Em fevereiro de 2016 a empresa Apple emitiu US$ 1,5 bilhão em Green bonds, com vistas a captar recursos para tornar sua atividade mais sustentável. Dentre as premissas adotadas pela estratégia da empresa com esta captação direta no mercado foram citadas as seguintes:

  1. Redução do impacto nas mudanças climáticas pelo uso de fontes de energia renovável e pelo aumento da eficiência no uso de energia em suas fábricas, produtos e fornecedores;
  2. Usar materiais sustentáveis em seus produtos e processos; e,
  3. Conservar recursos naturais importantes. 

Para cumprir estes três objetivos, a empresa desenvolveu projetos específicos relacionados à economia circular. Somente em 2016 foram aplicados inicialmente US$ 441,5 milhões nas seguintes áreas:

  1. Energias renováveis (US$ 129 milhões)
  2. Green buildings (US$ 232 milhões)
  3. Eficiência energética (US$ 74 milhões)
  4. Eficiência hídrica (US$ 461 mil)
  5. Reciclagem e reutilização de materiais (US$ 2,8 milhões)
  6. Pesquisa e desenvolvimento de novos materiais (US$ 2,04 milhões)

No link da reportagem sobre os investimentos, observa-se o compromisso da empresa com a sustentabilidade e permite-se concluir que uma verdadeira revolução já está ocorrendo, capitaneada também pela indústria da tecnologia. Estes investimentos permitirão à empresa manter a liderança na área onde atua.

O novo campus da Apple, mundialmente conhecido, foi parcialmente financiado com os recursos captados. O edifício é classificado como Leed Gold e já é alimentado com 100% de energias renováveis. Com o investimento em reciclagem e reutilização de materiais, espera-se que a Apple avance para políticas denominadas em gestão ambiental de take-back, recebendo de volta seus produtos em fim de ciclo de vida e recuperando metais raros e minerais importantes para seus ciclos produtivos, reduzindo o impacto causado pela mineração e reinserindo tais materiais nos seus processos produtivos.

O trabalho da Apple nestas seis áreas assemelha-se ao proposto por Allenby no livro “Industrial Ecology: Policy and Implementation“, lançado em 1995. Tendo por base a premissa de reduzir os fluxos de materiais e energia nos processos produtivos, Allenby sugere que as empresas deveriam investir em pesquisa de novos materiais e design, a mineração urbana e a busca incessante por mais e mais eficiência no uso de materiais e de energia.

Tais investimentos serão cruciais para as empresas que almejam tornar-se resilientes e que pretendem sobreviver por mais tempo no mercado, isso é fato. Para suprir estes investimentos as empresas podem usar recursos próprios ou emitir bonds temáticos, como foi o caso da Apple.

O uso de green bonds para financiar tais projetos sustentáveis demonstra um caminho muito interessante também para as instituições financeiras e empresas no Brasil, considerando que os bonds temáticos poderão financiar a transição das atividades destas empresas nas mesmas áreas consideradas pela Apple.

Temos espaço para avançar financiando as grandes empresas, gestoras de grandes cadeias de fornecedores, em sustentabilidade. Eficiência energética, eficiência no uso de água, edificações sustentáveis, mobilidade urbana e infraestrutura podem se beneficiar bastante e alimentar um novo ciclo de crescimento e empregos no Brasil. Precisamos ousar, ganhar eficiência e inovar.

Dois artigos publicados no “Journal of Ecological Economics” demonstram uma análise muito interessante para explicar os impactos ambientais sobre os territórios e as mudanças advindas do modelo de desenvolvimento de cada país.

No primeiro, de Andreas Mayer, Willi Haas e Domink Wiedenhofer, os autores investigam a relação entre a acumulação de fluxos materiais e o bem estar humano. De acordo com a tese defendida pela identidade IPAT, o impacto é proporcional à população, à afluência e às tecnologias utilizadas para extração de materiais.

A constatação dos autores é de que durante o século XX aumentamos o consumo de recursos de 8 bilhões de toneladas anuais em 1900 para 71 bilhões de toneladas de materiais em 2010, com o aumento de nove vezes no consumo total de recursos para um crescimento populacional de 4 vezes no mesmo período.

Este crescimento do consumo elevou os padrões de vida da população, com redução da pobreza extrema e aumento da renda e da expectativa de vida, com a consequente pressão sobre recursos como resultado.

O estudo avaliou, quando disponíveis, os dados sobre 148 países no período de 1950 a 2010, com a utilização da Material Flow Analysis (MFA) para identificar os fluxos de massa internos relativos aos metabolismos societários. Os pesquisadores utilizaram o método para avaliar o consumo de biomassa, energias fósseis, metais, minerais para construção e industriais.

Os autores observaram que ao realizar estatisticamente uma análise de regressão, encontrou-se como conclusão que aos países com maiores fluxos de materiais corresponde uma maior qualidade de vida e que a melhoria das condições de vida dos países em desenvolvimento ainda ensejará um aumento significativo no consumo de materiais, com o consequente impacto ambiental associado.

Como conclusão, os autores apontam que para cumprir as metas de desenvolvimento sustentável até 2030 os fluxos de materiais deverão ser aumentados em diversos países que ainda não entraram na fase de expansão da sua infraestrutura, ainda que consideradas as restrições que serão causadas pelo combate às mudanças climáticas e a escassez de materiais estratégicos para este crescimento. Como resultado, a expansão do metabolismo societário nos países menos desenvolvidos acarretará em mais impacto sobre a capacidade biofísica do planeta, visto que a maioria da população ainda vive em déficit de bem-estar.

O segundo artigo aborda os déficits comerciais e biofísicos da economia da América do Sul entre 1990 e 2013. Os autores abordam o período sob o ponto de vista da depleção e degradação causada em cinco países da América Latina (Brasil, Argentina, Colômbia, Equador e Peru) em virtude da sua “especialização” da sua economia em exportação de commodities.

A análise é interessante porque ultrapassa a análise econômica dos termos de troca, demonstrando que esta especialização tem consequências ambientais, resultando numa carga ambiental excessiva sobre os países citados para incrementar seu fluxo de caixa, especialmente em um momento onde os preços globais das commodities estão em baixa.

Ao abordar os dois artigos sob o prisma da intensificação dos impactos ambientais, temos por resultado duas tendências observáveis:

  1. Aumento dos impactos ambientais sobre os países com déficits de infraestrutura para incrementar a qualidade de vida das suas populações e;
  2. Incremento dos impactos ambientais negativos gerados pelo consumo de insumos necessários para manter os metabolismos societários de países especializados em produção de commodities com baixo preço e alta demanda.

Os efeitos sinérgicos das duas tendências apontadas nestes dois artigos permite inferir que o Brasil ainda passará por uma fase de consumo mais intenso de material, tanto para suprir seu déficit de infraestrutura quanto para equilibrar sua balança comercial.

Este incremento do consumo de material, no entanto, necessita de uma atenção focada na avaliação ambiental ainda mais refinada, ao contrário do que se observa nas propostas de licenciamento ambiental que vem sendo apresentadas nas duas casas do Congresso Nacional.

As consequências deste incremento de impactos ambientais serão verificadas diretamente na saúde e disponibilidade de solos produtivos, na exploração de minerais e minérios, na importação de insumos produtivos e agroquímicos, no consumo de recursos hídricos renováveis acima da capacidade de reposição do ciclo hidrológico, na pressão exercida sobre o sistema florestal que subsidia o ciclo hidrológico e na capacidade das cidades de absorver as pressões da superpopulação.

Três conclusões podem ser tiradas dos artigos que refletem diretamente as futuras pressões ambientais sobre o Brasil:

  1. As pressões sobre os recursos não renováveis irão aumentar, em virtude do conhecido déficit de infraestrutura brasileiro e da necessidade de incremento do nosso bem-estar. Minerais e minérios tem papel importante na expansão da infraestrutura.
  2. As pressões sobre recursos renováveis também irão aumentar, para suprir as necessidades das cidades e de exportação de commodities agrícolas, com o esgotamento de solos e recursos hídricos.
  3. O ente regulador precisa urgentemente incluir em suas análises os riscos socioambientais advindos desta expansão no consumo de recursos, visando proteger os interesses de longo prazo da sociedade, muitas vezes deixados de lado em função da necessidade de gerar caixa de curto prazo.

A leitura dos dois artigos é muito interessante para quem trabalha com Gestão Ambiental e construção de cenários, especialmente na visão que resulta da consolidação das tendências de longo prazo e novos temas emergentes relacionados à gestão de recursos renováveis e não renováveis estratégicos que já dão sinal de exaustão em virtude do uso excessivo e não racional.

Artigo do Journal of Industrial Ecology sobre Simbiose Industrial

O volume 21 do Journal of Industrial Ecology traz um importante artigo sobre a Simbiose Industrial, tanto sobre o ponto de vista conceitual quanto sobre os viabilizadores e pressões adaptativas para a organização deste tipo de arranjo produtivo.

O conceito adotado pelos autores Yap e  Devlin, baseado em diversos autores que são referência no campo da Ecologia Industrial, remete às trocas de materiais, energia e outros subprodutos do processo produtivo entre empresas localizadas em mesmo espaço geográfico.

A simbiose industrial é considerada no texto como o mais desenvolvido modo de gestão de resíduos e redução de impactos sobre o meio ambiente pelas empresas, bem como o que mais se aproxima do conceito de economia circular ou de resíduo zero, tendo por ponto de partida a necessidade de reduzir ao máximo possível as emissões e aumentar a eficiência produtiva.

Dentre os modos de gestão estão os seguintes:

  1. Menor esforço, menor custo, onde os resíduos sólidos são incinerados ou acumulados, o calor e emissões gasosas são liberadas no ambiente e os líquidos descartados nos corpos d’água.
  2. Fim de tubo, onde os fluxos de resíduos e emissões são segregados na fonte e o potencial poluidor é diluído, neutralizado ou solidificados, com os resíduos acumulados em locais específicos.
  3. Produção mais limpa, onde as fontes de resíduos são identificada e a quantidade e potencial poluidor são diminuídos por meio de práticas de gestão internas, mudanças em processos e rotinas, materiais trocados, equipamentos modernizados e parte dos resíduos é reusada, recuperadas ou reciclada internamente.
  4. Simbiose industrial, onde o reúso, recuperação e reciclagem são feitas externamente por outros componentes da cadeia produtiva por meio de arranjos “simbióticos”.

Dada a parte conceitual, os autores se perguntam quais seriam os viabilizadores dos arranjos produtivos e as pressões adaptativas oriundas do ambiente para que mais iniciativas de Simbiose Industrial sejam geradas, com a consequente redução do potencial poluidor dos resíduos gerados pelas indústrias e do risco que tais resíduos impõem à sociedade.

pressao-adaptativa-empresasA figura acima, extraída do artigo, mostra os principais elementos de pressão adaptativa que atuam sobre as empresas. Políticas públicas, instituições financeiras, competição, grupos da sociedade civil, autoridades informais (associações de negócios, grupos profissionais, instituições religiosas) representam fortes pressões adaptativas para a atuação das empresas.

Esta atuação, por sua vez, necessita de sensibilidade interna por parte dos componentes da empresa, e essa sensibilidade varia de acordo com diversos critérios: quanto investimento é necessário, quais os custos de não fazer nada, assistência financeira disponível, implicações para a qualidade dos produtos, no caso de indústrias, qual o nível de habilidade necessária para os trabalhadores, qual a estratégia de longo prazo da empresa?

Deste modo, os autores afirmam que a evolução da simbiose industrial depende do contexto onde se está inserido o sistema e que a formação do ecossistema industrial depende do desenvolvimento local e das contingências a que estão expostos os componentes deste ecossistema.

A análise dos diversos componentes citados na figura 1 ressalta as pressões de mercado, as pressões do Regulador, as pressões da sociedade civil e como suas ações atuam efetivamente para promover uma adaptação nas atividades das empresas.

Do ponto de vista das forças de Mercado, os custos de transação, novas tecnologias, a coevolução dos componentes do ecossistemas são cruciais para que um modelo de Simbiose industrial evolua à semelhança do que se espera de um ecossistema complexo. Quanto mais componentes neste Ecossistema Industrial interdependentes entre si, mais resilientes e menos propensos à disrupção estarão os seus componentes.

O Regulador, i.e. o Estado, determina a atividade das empresas por meio de seus instrumentos de pressão: Selos ambientais, instrumentos econômicos alterando a viabilidade econômica da gestão de resíduos, processos de regulação negociados, regulações obrigatórias e nacionalização. Há evidências de parques ecoindustriais que surgiram a partir da regulação mais estrita por parte do Estado, que atuou como investidor e regulador para forçar um comportamento redutor de impactos e riscos sobre o ambiente. Por outro lado, regulações mal desenhadas podem levar à destruição das redes formadas pelas empresas para a viabilização dos Ecossistemas industriais.

A Sociedade Civil é crucial neste movimento. Nesta categoria enquadram-se os movimentos de consumidores, investidores e sindicatos de trabalhadores, que atuam como importantes geradores de comportamentos por parte das empresas. A percepção dos Ecossistemas Industriais como redutores de riscos e de impactos sobre o ambiente seria uma força adaptativa importante para a atuação destas empresas.

As atuações dos três entes não é novidade no campo da Gestão Ambiental ou dos estudos sobre as estratégias das empresas, ou mesmo na teoria de sistemas. As pressões adaptativas são necessárias para gerar coevolução, ecossistemas mais complexos e mais resilientes.

Os autores terminam o artigo propondo quatro temas para estudos mais aprofundados sobre o tema:

  1. Há diferenças na emergência de Ecossistemas industriais baseados no background institucional dos países? Ou seja, em países com mais regulação ou menos regulação, como evolui a Simbiose Industrial?
  2. Quais os custos associados à formação das redes de Simbiose Industrial e às negociações entre o fornecedor e o comprador dos materiais e energia?
  3. As redes de Simbiose Industrial são mais ou menos resilientes dependendo do número de conexões entre seus componentes?
  4. As empresas com sistemas de gestão ambiental mais eficientes e que adotam a produção mais limpa tem mais disposição a formar Simbiose Industrial?

Uma avaliação do conceito adotado de Simbiose Industrial para o caso brasileiro lembra uma empresa recentemente constituída no DF que utiliza a cama de frango e o NPK para gerar fertilizante, a OrganoGran.

A empresa atua como gestora de sinergia: aproveita resíduos de uma atividade industrial (segundo Georgescu-Roegen a atividade do agronegócio há muito pode ser considerada industrial, i.e., a transformação de insumos produtivos em outros insumos para cadeias produtivas), beneficia e diminui o impacto ambiental e o risco ambiental, transformando em novos produtos utilizáveis em outras cadeias produtivas.

A pressão de mercado para a sustentabilidade, bem como as exigências dos consumidores e investidores, possibilitaram o surgimento da iniciativa, bem como o empreendedorismo dos gestores.

A mentalidade empreendedora somada à necessidade de diferenciação de produto foram as principais pressões adaptativas recebidas pela empresa. Além disso, a possibilidade de preencher uma falha de mercado, i.e., a agregação de valor a um resíduo e reinserção em cadeias de valor, funciona como atrativo para a diferenciação.

Os complexos ecoindustriais, ou simbioses industriais, seriam o futuro da atividade industrial, considerando a tipologia proposta pelos autores para a gestão de resíduos e emissões? Creio que é bem possível.

Para mais conhecimento sobre o tema, sugiro o link do artigo completo, bem como o que já foi publicado no blog sobre Ecossistemas Industriais, Simbiose Industrial, dentre outros.

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jiec.12398/abstract

 

State of Green Business 2017

O pessoal da GreenBiz acaba de lançar a décima edição do relatório State of Green Business, versão 2017.

A proposta da instituição é influenciar a transição de uma economia linear para os preceitos da economia circular, onde se aumenta a eficiência no uso de energia, com redução de custos e investimentos em energias renováveis, reduz-se a geração de resíduos com a melhoria no design e tecnologias relacionadas aos novos materiais e aproveitam-se as oportunidades de negócios relacionadas à nova economia, especialmente às relacionadas aos investimentos financeiros.

O relatório é dividido em duas partes: As tendências em sustentabilidade e negócios e os indicadores de desempenho de empresas no tema, especialmente das empresas dos EUA em comparação com o mundo.

O CEO da Trucost, Dr. Richard Mattison, identifica como pressão adaptativa forte o acordo de Paris, assinado em 2016, como impulsionador de práticas relacionadas à redução das emissões de carbono pelas empresas. Além disso, trata como inevitável a incorporação do custo do consumo de capital natural e poluição aos custos de produção, que promoverá uma forte readequação da análise da viabilidade econômico-financeira de empresas e da atratividade destas aos investidores institucionais à busca de negócios com risco-retorno adequado.

O estudo apresenta dez tendências globais para sustentabilidade e negócios com possibilidades reais de alterar o ambiente de negócios.

  1. O uso de redes tecnológicas e de pessoas para monitorar o estado do ambiente e aumentar a capacidade de rastreabilidade e certificação de origem de produtos, aliando a indústria da TI à necessidade de verificar a conformidade socioambiental de produtos e aumentar a eficiência no uso de recursos naturais na produção.
  2. A adoção de novos materiais na produção, cumprindo os objetivos de DfE (Design for Environment) e economia circular, com menor emissão de carbono por unidade produzida e maior reaproveitamento ao final do ciclo de vida do produto.
  3. Os objetivos do desenvolvimento sustentável entram na estratégia das grandes empresas, puxadas principalmente por grandes empresas gestoras de grandes cadeias de suprimento e fornecedores.
  4. Os investimentos em infraestrutura para prover de água e saneamento as sociedades e empresas terão incremento, além de inovações relacionadas ao uso destes recursos. O risco hídrico será incorporado ao cálculo do custo do consumo do capital natural, fomentando novas maneiras de reaproveitamento e iniciativas para recuperar as áreas produtoras de água. Minha aposta: A emergência da Economia da Recuperação Ecológica como solução para tais problemas.
  5. O uso de energia limpa pelas grandes empresas alterando o perfil de produção de energia dos países, por meio da autogeração e disponibilização para a sociedade dos excedentes gerados. Empresas com grandes redes e grandes espaços para geração terão vantagem.
  6. O desempenho ambiental das empresas estará cada vez mais sujeito ao escrutínio público e à verificação de conformidade e veracidade de informações, alterando também o comportamento dos investidores institucionais. A real disposição das empresas em avançar em seus sistemas de gestão socioambiental será avaliada e premiada, inclusive no que tange aos investimentos e desinvestimentos em empresas com alta intensidade de carbono.
  7. As pressões sobre as cadeias de suprimentos com relação aos seus indicadores ambientais e práticas sustentáveis aumentarão, muito em função das grandes empresas e seu poder de negociação frente a estes fornecedores. Neste ponto, a existência de crédito acessível para modernização produtiva com base em sustentabilidade será crucial e um modo de diferenciação da atividade financeira.
  8. A mobilidade urbana ultrapassará o conceito da posse do objeto, concentrando nos novos modelos de logística e impulsionando as novas tecnologias para produção de combustíveis ou fontes de energia alternativas.
  9. A difusão das tecnologias da informação permitirão a reação ainda mais imediata a eventos críticos, bem como a fiscalização e monitoramento ainda mais eficiente.
  10. A transformação da resiliência em estratégia de sustentabilidade refere-se à capacidade das instituições, cidades e empresas em adaptar-se às incertezas causadas por problemas relacionadas aos problemas ambientais, especialmente em relação às mudanças climáticas.

Estas dez tendências já estão em curso, acontecendo, e ao que parece resistirão inclusive aos líderes populistas, visto que a manutenção do capital natural (i.e. o estoque limitado de recursos naturais dos quais as pessoas e negócios dependem para o bem estar, prosperidade e segurança), que inclui ar e água, terra, solo, biodiversidade e recursos geológicos, independe da ideologia.

A segunda parte do relatório é muito interessante também. Refere-se aos indicadores objetivos de que a sustentabilidade e os negócios serão indissociáveis. Analisam quatro principais grandes temas:

  1. Ambiente de negócios, onde o custo do capital natural para as empresas tende a aumentar quando o gerenciamento é inadequado. Este gerenciamento inclui a extração de recursos não renováveis, as perdas de eficiência no processo, a poluição e os impactos dos resíduos não contabilizados nos custos de produção.
  2. Investimento em modelos de negócios mais verdes, com a consequente escolha por projetos com a sustentabilidade entrando na fase do design e o desinvestimento em empresas cujos modelos de negócios estejam calcados em produtos com alta emissão de carbono. Um exemplo para os bancos são a emissão de green bonds para financiamento de projetos sustentáveis ou o acesso a funding mais barato para irrigar linhas de crédito sustentáveis.
  3. Desempenho corporativo avaliado por indicadores claros referentes à atividade da empresa, com incorporação de poluição da água, emissão de gases de efeito estufa, poluição por pesticidas ou uso excesso de fertilizantes, com uma maior transparência sujeita a avaliação por investidores institucionais.
  4. Liderança corporativa significa liderar o movimento de produção mais limpa, com incorporação de tecnologias inovadoras. Os gráficos mostram que 6 em 10 empresas americanas já consideram o tema em suas estratégias.

Conclusão

O relatório apresenta direcionamentos interessantes para quem trabalha em sustentabilidade corporativa. Eu indicaria as várias pressões adaptativas que serão geradas como cruciais na avaliação de qualquer estratégia.

Riscos climáticos, risco hídrico, avaliações por entidades independentes, emissão de green bonds para financiar projetos sustentáveis, o uso de tecnologias ainda mais intenso para promover eficiência. Estas são tendências já acontecendo e servirão de padrão para comparação para investidores institucionais. As novas metas para desenvolvimento sustentável, 17 ao todo, serão incorporadas às atividades das empresas.

Sob o ponto de vista das empresas de finanças, o desafio é transformar o risco socioambiental em negócio e premiar de forma diferenciada aqueles projetos que incorporam o custo do consumo indiscriminado do capital natural e que evitam a degradação causada pelos processos produtivos.

Este futuro está chegando rapidamente e cabe a nós aproveitarmos tais oportunidades.

 

 

 

Sustentabilidade em sistemas produtivos – Pesca

Os desafios de implementação da sustentabilidade nos sistemas produtivos são gigantescos. Considerando que teremos aproximadamente 9,5 bilhões de pessoas em 2050, como conciliar os resultados de segurança alimentar, saúde de ecossistemas e bem estar social com as pressões sobre estes sistemas?

O conceito de economia verde pode sinalizar este caminho: enfrentar os desafios da degradação ambiental acelerada, a segurança dos recursos naturais, com a geração de empregos e manutenção da competitividade parece uma equação sem solução. Enfatizar o desenvolvimento econômico com eficiência no uso de recursos, dentro de limites ambientais e equidade, com resultados econômicos, sociais e ambientais exigirão um esforço institucional considerável.

No caso estudado pela União Europeia em relação à pesca são citados diversas iniciativas em gestão ambiental pública e privada para o estabelecimento de uma pesca sustentável, em quatro áreas diferentes:

  1. Conhecimento e inovação 
  2. Mercados e comércio 
  3. Atores e sociedade
  4. Governança e investimentos

O conhecimento e inovação refere-se à necessidade de produzir conhecimento relevante para influenciar a tomada de decisão pelo ente regulador, criar uma cultura de consumo sustentável e gerir de forma mais eficiente os recursos pesqueiros globais, sejam o de pesca extrativa e o de aquicultura.

A regulação dos mercados e comércio refere-se à necessidade de premiar os produtores sustentáveis, incrementar o uso de certificações para produtos baseadas em informações científicas relevantes sobre os estoques existentes para explora-los dentro da capacidade ecológica de suporte e promover o comportamento de consumo consciente.

A ação sobre os atores e a sociedade demanda que mais informação flua dentre os componentes em processo de aprendizagem contínua e em processo adaptativo, ou seja, considerando as flutuações nos estoques pesqueiros, o equilíbrio dinâmico aos quais os sistemas ecológicos estão submetidos e as consequências da gestão destes processos adaptativos para que a sociedade tome decisões informadas e relevantes, que não a levem ao colapso de recursos.

A governança e investimentos refere-se à necessidade de utilizar metas factíveis e respaldadas na realidade e na ciência para estabelecer limites. Os responsáveis pelo design de políticas devem estar capacitados para decidir sobre metas e entender a importância de tais decisões, mesmo que afetem interesses locais estabelecidos. E os investimentos necessitam ser direcionados para a recuperação das condições ecossistêmicas que asseguram a perenidade da produção.

É importante destacar que o trabalho considera crucial a rastreabilidade do produto pelos grandes varejistas e seus fornecedores, numa lógica de Life cycle thinking conjugada com a de sustentabilidade na cadeia de fornecimento (que lembra a lógica das ilhas ou clusters de sustentabilidade publicadas há duas semanas). Neste movimento é importante que o consumidor também se informe de forma qualificada sobre como o alimento chega à sua mesa.

Outras considerações, no entanto, precisam entrar nesta equação. Há uma deterioração progressiva das zonas costeiras em função da poluição industrial, dos nutrientes lixiviados pela produção agricola e pelos esgotos domésticos que afetam diretamente os ecossistemas marinhos e de água doce.

Alguns futurólogos estimam que os oceanos morrerão até 2050, perdendo sua capacidade produtiva em virtude da desconexão entre as necessidades ecológicas e necessidades econômicas e sociais, causada pelos danos irreversíveis, de larga escala e persistentes.

Consideradas as tendências realmente observadas de mudanças climáticas, as necessidades de planejamento e implementação de projetos de saneamento ambiental e o incipiente investimento em infraestrutura verde, é de preocupar-se com o tipo de cenário que aparece no futuro para os mares e oceanos, bem como para a gestão de recursos hídricos, que afeta diretamente a produção de recursos pesqueiros.

Apesar do trabalho de alta qualidade e propositivo da união europeia, entendo que não se deve desprezar o potencial do ser humano em tomar decisões que privilegiam o curto prazo e que muitas vezes as evidências científicas claras ficam submetidas às agendas políticas não tão claras e de horizonte temporal restrito.

Necessita-se de maior celeridade em transferir tecnologia e conhecimento, em qualificar os decisores públicos e em enfrentar por vezes grupos com forte influência política cujos interesses de curto prazo tendem a inviabilizar as possibilidades de sucesso no médio e longo prazo, como costuma ser o caso em questões ambientais críticas.

É necessário mais do que urgentemente que reconheçamos e utilizemos o conceito de sistema econômico como subconjunto do sistema ecológico, promovendo a necessária visão dos limites do sistema ecológico como fonte e sumidouro aos limites da produção. O trabalho sobre a pesca demonstra esta visão.

Transições sustentáveis

Um novo relatório publicado pela Agência Ambiental Europeia denominado “Sustainable Transitions: Now for the long term” aponta tecnologias que já estão sendo implementadas na União Europeia com potencial para promover uma alta qualidade de vida com menor impacto ambiental.

Trazendo de volta a identidade IPAT para a análise, o impacto ambiental de determinado estilo de vida é proporcional à afluência, à população e às tecnologias utilizadas para produção. Deste modo, altos padrões de vida dos países da Europa estão relacionados à maior pegada ecológica.

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Outro conceito importante que permeia o trabalho é dependência dos sistemas sociais, incluindo os processos econômicos, da integridade e resiliência dos ecossistemas para assegurar a continuidade das relações.

Este conceito vem da Economia Ecológica, bem como o de bem-estar dentro dos limites dos Ecossistemas, o que remete diretamente aos conceitos de capacidade de suporte trabalhados na ciência ecológica.

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As iniciativas exemplificadas no relatório referem-se à necessidade de uma transição acelerada dos processos produtivos menos eficientes sob o ponto de vista ambiental para os processos mais eficientes.

O primeiro refere-se à iniciativa Zero-Gachis, onde uma rede de supermercados na Europa que está se organizando para reduzir a quantidade de alimentos perdida por ano.

A segunda iniciativa apresentada é o avião movido a energia solar. Os transportes representam uma grande parte das emissões globais de gases de efeito estufa e a utilização de fontes de energia renováveis para promover a mobilidade tem efeitos sinergísticos na redução de emissões totais.

A terceira iniciativa é a transformação de terrenos urbanos sem utilidade em áreas agricultáveis voluntariamente e exemplificada pela Princes Gardens.

A quarta iniciativa refere-se às empresas que recuperam móveis e promovem sua reinserção nos espaços. Deste modo elimina-se a necessidade de compra de novos produtos e obedece-se à hierarquia do uso de materiais para conservar valor e reduzir perdas de energia, conforme disposto na figura 2.6.

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A quinta iniciativa é a criação de uma pressão adaptativa para mover a indústria automobilística para padrões de uso de combustíveis mais eficiente. O uso das políticas públicas para gerar mais eficiência é uma ação já conhecida e que tem sido responsável por criar automóveis mais eficientes e menos poluentes.

A sexta iniciativa é utilizar o poder de compra dos consumidores para induzir cadeias produtivas mais sustentáveis em escala global. As certificações ambientais, ou socioambientais, asseguram que o consumo dos indivíduos também funciona como pressão adaptativa sobre processos produtivos não locais, exigindo maior valor agregado dos produtos.

A sétima iniciativa é catalisar a mudança das fontes de energia para veículos, movendo dos fósseis para a energia elétrica. Tem sido política adotada por diversos países europeus comprometer-se com a eliminação de veículos movidos por combustíveis fósseis, promovendo mais eficiência por quilômetro rodado.

A oitava iniciativa citada é a construção de redes de produtores orgânicos locais que entregam seus produtos diretamente ao consumidor, sem necessidade do ponto de venda. Esta iniciativa fomenta a produção orgânica e aproxima as ofertas locais de alimentos aos consumidores.

A nona iniciativa refere-se à constituição de municípios carbono-neutros, onde por meio do planejamento público integrado incorpora-se como premissa a neutralização das emissões de gases de efeito estufa nas localidades. É uma iniciativa que tem ganho adeptos em municípios em todo o mundo, inclusive nos EUA.viver-bem-dentro-dos-limites-ambientais

Todas estas iniciativas pretendem ter como resultado a alta qualidade de vida integrada aos limites ambientais mais do que explícitos. Como se pode perceber, vários dos atores sociais (governos, consumidores e empresas) podem funcionar como geradores de pressão adaptativa sobre processos produtivos, gerando as transições necessárias para um mundo sustentável, dentro dos limites ecossistêmicos.

Estas iniciativas são catalisadoras de mudanças e geradoras de inovação, onde os processos produtivos sustentáveis emergem como geradores de empregos e renda para as mais diversas camadas da sociedade, gerando também capital social e recuperando capital natural.

Muito importante também são as premissas de onde partem: O ponto de partida das iniciativas é a Economia Ecológica, onde os diversos sistemas sociais dependem fundamentalmente do sistema Ecológico. Vemos elementos também da Ecologia Industrial, quando na figura 3.4 aparecem vários critérios de avaliação de impacto sobre o meio ambiente que extrapolam as mudanças climáticas. Cada um destes critérios apresenta limites que devem ser respeitados para afastar o risco de disrupção dos ecossistemas, visando avançar-se em direção a uma sociedade inclusiva, de alto capital social, com capital natural preservado, voltada para o desenvolvimento sustentável.

Nunca é demais lembrar que dentre os grandes desafios da humanidade estão a de produzir uma economia sustentável, inclusiva e de baixo carbono, respeitando os direitos humanos e promovendo oportunidades. As oportunidades podem estar ligadas à Economia da Recuperação Ambiental.

 

A lógica das ilhas

O conceito de autarquia refere-se à capacidade de ser auto-suficiente no uso de recursos.

Em texto publicado na edição de novembro do Journal of Industrial Ecology, a análise de dois tipos de autarquia aborda a diferença de ocupação territorial e uso de recursos naturais por populações humanas e os resultados do uso de cada tipo de estratégia.

A proposta do artigo é exemplificar como ocorre a diferenciação e o que lições podem ser aproveitadas para uma dinâmica de ocupação territorial relacionada às atividades econômicas.

O primeiro tipo é o chamado self-consuming e foi adotada na ilha de Mangaia. Este tipo de autarquia utiliza os recursos disponíveis até a depleção dos estoques, com a resultante de colapso. A abordagem self-preserving foi adotada em Tikopia e utiliza os recursos na medida de sua capacidade de regeneração/suporte.

O artigo sustenta que há um ponto de inflexão na história da ilha de Tikopia, que seguia a trajetória de desenvolvimento de Mangaia, quando sua população passou de uma autarquia self-consuming para uma autarquia self-preserving, com base na mudança institucional e cultural. Esta mudança é radical, com incorporação de novas formas de produção mais voltadas para as culturas permanentes e limites para o tamanho da população, em consonância com a já descrita identidade IPAT (impacto diretamente proporcional à população, afluência e tecnologia usada para produzir).

Não é possível, no entanto, extrapolar os resultados encontrados nas ilhas estudadas para sistemas em continentes. No entanto, o conceito de autarquia self-consuming é semelhante ao que temos produzido com relação à depleção de recursos além da capacidade de regeneração e à degradação de ecossistemas em velocidade acelerada para incorporação na economia tradicional.

A passagem para uma autarquia self-preserving envolve fundamentalmente a mesma mudança proposta por Allenby (Industrial Ecology, Principles and Aplications) e até Georgescu-Roegen (The Entropy Law and the Economic Process) para os processos econômicos. Incorporar a visão do sistema Econômico como subsistema do Ecológico, de cujos limites como fonte e sumidouro depende a capacidade de suporte deste sistema.

A organização espacial dos sistemas produtivos, segundo a autarquia self-preserving apresentada pelo autor, envolve a decomposição dos sistemas em unidades funcionais menores, favorecendo uma diferenciação no ecossistema produtivo a partir de uma pressão adaptativa causada pelo aumento da percepção da escassez ecológica.

Esta diferenciação, ressalta o autor, não segue a lógica de melhorias incrementais, mas sim um incentivo suficientemente forte para a inovação e o desenvolvimento de soluções locais baseadas no conceito de economia circular, quebrando a trajetória tradicional de desenvolvimento implantada, com cultura e instituições próprias.

Esta lógica de autarquia, ou ilhas de produção com trajetórias próprias de desenvolvimento, considerando os limites locais para adaptação do que se produz, funciona para a ilha de Tikopia, mas implica em restrição da absorção de outros materiais de fora dos limites da Ilha, ou a redução do comércio com outras ilhas.

Na minha opinião, no entanto, apesar da lógica de autarquia self-preserving servir para a mudança necessária da visão econômica para uma visão de limites e capacidade de suporte, esta mudança necessitaria esta redução do comércio global, segundo o autor. Observando o poder de negociação das nações mais industrializadas e a dependência que elas demonstram de recursos de fora de suas “ilhas de produção”, não consideraria esta possibilidade como uma tendência observável no curto, médio ou longo prazo ou sequer emite um sinal fraco de que seria um tema emergente a ser considerado.
Qual a solução? O investimento chinês nos complexos ecoindustriais, sob o ponto de vista da evolução dos sistemas, faz todo o sentido. Do modo que vem sendo feito, penso eu, o desenvolvimento das ilhas com autarquias self-preserving obedece então à uma escala local de consumo de materiais, extraídos localmente ou não, a partir das demandas globais de consumo.
Para que estas demandas globais resultem em sustentabilidade e menores impactos sob o conceito desejável de self-preserving, no entanto, ainda há que se acelerar a incorporação do conceito de economia circular para a adaptação dos processos produtivos aos limites ecossistêmicos presentes em todo e qualquer local.Esta adaptação necessita daquela mudança institucional e cultural citada no quarto parágrafo e de uma revolução no modo pelo qual consideramos nossos processos produtivos no presente. A utilização das fontes de recursos de forma proporcional à sua capacidade de regeneração e a utilização dos sumidouros de forma proporcional à sua capacidade de suporte.É um desafio tremendo.

 

 

Artigo publicado na edição de agosto do Journal of Industrial Ecology analisa um novo modelo de negócios para estimular a formação de simbiose industrial/complexos ecoindustriais.

O conceito trabalhado no artigo é o de desenvolver uma empresa específica para gerir os serviços de sinergia industrial, agindo como um catalisador dos movimentos de simbiose industrial/complexos ecoindustriais, visando acelerar o desenvolvimento de parques ecoindustriais tipo III, segundo a tipologia de Allenby.

Esta estrutura seria necessária em virtude da barreira da viabilidade econômico-financeira que a formação dos complexos ecoindustriais precisa atravessar para tornarem-se viáveis. Os autores Ioannis Siskos e Luk N. Van Wassenhove demonstram que as maiores barreiras para o desenvolvimento de Parques Ecoindustriais são a determinação de seus benefícios financeiros e econômicos.

O modelo proposto para ultrapassar a barreira da viabilidade é denominado SMSCO – Synergy Management Services Company, onde o risco financeiro das empresas que participam dos parques ecoindustriais é assumido pela estrutura, que compromete-se à  à semelhança de estruturas propostas pelo Banco Mundial para viabilizar projetos com viabilidade comprometida.

JIE

Fonte: Siskos, I e Van Wassenhove, L. Synergy Management Services Companies: A New Business Model for Industrial Park Operators. Journal of Industrial Ecology, 2016

 

A SMSCO atuaria na identificação de necessidades técnicas e financeiras para a evolução do complexo ecoindustrial, viabilizaria a captação de recursos para aplicação em investimentos necessários para promover a circularidade material e as chamadas sinergias entre as empresas e remuneraria os investidores a partir dos ganhos gerados pela eficiência da produção dos componentes daquele complexo ecoindustrial.

A viabilização econômico-financeira da evolução dos complexos ecoindustriais pode gerar maior atratividade para investimentos, especialmente se houver a aproximação entre a valoração das externalidades ambientais negativas e positivas relacionadas às atividades industriais e também aumento da pressão da sociedade e estado sobre os impactos ambientais das atividades econômicas.

A Agência Ambiental Europeia (AAE) produz relatórios de gestão ambiental pública e privada de alta qualidade. Isso não é novidade, como podemos atestar neste link. O relatório n. 10/2016 trata da análise das iniciativas dos países-membros em eficiência no uso de recursos materiais.

O conceito que baliza a eficiência do uso de recursos materiais é o de Ecoeficiência: Produzir maior retorno econômico reduzindo o impacto ambiental das atividades econômicas e o desperdício de recursos, aumentar o reuso e a reciclagem e reduzir a pressão sobre os recursos naturais não renováveis.

A proposta do relatório é a de levantar informações sobre as políticas adotadas em eficiência no uso de recursos nos países e colocar os países da UE no caminho para uma economia circular.

Uma Economia Circular envolve conceitos de Ecologia Industrial, quando se planeja o desenvolvimento de produtos ecoeficientes desde o nascimento do conceito, com as premissas da reciclabilidade e do design para o ambiente (DfE), até a proposta de aproveitamento e reaproveitamento total de resíduos. Adicionalmente pode-se citar a proposta de desenvolvimento de complexos eco-industriais com resíduo zero, com integração da produção entre indústrias e redução de perdas de energia e materiais em processos.

As principais evidências de que as políticas da União Europeia estão desenvolvendo-se em direção à Economia Circular são as seguintes:

a. Institucionalização da questão, com a destinação de recursos humanos, técnicos e financeiros para tratar do tema nos Estados;

b. Integração de políticas de energia, materiais e resíduos;

c. Percepção da necessidade de focar em iniciativas de Ecodesign (DfE), novos modelos de negócios, ações sobre o comportamento do consumidor e incentivos para desenvolvimento científico.

A adoção dos conceitos de Ecologia Industrial  nas políticas da AAE demonstra que o pensamento científico subjacente à área de pesquisa entrou na ordem do dia nas políticas da União Europeia, transformando-se em estratégias e planos de ação tendo por meta induzir a circularidade dos processos econômicos. Estes conceitos passam a ser importantes para cidadãos, empresas e governos e viram parâmetros para avaliação da efetividade das ações propostas pelos países.

A adoção de metas concretas para mensurar a efetividade das ações em eficiência no uso de materiais, no entanto, ainda é um desafio reconhecido pela AAE, visto que os estados estão em diferentes estágios de evolução da política de gestão de recursos. Reconhece-se que o incremento da troca de experiências resulta em evolução mais rápida das políticas adotadas nos estados-membros.

Livro “Energy and the Financial System”

Uma leitura bastante interessante sobre o cenário da produção de energia atual e os futuros desenvolvimentos e tendências foram apresentados no livro  “Energy and the Financial System – What every economist, financial analyst, and investor needs to know”. Comprei-o durante a Conferência Internacional para Economia Ecológica e o autor apresenta questões lógicas e interessantes para que se pense o futuro e suas consequências, no que diz respeito às finanças, sustentabilidade e energia.

O principal conceito trabalhado pelo autor Roger Boyd, que trabalhou no mercado financeiro durante anos, é que nossa civilização é viciada em energias fósseis e que este vício nos levou a uma situação que os norte-americanos chamam catch-22. Não temos hoje e, considerando o conhecimento atual e os cenários traçados pelos autor, não haverá alternativas viáveis, com as características dos combustíveis fósseis, levando a uma inevitável situação onde a sociedade terá de abrir mão de certas comodidades que são dadas por certas.

Ele trabalha o conceito de EROI – Energy Return on Investment, calculada a partir da energia necessária para produzir mais energia. Segundo sua análise, os mais viáveis e com maior retorno para investidores são os combustíveis fósseis, porém, com a depleção dos recursos mais baratos para extração, o EROI tem diminuído cada vez mais para os recursos não-renováveis, posicionando os renováveis, usualmente necessitando de maior investimento para desenvolvimento, como viáveis em comparação com os primeiros.

A fórmula (simplificada) para cálculo do EROI seria a energia produzida dividida pela energia gasta para produzi-la. Entram no cálculo, no entanto, os limites biofísicos para emissão de gases de efeito estufa e sua relação com a disponibilidade e custo de extração de combustíveis fósseis, especialmente o petróleo, carvão e gás natural. A medida em que tais limites se aproximam, o custo e o risco para a sociedade tornam-se cada vez maiores, com impactos sobre todo o sistema financeiro. Este texto pode ser considerado uma pedra fundamental da análise sobre a energia e o sistema financeiro.

O EROI lembra o cálculo realizado para analisar a depleção de estoques pesqueiros, bem como o esforço de pesca, que é uma função da quantidade de combustível fóssil utilizada para obter uma quantidade x de pescado, e que aponta o nível de comprometimento ecológico dos estoques de pesca, causados pela atividade em níveis superiores à capacidade de suporte e da recuperação ecológica destes estoques.

Nosso sistema de produção, consumo e descarte depende do petróleo, carvão e gás natural para funcionar. Estes três componentes geram 96% da energia global consumida. Deste sistema também dependemos da capacidade das empresas em gerar retornos crescentes e contínuos para pagar impostos para governos, gerar retornos para aposentadorias, gerar títulos e investimentos em empresas privadas, apesar dos limites claros e evidentes de que a extração indefinida de materiais, conjugada ao descarte de resíduos, poderá comprometer a capacidade deste planeta de nos sustentar.

Qual a novidade da abordagem? O livro apresenta evidências, fatos, números. É fato a sobrepesca, são fatos as zonas mortas nos encontros de rios com o mar, são fatos o descarte inadequado de resíduos, as externalidades geradas por qualquer tipo de geração de energia e que os substitutos para os modos tradicionais de geração fóssil não apresentam as mesmas eficiências e precisam ser intensivas em capital.

Não se trata de ser neomalthusiano aplicado à perspectiva energética. Há limites biofísicos e ecológicos que se contrapõe diretamente aos objetivos econômicos, sem que um ponto de equilíbrio seja encontrado. Cerca de 2,2 bilhões de pessoas na Índia e China serão incorporadas à sociedade do consumo. Uma economia circular torna-se um imperativo, porém mesmo a reciclagem de elementos encontra um limite técnico de qualidade.

A grande conclusão do livro é alertar que em médio e longo prazo seremos obrigados a refazer os cálculos econômicos sobre os quais nossa sociedade se assenta. Os retornos serão ainda mais decrescentes, a energia não será completamente renovável e é bem possível que enfrentemos diversos colapsos em nossos modos de produção para os quais nossa espécie não está preparada, especialmente aquelas mais viciadas em energia.

Sugiro a leitura. O autor apresenta um risco considerável que, confirmado, nos deixará com tarefas árduas e crises sociais relacionadas ao acesso e gestão de recursos naturais e perda possível de processos ecológicos que sustentam a humanidade.