Eficiência no uso do Calor e sustentabilidade

Artigo interessantíssimo publicado no 360.yale.edu avalia as possibilidades de utilização da energia perdida em processos produtivos, com aumento da eficiência do uso de energia de grandes plantas para as cidades.

O aumento da eficiência no uso de energia era um dos desafios que Eugene Odum encarava como cruciais na década de 1970, quando escreveu “Fundamentals of Ecology”. Neste livro, o autor conceituou o ecossistema como trocas frequentes de energia, matéria e informação entre indivíduos interconectados por estes fluxos, sujeitos aos feedbacks positivos e negativos que ajustam continuamente o comportamento dos integrantes deste ecossistema, funcionando como pressões adaptativas e gerando interdependência e diversidade.

Tais processos naturais também são processos com baixa eficiência, visto que grande parte do que é sintetizado pelos produtores (plantas e algas) é perdido sob forma de calor nos consumidores primários, consumidores secundários e assim por diante, até chegar aos decompositores. Estima-se que a cada nível trófico sejam aproveitados até 10% da energia total ingerida ou absorvida, com perda do restante.

No artigo  da 360 a autora Nicola Jones ressalta o incrível potencial para aumento da eficiência no uso do calor originado dos processos produtivos. Dados da reportagem estimam em 30% a eficiência do uso de recursos e que experiências, ou seja, 70% de perda no uso do calor perdido pelo uso de máquinas e outros processos.

O problema do desperdício da energia atraiu start-ups cujo foco é justamente resolver este desafio. Com base na avaliação de processos produtivos de grandes empresas e as possibilidades de sinergias e ganhos de eficiência com as cidades que as circundam, várias experiências tem sido implementadas com vistas a aumentar a eficiência no uso de energia de 30% para 60% – 80%.

Figura 1: Detalhe de experiência da empresa Facebook na Dinamarca

CHP

Fonte: https://e360.yale.edu/features/waste-heat-innovators-turn-to-an-overlooked-renewable-resource

A figura 1 demonstra como funciona o modelo para produção de calor e transporte para localidade onde se encontra. Estas iniciativas começaram a aparecer em virtude da dependência de determinados países de energia fóssil de regiões vulneráveis, o que os tornava vulneráveis também.

Desafios físicos ainda são grandes, como o transporte deste calor por longas distâncias. Espera-se que mais experiências do tipo apareçam em todo o mundo, como resultado de políticas públicas e investimento em inovação.

A pauta da eficiência no uso de energia e matéria, por meio do incremento de informação nos sistemas, tem sido um dos pilares da revolução no uso de recursos que será necessária para prover a crescente população humana de energia e matéria necessárias para suas atividades.

O Fórum Econômico Mundial publica anualmente o relatório de riscos globais. Neste relatório analisa quais aspectos representam maior risco, com base em probabilidade e impacto dos riscos sobre a Economia Global.

O risco é definido como o produto entre a probabilidade de ocorrência e o impacto que o evento, caso ocorra, representaria. Neste ano, como em 2017, os maiores riscos globais estão relacionados  aos eventos climáticos extremos,  aos desastres naturais e às falhas em mitigação e adaptação às mudanças climáticas, conforme figura abaixo.

global risks

Fonte: https://www.weforum.org/reports/the-global-risks-report-2018

Outra figura visualmente interessante mostra a interrelação entre as tendências levantadas no relatório (pontos coloridos) e os maiores riscos (pontas externas). Esta análise aponta os impactos sistêmicos da concretização dos riscos. É uma variação da análise de causa-efeito.

Note-se que a tendência instabilidade social profunda aparece como efeito em quase todas as concretizações de risco. Em geral tendemos a reduzir a importância dos eventos climáticos extremos, que tem aumentado em frequência e intensidade em virtude das mudanças climáticas e das falhas na mitigação e adaptação, com base nas evidências científicas.

A mudança abrupta das condições ambientais, com a consequente alteração ou destruição dos ecossistemas causa alterações também na disponibilidade de fatores abióticos e bióticos que asseguram a viabilidade econômica das diversas cadeias produtivas das quais dependem grande parte da população global.

Esta disrupção das condições ambientais locais causa problemas econômicos, causando, como tradicionalmente ocorre em colapsos das condições locais de produção, migrações e instabilidade social.

Interrelação

https://www.weforum.org/reports/the-global-risks-report-2018

As interconexões entre os riscos, outra parte fundamental do relatório, demonstra um análise de stock-flow simplificada, onde a intensidade do feedback positivo é dada pela largura das retas que ligam os riscos.

As interconexões entre as migrações, instabilidade social profunda, falhas em mitigação e adaptação às mudanças climáticas, crises na água e consequentemente crises na produção de alimentos demonstram que tais temas precisam estar presentes no planejamento dos países.

Interconnections

https://www.weforum.org/reports/the-global-risks-report-2018

Obviamente, os países ricos e com políticas mais robustas de gestão de riscos possuem mais recursos para enfrentar tais desafios e mais ferramentas para evitar, compensar, mitigar ou enfrentar os efeitos adversos. No entanto, isso não resulta em maior resiliência caso a instabilidade social profunda em outros países resulte em colapso do Estado e a migração em larga escala.

Temos observado no Brasil onde o colapso do Estado Venezuelano está levando sua população. A Colômbia e o Brasil estão pagando pela crise venezuelana, causada pela instabilidade social profunda e falhas na governança local causada pelo ditador Maduro. Um risco a considerar-se, também, é a possibilidade de conflito inter-estatal, mas não é assunto do post do blog e não perderemos tempo com este tema.

A interligação de riscos é uma análise que deve ser feita em processos de produção de inteligência e a inteligência deve subsidiar o planejamento. A partir desta interligação entre riscos e da intensidade dos impactos advindos, pode-se medir a força relativa destes impactos e priorizar os investimentos e ações em evitar, mitigar ou compensar tais impactos, planejando as ações que trarão maior retorno na redução sistêmica de riscos.

Para quem trabalha com cenários e inteligência, sugiro analisar o relatório completo. As tendências de macroambiente apontadas no relatório seguramente impactarão as atividades de empresas e instituições governamentais, e para isso deveriam ser montadas estratégias para aproveitar oportunidades e mitigar ou evitar riscos.

 

 

State of Green Business 2018

O relatório “State of Green Business” é uma iniciativa dos profissionais da Green Biz, think tank ambiental nos EUA, e é publicado anualmente com informações sobre o avanço e os impactos da Economia Verde e tendências observadas de evolução de mercado. O Estudo é anual (GB2016 e GB2017) e demonstra uma tendência forte de consolidação deste movimento nos EUA.

Como já evidenciado neste blog, há um movimento global para promover a Economia Verde. Grandes investidores institucionais tem cobrado uma régua objetiva e consistente para evidenciar as políticas e práticas em sustentabilidade das empresas, evoluindo até a avaliação da intensidade do carbono emitido ou a quantidade de água envolvida nos processos produtivos.

Adicionalmente, a proposição de uma agenda global de desenvolvimento baseada nos SDG’s (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) promove um modelo de desenvolvimento calcado em 17 metas para colocar os países em uma rota de desenvolvimento compatível com um sistema materialmente fechado como a Terra.

Tais iniciativas tem o potencial de mudar o mercado, visto que a incorporação de externalidades negativas no preço dos produtos ou a avaliação de riscos socioambientais de cadeias produtivas pode alterar fluxos de caixa pela imposição de multas ou pela agregação de valor ao produto mais sustentável, gerando empregos de qualidade.

As principais tendências detectadas e destacadas pelo Estudo são as seguintes:

  1. Critérios socioambientais (ESG) de desempenho movem-se da periferia para o centro das preocupações, exigindo sistemas robustos de ESG das empresas e evidências materiais de políticas e práticas.
  2. Metas baseadas em ciência entram na estratégia das empresas – As metas definidas para redução de emissões devem estar baseadas em estudos científicos para balizar as ações de redução mais efetivas para cada tipo de empresa.
  3. Investimentos para cumprir as metas de limite de aquecimento em 2 graus e as metas de desenvolvimento sustentável (SDGs) começam a aparecer, por meio de investidores institucionais (fundos soberanos e fundos de pensão) e grandes investidores, exigindo uma mudança de estratégia dos bancos visando captar, aplicar, monitorar, reportar e verificar se os resultados econômicos, sociais e ambientais prometidos pelos projetos estão sendo devidamente entregues à sociedade e aos investidores.
  4. Emissões de carbono entram na contabilidade das empresas mais inovadoras, especialmente aquelas relacionadas à tecnologia. Este poder de indução de práticas tem sido observado, por exemplo, na sede da Apple, onde green bonds foram emitidos para suprir as necessidades de investimento em green building, eficiência hídrica, eficiência energética, energia renovável, novos materiais menos intensivos em uso de energia e novas tecnologias para reaproveitamento de aparelhos e computadores antigos.
  5. Inclusão de pessoas no mercado também entra na agenda, gerando um efeito positivo na percepção dos indivíduos e fomentando o empreendedorismo nas cidades. Para um país como o Brasil, diverso e com boa parte da população fora do mercado de trabalho, é um imperativo considerar tais conceitos nas estratégias.
  6. Novas tecnologias para estocagem de energia dialogam diretamente com a emergência das energias renováveis e a redução da necessidade de grandes plantas produtoras de energia, tendo em vista o caráter de rede descentralizada de produção.
  7. Smart cities, com investimentos em mobilidade, teletrabalho, entregas à distância e cada vez mais eficiência no uso da energia e nos deslocamentos para trabalho e lazer.
  8. Inteligência Artificial promovendo menores impactos ambientais ao avaliar a eficiência do uso de materiais e energia, com sensores de eficiência ambiental avaliando cadeias de fornecedores, impactos diretos e indiretos de investimento em determinadas áreas e promovendo uma mudança radical no cálculo da eficiência produtiva.
  9. Eletrificação da vida ocorre quando se utiliza energia elétrica ao invés de energia não renovável. Já apontada como alternativa para o uso de petróleo diretamente, o uso de energia elétrica para promover mobilidade e aquecimento e resfriamento de edifícios é uma tendência já observada em diversos países em todo o planeta, inclusive na China, onde a poluição das cidades exigiu investimentos diretos em menor poluição e novas fontes renováveis de energia.
  10. Biologia sintética, ou síntese biológica de compostos, promovendo a redução de impactos de cadeias produtivas responsáveis por grandes quantidades de emissão de gases de efeito estufa, tais como a produção de leite ou carne.

Estas tendências já estão ocorrendo nos EUA. O relatório original mostra que o movimento de inovação está empurrando o país para a geração de novas tecnologias de produção, com empregos altamente especializados sendo gerados e novas oportunidades de investimento aparecendo.

Os argumentos para se apoiar a Economia Verde sustentam-se, portanto, nos pilares econômicos, sociais e ambientais com resultados positivos em indicadores relacionados ao Desenvolvimento Sustentável e aos 17 objetivos construídos pela ONU.

É interessante observar, também, como a Economia Verde já está inserida num país altamente empreendedor como os EUA. Para cada uma destas tendências citadas no relatório, há diversos exemplos locais de empresas inovadoras pensando em novas maneiras de fomentar processos produtivos sustentáveis, com viabilidade econômico-financeira comprovada e aproveitando também as oportunidades de levantar recursos com investidores privados interessados em novos processos produtivos.

É a receita do sucesso.

 

 

 

Uma professora do curso de gestão ambiental nos ensinava que em política ambiental as boas ideias são copiadas. Os países desenvolvem suas legislações e, consideradas bons exemplos a serem seguidos, são copiadas em outros países.

Isso ocorreu com o instrumento da Avaliação de Impacto Ambiental, criado em 1969 pela Environmental Protection Agency nos Estados Unidos, bem como com a criação de parques nacionais e áreas protegidas, instrumentos que inicialmente apareceram no século XIX no Império Inglês e nos EUA.

A Agência Ambiental Europeia (AAE) publicou um relatório sobre energias renováveis e as tendências de futuro para o tema na União Europeia. As premissas , tendências e principais desafios foram apontadas pelo Diretor Executivo da AAE na publicação:

Premissas:

  1. As pessoas precisam de fontes de energia confiáveis a um preço razoável
  2. As empresas precisam de fontes de energia confiáveis para continuar produzindo
  3. Os combustíveis fósseis não podem ser predominantes, em função das externalidades negativas geradas, tais como os poluentes e as emissões de gases de efeito estufa

Tendências:

  1. Uso de carros elétricos
  2. Uso da energia elétrica de fonte solar
  3. Eficiência em edifícios para otimizar o uso da energia
  4. Design para estender o ciclo de vida de produtos, promovendo o reuso e reciclagem

Desafios

  1. Pesquisar e implementar alternativas para captar, acumular, transportar e conservar energia em larga escala
  2. Incentivar a geração descentralizada e desconcentrada
  3. Tornar as unidades habitacionais produtoras de energia por meio de smart grids, conectando redes e demais partes interessadas
  4. Aumentar a eficiência no uso de energia em veículos e edifícios
  5. Desenvolver uma rede de infraestrutura para suprir as demandas de energia pelos veículos

Hans Bruyninckx (o diretor executivo da EEA) reconhece que uma transição para os modelos está ocorrendo. Os agentes de mercado, empresas e consumidores, estão migrando para a produção de energia descentralizada e desconcentrada, alterando as configurações e poder de negociação das empresas geradoras e distribuidoras de energia e os consumidores.

A solução sugerida por ele e logicamente pela instituição que representa é trabalhar em direção a uma economia de baixo carbono e circular, com foco em renováveis, eficiência energética, segurança e preço adequados, apoiados por uma rede de investimentos em infraestrutura, novas habilidades e empregos e inovação.

Modelo de onde chegar até 2050 – EEA, 2017

A mudança proposta exige modelos de negócios focados em promover esta mudança. Sob o ponto de vista das finanças, mecanismos de captação de recursos e aplicação em eficiência energética, energias limpas, edifícios eficientes e automóveis elétricos, bem como toda a infraestrutura que envolve o tema, poderá causar um incremento na Economia Verde no subcontinente e servir como modelo no Brasil.

Para que sirva de modelo, no entanto, exigiria-se do Estado uma alteração no mindset, visto que esta transição causará impactos profundos na maneira pela qual captamos, acumulamos, transportamos e conservamos energia e na nossa relação de consumidores com as empresas de energia, tradicionalmente com muito poder de negociação junto ao governo e agências reguladoras e cujas receitas dependem também da manutenção do Business as usual.

De qualquer forma, é uma tendência de mercado que não tem volta. A geração descentralizada e desconcentrada, bem como a eficiência energética, são temas que são abordadas desde a China até os EUA, passando pela União Europeia e África. Apesar do paradigma Trump, os efeitos das mudanças climáticas não sumiram e a transição para uma economia circular, de baixo carbono, baseada em serviços e inovação é um driver global, com efeitos em todo o mundo. Podemos aprender bastante com tais iniciativas.

Para os interessados em gestão ambiental pública e sua interface com a gestão ambiental privada, sugiro inscrever-se no site da EEA e receber por correio os materiais publicados. Quando mais massa crítica para discutir o tema no Brasil, melhor.

Limites e tendências…

Um conceito fundamental da Economia Ecológica é o limite. Temos um sistema fisicamente limitado, ainda que energeticamente aberto. A equação referente ao estoque de recursos e ao fluxo econômico criado por este estoque não fecha quando falamos da função sumidouro do planeta Terra.

Ligado diretamente a este conceito está a capacidade deste ambiente de absorver e neutralizar os resíduos gerados, mantendo um equilíbrio dinâmico entre o consumo e a produção, sem causar o ponto sem retorno que transforma de forma irreversível este ambiente e, por consequência, limita as atividades de produção e consumo da espécie.

Em Daly e Farley (2011), apresenta-se a função de produção abaixo:

q + w = F (N, K, L, r, e)

(maiúscula – estoque, minúscula – fluxo)

Donde  q – fluxo de produtos, w – fluxo de resíduos, N – capital natural, K – trabalho, L – capital, r – recursos naturais e e – fluxos de energia, i.e., a produção de produtos e resíduos é função direta do capital natural, trabalho, capital, recursos naturais e fluxo de energia utilizados na produção econômica..

Isto posto, diversos indicadores de temos que a exploração de recursos do estoque, representados por N, K, L, r e e para gerar fluxo econômico não tem obedecido aos limites ecológicos do planeta. Há sinais claros de acumulação de impactos ambientais tratados como externalidades na Economia Clássica e que deveriam ser incorporados ao valor do produto.

A parte visível dos limites que estão sendo ultrapassados são visíveis em vários indicadores ambientais: As nuvens de poluição na China parando fábricas e afetando a saúde das pessoas, os grandes giros de lixo plástico nos oceanos alterando a capacidade de produção primária, a contaminação da Baía de Guanabara, a falta d`água em regiões do mundo inteiro e fenômenos climáticos extremos tornando-se frequentes.

Dentro das alternativas em gestão ambiental pública e em gestão ambiental privada para enfrentar o problema temos um sistema que se retroalimenta. A gestão ambiental pública tem os instrumentos para calcular o valor e induzir a economia circular na sociedade e a introdução deste valor à equação exige adequações do sistema produtivo privado para incorporar no valor do produto o consumo dos estoques e da capacidade de assimilação do Sistema Ecológico, do qual depende o Sistema Econômico.

Os sinais de consumo excessivo do capital natural e o acúmulo do fator w da equação estão aí, claros e preocupantes quando se cruza com a identidade IPAT. No entanto, o processo político teima em não adotar os dados científicos para balizar as políticas públicas e as políticas públicas precisam gerar movimento nas empresas, muito em consonância com o que a Ecologia Industrial sugere para o sistema produtivo.

A conferir se este movimento será suficiente para alterar a tendência de comprometimento da capacidade de suporte do ambiente em prover estoques e fluxos econômicos enquanto mantém a capacidade de absorção dos resíduos gerados pelas atividades humanas.

Até o momento temos milhões de toneladas de resíduos sendo lançadas diariamente em nossos sistemas de suporte e com potencial para atuar de forma disruptiva na sociedade.

O quadro abaixo sumariza o impacto de tendências observadas para o circularidade dos materiais numa economia.

A tendência 1 fala sobre a complexidade dos designs de produto. Como exemplo cita os smartphones multifuncionais, que realizam vários serviços que dependeríamos de diversos outros produtos para efetuar. Cita como impacto negativo a dificuldade em separar os componentes em virtude da sua reciclabilidade limitada.

A tendência 2 fala do design modular, que estende o ciclo de vida do produto e permite uma maior remanufatura e reparo.

A tendência 3 fala do produção local on demand e cita claramente a tecnologia de impressão 3D, onde um produto pode ser produzido em qualquer local do planeta, bastando para isso ter o projeto e os materiais que o compõem, aumentando a customização.

A tendência 4 mostra a tendência de se construir serviços a partir de produtos, aumentando a frequência de uso, a longevidade e os serviços de reparo. Um exemplo é a economia do compartilhamento, onde um carro parado pode ser usado por quem precisa do serviço de deslocamento.

A tendência 5 refere-se ao e-commerce e o aumento da eficiência produtiva com menos estoques, onde o produto não precisa de mostruário físico e diminui os deslocamentos dos consumidores para as lojas. Tem sido uma tendência e já tem provocado fechamento de redes tradicionais. Um exemplo claro é a Amazon.com.

A tendência 6 é o aumento da vida útil dos produtos, reduzindo o domínio da obsolescência programada e impactando diretamente a moda.

A tendência 7 lida com o consumo colaborativo, que afetará diretamente a economia da posse em detrimento da economia dos serviços.

A tendência 8 refere-se aos mercados para reciclados, que resulta em empresas especializadas em gerir a reciclagem e destinação de produtos.

A tendência 9, finalmente, lida com a internet das coisas, que permite mais e melhores informações sobre os produtos consumidos e os materiais que os compõem.

Estas 9 tendências ajudam a montar um cenário para a economia circular. Demonstram que há movimento e que precisa-se de condições específicas para desenvolver-se plenamente e tornar a economia um processo circular.

O relatório chama de “enablers”, ou fatores viabilizadores (tradução livre), os três principais fatores geradores de ação:

  1. Deslocamento da economia da posse para a economia de serviços
  2. Usar a impressão 3D e a internet das coisas para reforçar a economia circular
  3. Alinhar políticas e instrumentos para tornar o ciclo de vida de produto mais eficiente

A partir daí provê o diagrama abaixo, onde os requerimentos para uma economia circular emergem em cada fase do ciclo.

A Economia Circular, de acordo com a publicação, é aquela na qual o uso de materiais, incluindo a reciclagem, reuso e recuperação visa reduzir a geração de resíduos, a dependência da extração de matéria-prima e a importação de materiais, com potencial de gerar benefícios ambientais e econômicos.

A abordagem da publicação mais uma vez foca em ações a serem desenvolvidas pelo ente regulador, pelos consumidores e pelas empresas. Uma ação conjunta é o ponto de partida para qualquer movimento que pretenda gerar sinergia.

Muitas das tendências se alinham às necessidades de inovação no uso da tecnologia e é aqui que emerge a interface com o mundo das coisas. Considerando as necessidades de uma economia como a brasileira, a abordagem da Economia Circular como ponto de partida dos nossos projetos de desenvolvimento por parte do regulador e das empresas pode gerar novos movimentos relacionados à atração de investimentos e de novos processos de produção e consumo.

Só temos a ganhar com a consequente geração de empregos necessários para nosso desenvolvimento e novos recursos para aplicar em nossas cidades e nossas cadeias econômicas. A conferir e trabalhar por isso.

A União Europeia lançou o relatório “Circular by Design – Products in the Circular Economy“, no qual identifica as premissas para se avançar para uma economia circular focada muito além da eficiência no uso de recursos naturais e na reciclagem de resíduos.

O foco no design significa ultrapassar a obsolescência programada, estendendo a vida útil dos produtos. Entram na ordem do dia o reúso, reparo, redistribuição, remanufatura e reforma, bem como investimentos em pesquisa de produtos com menor potencial degradador do meio ambiente.

Como premissas continuam as de não considerar os processos produtivos lineares, mas desenhar tais processos de forma circular (vemos muito o papel da engenharia de produção em correlação com a engenharia ambiental e as empresas gestoras de sinergias).

O Relatório

A primeira parte do relatório deixa explícitas quatro pressões para adotar uma Economia Circular: Evitar impactos ambientais e sobre a saúde pública relacionados à economia linear, evitar o uso ineficiente de recursos naturais e evitar a dependência de recursos externos à União Europeia.

Minimizar o input de recursos ambientais em processos por meio da manutenção de materiais durante o maior período possível reduz a necessidade de novos materiais e energia, reduzindo os impactos relacionados ao ciclo de vida dos produtos.

Adotadas as políticas para uma economia circular, explícitas nas estratégias de uso de recursos por parte da União Europeia, espera-se o efeito sinérgico do menor uso de materiais e energia na produção, com a consequente redução de emissões relacionadas à maior eficiência.

O esquema conceitual da Economia Circular considera a necessidade de manter os materiais o máximo de tempo possível nos processos produtivos, com valor. Para cumprir o disposto neste esquema, há de se inserir o eco-design desde o início do processo, influenciando na escolha dos materiais, na produção e distribuição, no consumo e acumulação na infraestrutura até o descarte.

Há diversos papeis a serem assumidos nesta transição da economia linear para a economia circular. O Regulador (estados nacionais, regiões, etc) emitem as normas para eficiência energética, energia renovável, monetarização das emissões de carbono por meio de taxas ou cap and trade, que funcionam como forças para direcionamento do mercado.

As empresas, por sua vez, avaliam seus produtos por meio do LCT – Life Cycle Thinking – considerando o design de seus produtos “do berço ao berço”, com uma estimativa dos impactos gerados durante a extração da matéria prima, desenvolvimento, produção, consumo e reaproveitamento.

Os consumidores tendem a escapar da “samsara” da obsolescência programada. Os produtos não podem somente seguir a moda. Há um movimento real de se pagar pelo serviço obtido ao invés da posse e esse movimento tem sido reforçado pelas tecnologias da informação.

De acordo com o relatório, a transição da economia linear para uma economia circular exigiria dos atores diferentes mudanças.

Negócios

  1. Transição do valor do produto para o valor do serviço, com o valor de mercado do serviço sendo medido pelo valor agregado, não somente pelo valor de venda determinado entre o custo de produção e o valor da venda.
  2. Reversão da tendência de produção em massa em escala global, com o produto produzido longe do local de consumo para uma produção localizada e mais eficiente.
  3. Oferta de economia de serviços ao invés da economia da posse do produto
  4. Tendência de avaliar o ciclo de vida do produto desde o design ao invés do binômio consumo-descarte.

Consumidor

  1. Ultrapassar a fase do marketing ligado à obsolescência programada para o serviço oferecido, com iniciativas de co-criação e co-produção de produtos e serviços.
  2. Atitudes relacionadas ao comprar local, reduzindo a necessidade por produtos produzidos a milhares de quilômetros e transportados para a porta de casa.
  3. Acessibilidade ao serviço se torna a norma e não a posse.
  4. Incentivos para a incorporação do ciclo de vida ao ciclo do consumo

Regulador

  1. Fomento de iniciativas mais “microindustriais”, com taxação das emissões de resíduos
  2. Gestão dos produtos para o desenvolvimento local, com produção localizada.
  3. Maior identificação e redução de riscos associados aos materiais usados na produção.
  4. Facilitação da gestão do fim de ciclo de vida, com incentivos em toda a cadeia.

Algumas destas iniciativas já estão sendo incorporadas ao dia a dia das empresas. A transição das empresas para o modelo de serviços é uma tendência observada em diversas empresas de grande porte.

Estas iniciativas tem grande impacto sobre o modelo sob o qual os processos econômicos estão organizados dentro de uma sociedade. Ao avaliar os processos de produção e consumo, verificamos que há muito a avançar no design de produtos e na extensão da sua vida útil.

O próximo post continua a avaliar o material, desta vez com relação às tendências de mercado para uma economia circular.

 

Conferência Bianual de Ecologia Industrial – Chicago 2017

A Conferência bianual em Ecologia Industrial de 2017 aconteceu em Chicago, na Universidade de Illinois. Foram quatro dias de discussões, apresentações e painéis tendo por premissas a Ecologia Industrial e sua contribuição para a Economia Circular e para o atingimento dos recém lançados Objetivos do Desenvolvimento Sustentável 2030.

De início podemos afirmar: A Sociedade Internacional para a Ecologia Industrial cresceu bastante, espalhou-se pelo planeta e tem propostas inovadoras e eficientes para direcionar o crescimento global em direção à Economia Circular. A quantidade de profissionais novos, especialmente os chineses e indianos, demonstram que estamos às portas de (não menos que) uma revolução no modo de produzir, consumir, reaproveitar e reciclar os recursos necessários para a vida humana.

Há um claro processo de diferenciação e “especiação” no âmbito da Sociedade. Interesses diversos, novas áreas para pesquisa, agrupamento de profissionais em temas de interesse comum tem provocado a formação de diversos grupos especializados, dentre eles a de Metabolismo da Sociedade, Análises de Fluxos de Massa e Avaliação de Ciclo de Vida de Produto.

As premissas da Ecologia Industrial , quais sejam, aumento da eficiência produtiva, redução dos fluxos materiais, aumento da eficiência na produção, distribuição e uso de energia, redução dos resíduos gerados com o consequente fomento da Economia Circular tem sido testadas em todos os locais do planeta, produzindo indicadores eficientes, baseados em métodos científicos, com aplicação em elaboração de políticas públicas e privadas de gestão de materiais, energia e resíduos.

Um fator muito interessante tem sido a aproximação da Ecologia Industrial aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e aos princípios da Economia Circular. Esta aproximação permitirá ao campo agregar indicadores de desempenho social à busca incessante pela redução dos impactos ambientais da produção e consumo, especialmente no que tange aos sistemas industriais envolvidos, e evidenciar a visão de Allenby e outros autores sobre a Ecologia Industrial de “ciência do desenvolvimento sustentável”.

Os avanços apresentados visando solucionar os problemas das cidades, da produção de energia, do aumento da eficiência no uso de recursos hídricos, na redução das emissões de carbono antropogênico responsáveis pelas mudanças climáticas, dentre outros, permitem afirmar que estamos gestando um novo mundo.

Como não poderia deixar de ser, participar desta conferência nos faz refletir em que tipo de soluções e desafios seriam aplicáveis ao Brasil. Como fomentar processos produtivos cada vez mais eficientes e eficazes no Agronegócio e na produção de metais e materiais, considerando os cenários de aumento da produção agrícola e pecuária e o crescimento do estoque global de infraestrutura, como reduzir o descarte de rejeitos para o meio ambiente e aumentar o retorno ambiental e social para o país, congregado com a necessidade de projetos economicamente viáveis em infraestrutura?

Aí entra nosso maior desafio: transformar os princípios da Ecologia Industrial em modelos de negócio aplicáveis no Brasil, com nossas especificidades econômicas e vantagens comparativas e competitivas no Agronegócio e no setor de Mineração.

Este desafio tem tudo a ver com a Economia Verde. Considerando os cenários que se desenham, o aumento da eficiência no nosso Agronegócio se dará pela abordagem do capital privado brasileiro, fundamental pelo capital financeiro e humano, e pelo empreendedorismo (como exemplo o texto sobre economia circular na produção de fertilizantes) , com aplicação de tecnologias desenvolvidas em institutos de pesquisa públicos e futuramente nos privados também.

Após a emissão do primeiro green bond da Apple no valor de USD 1,5 bilhão a empresa vai ao mercado de novo para emitir novo título de dívida no valor de USD 1 bilhão.

O Green Bond tem por característica financiar projetos e processos sustentáveis de produção, com adicionalidades na eficiência produtiva e na ciclagem de materiais dos processos produtivos.

Os recursos captados serão investidos nas seguintes atividades:

  • Energias renováveis e sistemas de estocagem de energia, sinalizando que a empresa pode diversificar suas atividades e entrar no mercado de baterias;;
  • Green Buildings, objetivo de capítulo específico do relatório de Economia Verde da UNEP, cujos princípios sinalizam que os edifícios podem ser geradores de energia;
  • Novos designs para edifícios eficientes, relacionados ao tópico anterior;
  • Eficiência Energética, aumentando a eficiência ou o Retorno sobre Investimento em Energia (ROIE);
  • Melhoria na qualidade da água, da eficiência do uso e na conservação do recurso, creio que em virtude da crise hídrica da Califórnia;
  • Investimentos no fechamento dos ciclos de materiais em sua cadeia de suprimento, com o poder de negociação da Apple gerando novos processos produtivos limpos em seus fornecedores em todo o mundo;
  • e Eliminação do Uso de Substâncias Tóxicas, numa abordagem que reflete também a Substance Flow Assessment (SFA), técnica aplicada em Ecologia industrial para mapear o caminho de substâncias no ambiente.

Ao avaliar onde serão aplicados os recursos do Green Bond de USD 1 Bilhão identificamos elementos de Ecologia Industrial entrando diretamente na estratégia da Apple. Uma das maiores críticas associadas aos seus produtos é a falta de uma abordagem de ciclo de vida, sem o necessário take-back dos produtos descartados. Já na primeira emissão de Green Bonds a Apple utilizou o recurso para desenvolvimento de uma máquina para reciclar seus produtos em “fim” de ciclo de vida.

O livro Industrial Ecology, Policy Framework and Implementation, de Brad Allenby, já apontava em 1995 como os sistemas produtivos poderiam desenvolver-se até chegar à circularidade, ie., sistemas fechados sobre o ponto de vista do aproveitamento material com fluxo de energia externa ao sistema sustentando esta ciclagem.

No livro Taking Stock of Industrial Ecology observa-se que o campo científico da Ecologia Industrial tem se diferenciado e ramificado, usando várias das técnicas associadas à disciplina, tais como o metabolismo societário, a MFA, a SFA, a Avaliação de Ciclo de Vida, tendo por premissa que a Ecologia Industrial seria a ciência da sustentabilidade e que é possível atingir-se a circularidade material de processos usando apenas o input de energia externa ao sistema.

Reforça-se nas ações da Apple o uso da Ecologia Industrial na elaboração de estratégias de sustentabilidade específicas, com o conhecimento científico relacionado sendo utilizado e aplicado à área de finanças, com o potencial de gerar sinergias globais na gestão ambiental privada.

A acompanhar o desenvolvimento de novas ações.

Artigo interessante na Nature Communications se propõe a quantificar  as emissões de plásticos para os oceanos, com vistas a realizar uma primeira aproximação da intensidade dos inputs de poluição que sai dos rios para os mares, baseados na gestão de resíduos, densidade populacional e informação hidrológica.

A estimativa de material descartado nos oceanos anualmente está entre 1,15 e 2,41 milhões de toneladas, com 74% do descarte total ocorrendo entre maio e outubro. Os 20 rios mais poluídos estão em sua maioria na Ásia, com o Rio Amazonas aparecendo em sétimo lugar no volume total de resíduos descartados.

O método utilizado permite estimar a quantidade de resíduos plásticos descartados nos Oceanos de forma global (talvez por isso a grande incerteza na estimativa), apontando para as prioridades na gestão destes resíduos.

Os parâmetros utilizados permitiram encontrar uma correlação positiva entre a quantidade de plásticos descartados e a densidade populacional, a produção de resíduos por habitante, a presença de represas nos rios (que resulta em barreira física para a fluxo de materiais plásticos), dentre outros.

A quantificação é o primeiro passo para estabelecer prioridades (dentro do princípio de que o que não é quantificado não é gerenciado). Prioridades territoriais para a intervenção em termos de gestão, prioridades para financiamento e em que período do ano, visto que foi encontrada uma diferença em função do período do ano (ligadas às variáveis de clima, p.ex. precipitação).

O estudo inicial levanta várias hipóteses com relação à geração de resíduos e sua dinâmica de distribuição global, com fatores que podem ter correlações positivas ou negativas nesta dinâmica de descarte global.

A gestão de resíduos, portanto, continua a ser um problema crítico para os gestores ambientais, tanto públicos quanto privados. A adoção de princípios de Economia Circular na fase de design de produtos (o DfE – Design for Environment) é uma das possíveis soluções em escala. O incremento do valor do plástico descartado também pode ser um fator indutor da reciclagem.

A redução do uso de embalagens e dos produtos descartáveis também é uma das bandeiras adotadas globalmente por grupos de pressão, com resultados razoáveis na utilização de produtos não recicláveis e resultando em legislação restritiva por parte de alguns países e estados, como a França, Holanda e Califórnia (EUA).

O uso da incineração em alguns países, como o Japão e a Islândia, também é uma maneira de reduzir o volume de resíduos e o descarte no mar, em que pese as emissões gasosas altamente poluentes.

O documentário Trashed demonstra que, mesmo que resolvamos o problema altamente complexo do descarte de plástico nos oceanos por meio das soluções tecnológicas do DfE ou redução do volume de resíduos produzidos, ainda existe um passivo a ser enfrentado nos aterros sanitários e lixões em torno do planeta e que continuarão a causar impactos muito tempo depois do seu descarte.

De qualquer forma estimar a quantidade de resíduos plásticos descartados nos oceanos é um primeiro passo para o gerenciamento: O problema foi identificado e as quantidades foram estimadas. Daí, pode-se passar a priorizar a solução politicamente, considerando que será identificada como uma questão crítica e receberá recursos e responsáveis para o tema.