Estes fluxos, no entanto, necessitam dos estoques de serviços e produtos ecossistêmicos que possuem limites. Estes limites têm sido constantemente ultrapassados pelas necessidades de curto prazo dos superexploradores dos oceanos, sejam eles holandeses, espanhóis, chineses ou russos, para falar o mínimo.

Se é de se investir em sustentabilidade, se temos que gerir o planeta para as futuras gerações e para esta própria, precisamos incorporar mais indicadores da saúde dos ecossistemas aos nossos indicadores econômicos. Os sinais vitais estão sendo constantemente comprometidos, enquanto os discursos e as notícias capturadas no dia a dia nos falam o contrário destes discursos.

Não é problema novo, e talvez não haja mesmo uma solução. Talvez mais uma vez a lenda de Cassandra se confirme. Os sinais vitais claramente ignorados, alguns abnegados gritando diante do colapso e a maioria trabalhando para que o modelo insustentável se mantenha.

Se é de recuperar a economia após a pandemia do Covid-19, que seja em moldes sustentáveis e agregando ainda mais indicadores de saúde ecossistêmica. O planeta é só esse, habitado por pessoas que pensam diferente, mas monopolizado por aqueles que têm olhos somente para os indicadores financeiros.

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