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Viagem de mergulhos e a degradação nossa de cada dia

Callum Roberts, Biólogo da Universidade de York, Inglaterra, escreveu vários livros importantes sobre conservação dos oceanos, com uma extensa pesquisa bibliográfica baseada em registros históricos de abundância da fauna e flora marinhas e como nós temos nos acostumado a olhar a degradação e estabelecer o vazio dos mares como o novo normal.
Dentre os livros que tenho dele destaco dois: “The Unnatural History of Sea” e “The Ocean of Life: The fate of man and the sea”. Nestes livros ele constrói uma tese interessante, baseada em registros historiográficos, de que há um rebaixamento do sarrafo em termos de necessidades de conservação e de que, seguindo na trajetória demonstrada pelas tendências de exploração de recursos pesqueiros e do aparecimento de zonas mortas, os oceanos decididamente entrarão numa fase de extinção de biodiversidade.
Dentre os impactos apontados por Callum Roberts nas duas obras destacaria a sobrepesca, avançando sobre espécies com reprodução lenta e espécies importantes para a estabilidade dos ecossistemas, o lançamento de matéria orgânica em excesso nos oceanos, acima da capacidade de suporte e processamento desta matéria orgânica em biomassa, e a poluição por plásticos e demais rejeitos de fonte humana.

Mergulhos…

Há duas semanas e meia iniciei uma viagem para mergulhos no litoral de São Paulo, a partir de Santos, e Rio de Janeiro, subindo de Paraty a Buzios. Paramos em Santos, para mergulhar na Laje de Santos, Ilhabela, Alcatrazes, Paraty, Angra dos Reis e Ilha Grande, Arraial do Cabo, Cabo Frio e Buzios, por fim.
Na laje de Santos não foi possível mergulhar, em virtude das condições atmosféricas (ventos e correntes). Em Ilhabela observamos a degradação da vida marinha em mergulhos na Ilha das Cabras. Absolutamente nada de vida a ver. Praias sem condições de banho em virtude do lançamento de esgoto in natura nas águas do oceano.

Em Paraty, na Ilha dos Meros, não há meros, pois foram pescados, e por ser um peixe com ciclo de vida longo, cuja idade reprodutiva começa aos 40 anos, é um sério candidato a extinguir-se.
Em Angra dos Reis, especificamente Ilha Grande, alguns cavalos marinhos (dois), tartarugas pequenas e algas, corais e cnidários, peixes de pequeno porte. As áreas em São Paulo e Rio de Janeiro são Parques estaduais (caso de Ilhabela) e APA (caso de ilha Grande). Esperava mais em termos de vida marinha.
Após dois dias de intervalo de superfície no RJ, para ver Flamengo 2 x 1 Botafogo e Creed 2 com meu filho mais novo, mais mergulhos. Chegamos em Arraial do Cabo, onde as águas estavam absolutamente contaminadas por esgotos e sujeira. Apesar de mergulhos em águas protegidas, uma pobreza de vida marinha. Não posso afirmar que sempre foi assim, mas foi preocupante… e a cidade intitula-se “Capital Brasileira do Mergulho”, necessita de um plano de ação mais efetivo para não matar o ecoturismo que gera muitos empregos e renda para o município.
Em Cabo Frio mergulhamos em pontos bastante preservados, com algas, poríferos, cnidários, equinodermos, cardumes de peixes pequenos e tartarugas verdes (e de pente). No entanto, presenciamos pesca em período de defeso. Em Buzios os relatos foram de tartarugas marinhas, mas em pontos que necessitam de longa navegação.
Ao visualizar de forma tão efetiva o que Callum Roberts destacou em suas teses defendidas nos livros citados, precisamos efetivamente definir o que queremos de uma economia da conservação e mais, da recuperação ambiental.
Em diversos dos pontos citados podemos criar uma vibrante economia da conservação, mas antes precisamos recuperar o que foi perdido. Sob o ponto de vista econômico, há lógica em uma moratória de alguns anos na pesca, de estabelecer uma efetiva gestão ambiental para gerir resíduos e efluentes de empresas e indivíduos, bem como reduzir a quantidade de esgoto lançados em nossas praias.
Impossível não comparar o que foi visto neste curto espaço de tempo com as áreas conservadas do México (Baja California) e Equador (Galápagos). Tais áreas movimentam o turismo de conservação e geram muitas receitas para seus países e suas populações, que se engajam na preservação, num caso típico de feedback positivo para as políticas de conservação e gestão de patrimônio natural.
Adicionalmente, e não posso deixar de citar, é impossível não se emocionar com a beleza da nossa Mata Atlântica, nosso bioma mais dizimado ao longo da história, do qual restam apenas 3% do total, encontrando-se com o mar no entorno da rodovia Rio-Santos. É um patrimônio espetacular, que se bem gerido pode colocar o Brasil na rota do turismo de preservação.
É a economia da recuperação ambiental, preservação e conservação tomando forma e nós precisamos estar atentos para não perdemos esta oportunidade.

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Marcio Gama

O cérebro é nossa maior especialização e nos faz humanos e complexos, capazes de pensar e planejar o futuro.
Nos adaptamos a todos os ambientes conhecidos e aprendemos a utilizar os recursos para nossa sobrevivência. Nesta caminhada, aprendemos a nos adaptar.
Tentamos resolver os problemas que criamos e esta é a parte da nossa caminhada neste planeta, o único que temos.
Sou Biólogo, Mestre em Planejamento e Gestão Ambiental e Especialista em Gerenciamento de Projetos e as análises que faço aqui refletem a minha visão sobre o tema, balizada em artigos científicos e informações de fonte fidedigna e relevantes. Espero que curtam os textos.

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