Global Risks Report 2022 – Interconexões

O relatório de riscos globais do fórum econômico mundial foi lançado na segunda semana de janeiro, como de praxe, abordando os grandes riscos em escala global nos próximos 10 anos que representam um grande desafio para gestão do sistema sócio-economico-ecológico.

O método para identificação destes riscos e hierarquização segue o mesmo, a consulta a partes interessadas com visão e poder de negociação em arenas globais para identificação dos riscos críticos em curto (0-2 anos), médio (2-5 anos) e longo prazo (5-10 anos) e a avaliação das interconexões com os demais riscos apontados no relatório.

Como nos anos anteriores, excetuando 2021 em virtude dos impactos da pandemia de COVID 19 e seus impactos extremos sobre as sociedades tomando relevância, os riscos ambientais apresentam-se novamente a frente, com as falhas em relação as mudanças climáticas (especialmente a transformação das promessas da COP em estratégias integradas às políticas internas dos países), as variações climáticas extremas que já se fazem sentir os efeitos e a perda da biodiversidade prevalecendo em relação aos demais aspectos sociais, econômicos e geopolíticos.

10 maiores riscos em escala global nos próximos 10 anos

Os riscos ambientais identificados impactam diretamente a base de recursos da qual as sociedades necessitam em seus processos econômicos e sociais (introduzindo o conceito de metabolismo societário). O nexo entre o uso de recursos de forma sustentável, i.e. dentro da capacidade de suporte dos ecossistemas, especialmente quando se trata de água, energia e alimentos, provoca impactos cruzados entre os riscos avaliados no relatório, com as consequências em termos sociais, econômicos e geoeconômicos.

Riscos no curto, médio e longo prazos 2022

Apontar riscos de curto, médio e longo prazos introduz o desafio de promover políticas efetivas de redução de risco sobre os recursos ambientais, baseados no incremento da governança ambiental publica e da capacidade das políticas ambientais e sociais locais em induzirem comportamentos desejados para a manutenção / melhoria dos indicadores de desempenho ambientais, aproximando a agenda de redução de riscos às políticas públicas.

Para adequadamente abordar tais riscos no curto e médio prazo, no entanto, há necessidade de integração e uma visão ao menos favorável às questões ambientais e atenção redobrada quanto ao potencial disruptivo das crises ambientais sobre as bases de recursos ambientais e ecológicas das quais países como o Brasil precisam para manter a sua conexão as cadeias produtivas globais. Isso não é questão marginal, tendo em vista que o desmonte dos mecanismos de governança ambiental pública impactam sobremaneira o uso de recursos pela população como um todo e, porque não, provocam respostas insuficientes para promover a gestão de recursos.

10 riscos e seu impacto sobre os demais riscos apontados

A interconexão dos maiores riscos com os demais riscos apontados no relatório mostram que há um potencial sinérgico de agravamento dos demais riscos, mostrando a interdependência dentre os impactos ambientais, sociais e econômicos e o potencial disruptivo do comprometido da base ecológica nos processos do metabolismo social.

Este comprometimento tem sido apontado pela Sociedade Internacional de Economia Ecológica, que agrega dentre as premissas de discussão econômica a questão dos limites biofísicos de um sistema materialmente fechado, o planeta Terra, e as pressões negativas que geram instabilidade sobre os sistemas que dependem da integridade ecológica para gerar retornos como fundo e promover fluxos de materiais e energia.

A adoção dos limites por premissa de estruturação de políticas publicas está diretamente ligada ao modo pelo qual as sociedades realizam seus processos metabólicos e como mobilizam os recursos ecológicos disponíveis para gerar fundos, estoques e fluxos de materiais e de energia, bem como os impactos ambientais associados e acumulados no território.

Tais fluxos tem o potencial de comprometer a estabilidade do planeta quando ultrapassam a capacidade de suporte dos ecossistemas até o ponto de não retorno. A questão dos limites é basilar e parece estar intrinsecamente ligada à percepção de riscos ambientais como críticos para a sobrevivência da humanidade em consonância com os limites globais apontados no relatórios de riscos globais 2022.

O modelo acima demonstra como o sistema econômico e social baseia-se no sistema ecológico, que oferece fundos, considerados renováveis, SE utilizados dentro das taxas de reposição dos componentes do ecossistema, estoques, que são recursos não renováveis, fluxos, que podem ser de fundos ou estoques e os impactos ambientais associados à extração, utilização e descarte.

Outro modelo bastante elucidativo sobre os limites biofísicos do planeta pode ser encontrado no documentário Breaking Boundaries: The Science of Our Planet“, baseado no trabalho de Johan Rockstrom sobre como os limites biofísicos do planeta Terra e os processos metabólicos da humanidade (entendidos aqui como aqueles que garantem os processos econômicos, sociais e ambientais).

Rockstrom e seu diagrama de limites biofísicos e impactos associados

Transformar os apontados do relatório de riscos globais 2022 em processos políticos e sociais internos dos países exige uma permeabilidade a análises de cenários para a estruturação de alternativas estratégicas. Não é coisa de amadores. Exige dos atores políticos dos países a compreensão dos impactos possíveis sobre as atividades econômicas, sobre a necessidade de estruturar uma governança moderna e em equilíbrio dinâmico com as necessidades globais e necessidades locais.

Considerando o que tem sido feito nos últimos 3 anos em termos de governança ambiental nacional, há uma sinalização de que os responsáveis pela adoção de políticas e estratégias não tem acesso ao que tem sido discutido em foros globais, e se tem, não os consideram na formulação e execução de políticas.

Com as mudanças climáticas, os impactos sobre a biodiversidade, recursos hídricos, desastres ambientais ocorrendo por má gestão de impactos e riscos, o Brasil surge como um dos candidatos a infelizmente gabaritar a materialização dos 10 riscos globais no seu território, a não ser que esta trajetória de enfraquecimento do framework de governança ambiental pública seja rompida a partir de 2023.

É crucial, portanto, que identifique-se nos discursos dos postulantes ao poder executivo nacional e estadual se tais premissas estão presentes em seus planos de governo e não somente nos discursos, para que o Brasil volte a ser um player importante na estruturação de soluções sustentáveis globais e para que incorpore os limites biofísicos nas cadeias produtivas que fazem parte do seu metabolismo societário, visto que depende sobremaneira de processos altamente impactantes de acordo com o diagrama de Rockstrom.

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