O relatório “High and Dry: Climate Change, Water and the Economy” analisa os efeitos do crescimento da população, do incremento de renda e a expansão das cidades sobre a demanda por água em um ambiente onde os recursos hídricos estão cada vez mais escassos e com menor qualidade.

Water Scarcity

Fonte: Banco Mundial (2016)

A escassez da água se tornará ainda mais pronunciada considerando-se os impactos das mudanças climáticas e a alteração do ciclo hidrológico. Estimou-se que, continuando-se a considerar as tendências expostas no parágrafo 1, a escassez de água poderá causar perda de 6% do PIB nas regiões mais críticas do planeta em 2050, com impactos sobre a saúde pública, a produção de riqueza e a agricultura, alterando significativamente a capacidade de produção dos ecossistemas dos quais depende o sistema econômico para manter-se gerando retornos.

A insegurança hídrica causada pela mudança dos padrões atuais relativos ao ciclo hidrológico aumentaria o risco de conflitos, causaria o aumento no preço dos alimentos e estimular a migração, impactos observados quando há mudanças drásticas na disponibilidade de recursos.

De acordo com o relatório, a adoção de iniciativas em gestão de recursos hídricos promoveria uma redução do risco de estresse hídrico por meio de estratégias de adoção de tecnologias mais eficientes, adoção de incentivos econômicos para incremento do uso eficiente de água, investimentos em infraestrutura para suprimentos de água com maior qualidade e quantidade.

Tais estratégias devem estar bem relacionadas com a conservação de ecossistemas produtores de água e seriam iniciativas efetivas para diminuir o risco e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos dos quais depende a espécie humana.

O relatório completo é fundamental para profissionais interessados em gestão ambiental pública e privada. Na gestão ambiental pública, a capacidade dos gestores em elaborar os planos de recursos hídricos e os planos de investimento em longo prazo, com a identificação de necessidades de levantamento de recursos e as tarifas a serem cobradas da população é uma habilidade a ser desenvolvida e implementada. Planos relacionados à gestão de recursos hídricos e gestão ambiental não devem estar submetidos aos sabores das ideologias. É efetivamente uma questão de vida ou morte.

Na gestão ambiental privada, as empresas devem estar atentas ao aumento da eficiência produtiva da água que entra em seus processos. À medida que a escassez se torna norma, mais investimentos serão necessários para aumentar a ecoeficiência nos seus processos produtivos. Este aumento da eficiência implica diretamente no investimento em desenvolvimento de tecnologias, no investimento em novos produtos e na participação ativa  e qualificada nas instâncias reguladoras da oferta e demanda de água.

Nossa legislação de recursos hídricos, especialmente a Política Nacional de Recursos Hídricos, estabelece que os Comitês de Bacias, órgãos de planejamento com participação social e responsáveis pelo planejamento de longo prazo, são estruturados com participação do Estado, dos Cidadãos e das Empresas. Sua ação é dada pelas Agências de Águas, que arrecada e destina os recursos arrecadados pelos empreendimentos localizados na bacia hidrográfica aos usos definidos e priorizados nos planos de bacia.

Há muito espaço para avançarmos na Gestão de Recursos Hídricos e na eficiência do uso, considerando o cenário apontado pelo relatório do Banco Mundial. Tem que se avançar, no entanto, na plena implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos.

A possibilidade de juntar-se as metas definidas pelo Brasil na COP 21 (iNDC) de recuperação de áreas degradadas dialoga diretamente com a recuperação dos ecossistemas de suporte ao ciclo hidrológico, com o resultado de aumento de disponibilidade hídrica em quantidade e qualidade adequadas.

Esta possibilidade, no entanto, depende diretamente da participação ativa da sociedade na construção dos Planos de Recursos Hídricos e na implementação adequada da Política Nacional de Recursos Hídricos. Esta implementação depende da sensibilidade dos gestores públicos e dos incentivos à sociedade para adoção de maior eficiência e de uma evolução constante dos mecanismos de gestão ambiental pública e privada.

Economia Circular

A Economia Circular é um dos temas mais interessantes e inovadores que está sendo desenvolvido rapidamente. A ideia de tornar os processos produtivos mais circulares, com pouca ou nenhuma perda de material está movendo diversas inovações em várias áreas do pensamento.

O Fórum Econômico Mundial publicou esta semana uma série de vídeos (disponível aqui) que mostra como a ideia e as ações relativas à Economia Circular estão diretamente ligadas à qualidade ambiental, à gestão ambiental privada, à gestão ambiental pública e aos resultados econômicos e ambientais.

Adicionalmente, o Fórum tem todo um projeto dedicado ao tema (aqui). Lembre-se que o Fórum Econômico Mundial reúne anualmente os maiores líderes globais e que a presença de uma sessão específica para discussão do tema sinaliza fortemente que tipo de ações serão priorizadas no futuro.

Creio que num momento em que se discute como retomar o crescimento do Brasil e como se livrar das âncoras políticas que nos mantém discutindo temas da época da primeira revolução industrial, no século XIX, a utilização do conceito de Economia Circular como tema subjacente de qualquer discussão tem alto potencial de disrupção na sociedade brasileira.

Este tema deveria estar no centro da nossa atuação, fomentado em nossas escolas desde o ensino fundamental. Quem não estiver preparado para o século XXI e suas grandes novidades vai condenar seu futuro. Chega de discutir o século XIX. Evoluamos.

O blog da Universidade de Yale publicou hoje uma interessante análise sobre evidências de descarbonização da Economia Global (aqui). A descarbonização refere-se à produção de maior retorno econômico dos processos produtivos com a redução da emissão de carbono por unidade de retorno gerada. É um conceito que remete diretamente à Ecoeficiência e, por consequência, está ligado às áreas de estudo da Ecologia Industrial.

No artigo o autor analisa os dados da Economia Global com as emissões de carbono e atribui esta redução da intensidade de carbono à redução do consumo de carvão mineral, especialmente do maior emissor global, a geração de energia na China. Contribuiu para a redução das emissões a redução do ritmo de expansão das indústrias de cimento e aço, historicamente ligadas às emissões mais altas de gases de efeito estufa, em virtude da desaceleração da Economia chinesa.

O maior avanço observado foi a redução de 80% para 70% de uso de carbono na matriz energética daquele país, bem como com a expansão quase exponencial da produção de energias renováveis (eu destacaria também a implementação de complexos ecoindustriais, posicionando o país como gerador de inovação neste tópico em Ecologia Industrial).

No caso da descarbonização observada na Europa, atribui-se o fato ao deslocamento das indústrias intensivas em carbono para a China, o que contribuiu para o aumento da poluição das cidades, com a consequente necessidade de ação governamental para reduzir as emissões indesejáveis para a atmosfera e para as águas do país.

Dois fatores apontados como cruciais para a ocorrência deste fenômeno foram a redução do preço da geração de energias renováveis, estimuladas pelas tecnologias mais eficientes e pelas compras governamentais, bem como as restrições a serem colocadas pelos estados e pelo mercado à geração de energia com fontes não renováveis. O crescimento exponencial experimentado pela indústria da energia renovável veio para ficar.

Um ponto adicional, amplificado pelos dois fatores apontados, é a fuga de capitais observada por empresas com sua principal atuação em geração de energia não renovável, causando o que tem sido chamado de stranded assets , que representam um risco para a indústria de não renováveis como um todo.

O artigo enfatiza, no entanto, que para seguir este processo de descarbonização da Economia Global é necessário olhar para as emissões relacionadas aos transportes, especialmente à indústria de aviação e de navios, e para as emissões de metano, devido ao seu alto potencial de aquecimento global e à expansão de processos produtivos que causam emissões do gás.

Ainda assim, o problema da redução das emissões não estaria equacionado, visto que o passivo persiste como um problema a ser enfrentado. Estima-se que para manter o planeta com o impacto limitado ao aumento de 2º C e abaixo de 450 ppm não deveremos emitir mais do que 800 bilhões de toneladas, com as emissões chegando a zero em 2050.

Este é um cenário extremamente complicado em que a velocidade da transição da Economia deve apresentar uma aceleração acima do que a que foi vista até o momento, com políticas públicas ativas de fomento à compra de energia renovável e fomento da indústria da energia solar e eólica, bem como a geração descentralizada.Há espaço para avanços mais efetivos, porém tais avanços necessitam ganhar velocidade, tanto em relação ao fomento ativo de alternativas sustentáveis por meio de subsídios diretos ou a retirada de subsídios indiretos à produção de energias não renováveis, bem como a promoção mais intensa da transição da economia tradicional para a economia verde.

Os editores do site greenbiz.com publicam anualmente um relatório extremamente interessante sobre as tendências em sustentabilidade. Os autores apresentam 10 tendências obtidas do monitoramento sistemático de informações sobre o tema e quais impactos elas terão sobre as atividades econômicas.

As dez tendências citadas no trabalho são as seguintes:

  1. A consolidação do conceito de Economia Circular gerando novas tecnologias, processos e produtos
  2. A gestão tecnológica das cadeias de suprimento gerando cada vez mais eficiência no uso de recursos
  3. Infraestrutura Verde atraindo investimentos
  4. Indústria de mineração tornando-se mais limpa
  5. Agricultura promovendo a regeneração de sistemas naturais
  6. Reciclagem de carbono promovendo a redução de emissões de GEE
  7. Geração de empregos relacionados à sustentabilidade atraindo mais profissionais
  8. Microgeração apresentando um crescimento expressivo
  9. Economia do compartilhamento alcançando as empresas
  10. A chamada Economia Azul, relacionada à proteção e uso sustentável dos Oceanos, tornando-se cada vez mais importante para um planeta resiliente.

A análise das 10 tendências mostra uma tendência evolutiva resultante da pressão adaptativa exercida pela sociedade em suas mais diversas instâncias. E pressões adaptativas exigem respostas dos componentes dos ecossistemas, visando aproveitar-se dos “nutrientes” disponíveis.

Negociações internacionais, como a COP-21, pressionam os Estados Nacionais a assumirem responsabilidades, adotando medidas para reduzir suas emissões a partir de inventários nacionais de emissões.

Do mesmo modo, investidores institucionais globais e grandes investidores retiram investimentos de empresas cujos “core business” em energias não-renováveis podem comprometer a existência da sociedade como um todo e esta sociedade pressiona por soluções para maior qualidade ambiental e maior resiliência dos sistemas de suporte à vida.

Há um grande movimento se consolidando e o Brasil pode ser parte importante da solução.

 

Tendências para finanças sustentáveis

O relatório sobre Economia Verde da UNEP destaca a participação crucial do sistema financeiro em direcionar os processos econômicos em direção à sustentabilidade dos processos econômicos, por meio dos mecanismos econômico-financeiros que são suas especialidades.

Sem dúvida a captação, investimento e redução de riscos socioambientais tem papel crucial nesta mudança que necessita a sociedade e o florescimento de um mercado financeiro voltado para o financiamento da Economia Verde tem potencial de gerar feedbacks positivos nos processos econômicos e fomentar os projetos voltados para os processos sustentáveis.

A revista Environmental Finance, uma das fontes de informação mais confiáveis sobre Finanças e meio ambiente, apontou na sua edição de janeiro as tendências que se consolidaram em 2015 e sugere os possíveis cenários que acontecerão em 2016.

A consolidação dos compromissos de redução de emissões de gases de efeito estufa na Conferência de Paris, ocorrida no final de 2015, é uma força indutora poderosa para fomento da Economia Verde. Compromissos de países, entidades empresariais e sociedade civil tem potencial de transformar-se em ação.

O desinvestimento em empresas cuja atividade está focada exclusivamente na exploração de combustíveis fósseis começa a aparecer, especialmente em grandes investidores institucionais, tendo sido foco de análises neste blog.

Outros investidores calculando o risco do carbono das empresas e tornando este um critério de análise de atratividade para seus investimentos exigem um processo adaptativo das empresas também. A sinalização de que a incorporação do valor do carbono nos processos de produção pode alterar a atratividade das empresas seguramente exigirá um processo de adaptação da apuração do valor dos produtos. O impacto ambiental gerado pode inviabilizar determinadas cadeias produtivas.

As políticas de transparência relacionadas à informação sobre emissões tornado-se mandatórias e submetidas ao escrutínio público, as políticas públicas de países desenvolvidos privilegiando energias renováveis e atraindo recursos por meio de green bonds também tem potencial de fomentar inovação e eficiência, substituindo os tradicionais subsídios às energias sujas que atualmente existem e fomento as soluções locais, tais como a geração descentralizada de energia, que em última instância geram grandes impactos ambientais e privilegiam grandes obras.

Todo este cenário, com as tendências a serem confirmadas durante 2016, construirão um ambiente de negócios diferente para quem trabalha em finanças e sustentabilidade. Os desafios serão grandes em países como o nosso, cujos indicadores de atratividade estão ruins, consolidados no rating brasileiro em virtude da instabilidade econômica e da falta de liderança política.

No entanto, existem projetos privados altamente atrativos nas áreas que são foco de investimentos em Economia Verde. Temos saneamento ambiental (água, esgotos e resíduos sólidos), recuperação de áreas degradadas, energias renováveis e geração descentralizada, mobilidade urbana, retrofitting de edifícios urbanos e pesquisas e inovação que são atrativos para os investidores institucionais externos e internos, e com taxas de retorno atrativas podem representar uma chance de produzir crescimento.

Para isso precisamos também, no entanto, que os projetos sejam competitivos em relação à capacidade de geração de retornos e que atraia mais do que os juros altíssimos praticados pelo Estado. Isso torna difícil encontrar um ponto de equilíbrio de projetos em Economia Verde, nas áreas citadas no parágrafo anterior, que não implique em custo excessivo em tarifas que seriam cobradas da sociedade.

Portanto, para ser competitivo e efetuar a migração para uma Economia Verde, precisamos de processos mais racionais no que se refere às taxas de juros e taxas de retorno de projetos. A Economia Verde só se consolidará se for mais atrativa que o mais do mesmo. Para isso, os custos ambientais de projetos considerados não verdes devem ser incorporados às atividades para que a sociedade deva decidir como seus investimentos promoverão um maior crescimento econômico, com maior qualidade ambiental e maior equidade, premissas da economia verde.

 

 

A proposta de uma Economia Circular (EC) remete ao fechamento dos ciclos materiais de produção e consumo. A redução dos impactos ambientais dos processos econômicos a partir do incremento da reciclagem de materiais, da economia do compartilhamento, do reuso, do reparo e do ecodesign.

O conceito de Economia Circular encaixa-se no modelo mais amplo do conceito de Economia Verde no tocante à redução dos impactos ambientais relacionados aos processos de produção, consumo e descarte e à necessidade de tornar os processos mais eficientes.

O Relatório produzido pela Agência Ambiental Europeia, referência em gestão ambiental pública, sobre Economia Circular e os desafios para implementar iniciativas que promovam a transição de uma economia de extração – produção – consumo – descarte para uma com ciclos materiais fechados é um material crucial para interessados em Gestão Ambiental.

A figura abaixo demonstra os limites da abordagem da Ecologia Circular e sua interrelação com a Economia Verde, que aborda ainda os conceitos da resiliência dos ecossistemas de suporte e o bem-estar humano.

 

Sem Título

Fonte: Circular Economy in Europe (2016)

As características de uma EC são as seguintes:

  1. Redução do uso de recursos naturais
  2. Incremento no uso de materiais oriundos de reciclagem e reuso
  3. Redução de emissões
  4. Maior eficiência no uso de recursos com redução de perdas na produção e no descarte
  5. Geração de valor com redução ainda maior de fluxos de materiais

Obviamente, quaisquer objetivos ligados à redução de impactos ambientais não estão circunscritos à esfera regional, tendo em vista a interdependência da economia global, com seus fluxos de água, madeira, plantas, metais, minerais e energia.

A Europa está interligada aos grandes fluxos globais de materiais e a promoção da Economia Circular tem efeitos diretos sobre o comércio global, portanto, sendo sujeita à uma abordagem das várias partes interessadas de forma mais ampla, envolvendo governos, negócios, finanças, sociedade civil e cidadãos.

Esta abordagem passa necessariamente pela construção de novos modelos de negócios focados em serviços, consumo colaborativo, eco-inovação, melhoria da governança em sustentabilidade, redução dos subsídios às indústrias consideradas mais poluentes, criação ou utilização de mecanismos financeiros para fomento da EC, dentre outros.

O conceito de Economia Circular remete aos temas abordados em Ecologia industrial, visando reduzir os ciclos de materiais e tornar mais eficiente o uso de energia, demonstrando a propensão europeia em adotar políticas e práticas que podem servir de exemplo aos demais países.

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Fonte: Circular Economy in Europe (2016)

A proposição de uma economia circular é um conceito central da Ecologia Industrial, com a proposta de uma visão evolutiva em termos de produção, partindo de um sistema produtivo aberto sob o ponto de vista do consumo de materiais (com produção, distribuição, consumo e descarte) e energia para o conceito de sistema fechado (produção, distribuição, consumo, reciclagem, produção) sob o ponto de vista material, reduzindo o custo ambiental da extração de material virgem e utilizando materiais já disponíveis nos estoques já existentes.

A utilização do conceito de Economia Circular nos processos econômicos seria o ponto de partida para políticas eficientes de gestão de resíduos sólidos e integração com as políticas de recursos hídricos e de meio ambiente, com a utilização de mecanismos financeiros indutores de ações privadas em gestão ambiental avançada.

Além disso, possibilitaria a efetiva passagem dos mecanismos de comando e controle e conformidade para a transformação dos riscos ambientais associados à produção em oportunidades de ganho de eficiência.

Um dos movimentos mais interessantes em Ecologia Industrial, especialmente na temática dos Parques Ecoindustriais (EIP’s) e Simbiose Industrial (IS), tem acontecido na China.

Pressionados pelos crescentes impactos ambientais ocasionados pela industrialização maciça ocorrida nas últimas duas décadas, que puxou o crescimento global e posicionou a China como o parque industrial global, com seus ônus e bônus associados, o Departamento Ambiental Chinês investiu na abordagem de Parques Ecoindustriais, visando promover a Simbiose Industrial como forma de aumentar a eficiência produtiva e reduzir os impactos ambientais.

Um interessante artigo publicado no Journal of Industrial Ecology em dezembro de 2015 pelos pesquisadores Liu, Tian, Chen, Lu e Gao analisa o desenvolvimento dos EIP’s na China. Estes parques tem sido implementados por mais de uma década e o artigo apresenta uma métrica para analisar a ecoeficiência no desempenho destes arranjos produtivos.

Os EIP’s são compostos de indústrias com atividades complementares, onde os resíduos gerados em determinados processos produtivos podem ser utilizados como insumos em outros processos. No caso da China, a adoção da política surgiu a partir da pressão gerada pela deterioração das condições ambientais, que exigiu uma resposta adaptativa das instituições.

O país possui 1568 parques industriais, com os típicos problemas ambientais gerados pela concentração de indústrias.  A Agência de Proteção Ambiental da China iniciou o Programa Demonstrativo Nacional de Parques Ecoindustriais em 2001 e selecionou 85 regiões industriais para aplicar os conceitos relacionados à Ecologia Industrial.

Em 2006 foram estabelecidos os padrões para três tipos de EIP’s – Integrados, com diversas indústrias de características diferentes em mesmo espaço geográfico, Específicos, relacionados à concentração de indústrias com características semelhantes e os chamados Venosos, cuja característica principal é a recuperação de substâncias específicas de processos produtivos. Em 2007 iniciou-se a implementação, com 71 parques integrados, 13 específicos e 1 “venoso” (um nome melhor é necessário).

Dois aspectos positivos levantados pelos autores emergem do texto: A necessidade de integração de políticas e medidas para potencializar o efeito positivo dos EIPs e os benefícios relacionados às iniciativas, analisados por 26 indicadores de desempenho relacionados aos processo econômicos, eficiência no uso de recursos, controle de poluição e gestão ambiental.

A medição da Ecoeficiência dos EIP’s é conceituada como o valor agregado em função do impacto ambiental gerado. Os detalhes dos cálculos realizados para analisar o desempenho dos EIP’s podem ser encontrados no artigo original.

Destaque-se no artigo as iniciativas adotadas para melhoria do desempenho ambiental dos EIP’s. A produção mais limpa, os Sistemas de Gestão Ambiental, o compartilhamento de infraestrutura são pressões positivas para o estabelecimento da Simbiose Industrial. O artigo aponta para o fomento de ainda mais EIP’s na China, com a construção de uma plataforma de disseminação de experiências, com uma curva de aprendizagem acelerada pela disponibilização de informações. A análise do desempenho ambiental também auxilia a consolidar o conceito dos EIP’s e o que é esperado deste desempenho. A gestão dos resíduos será fomentada, tendo em vista que o incremento total de reciclagem de resíduos demonstra um processo mais eficiente de produção e fomenta, por sua vez, a pesquisa por inovações tecnológicas relacionadas à Ecologia Industrial, Economia Circular e EIP’s e IS.

Os pesquisadores concluem, com base nas análises realizadas, que de 2007 a 2010 houve incremento no desempenho ambiental de 89,4% dos EIP’s analisados, com a redução do consumo de recursos e da poluição gerada por valor agregado. Adicionalmente, demonstra-se que as indústrias incluíram a produção mais limpa, a gestão ambiental e o compartilhamento de estruturas produtivas (i.e. água e calor) para promover a Ecoeficiência.

É possível fazer mais com menos, a China tem demonstrado. É de se esperar que com o desenvolvimento ainda maior da política de estabelecimento de EIP’s o valor agregado seja incrementado em relação ao impacto ambiental e que em breve a China seja uma usina de soluções para a integração de parques industriais.

http://www.p22on.com.br/#sthash.Y6LRtMJ9.dpbs

O link acima apresenta o especial da Fundação Getúlio Vargas – Centro de Estudos em Sustentabilidade – em Finanças Sustentáveis.

É um material muito interessante em virtude das conexões que apresenta entre a Economia Verde e os instrumentos e instituições do Sistema Financeiro que podem viabilizar a transição dos processos econômicos tradicionais para a incorporação das questões de risco socioambiental nas atividades produtivas.

O Brasil tem grandes oportunidades na área, até em virtude do que podemos chamar de passivo socioambiental histórico. Temos demandas não satisfeitas  em gestão de resíduos, em saneamento ambiental, em infraestrutura verde, em retrofitting de edifícios públicos e privados, em agropecuária, em gestão de florestas, em mobilidade urbana, dentre outros.

Para aproveitar estas oportunidades, é necessário que o planejamento governamental e das empresas enfoque o desenvolvimento sustentável não como um obstáculo a ser ultrapassado, mas um critério a mais a ser considerado quando da análise do ambiente de negócios e das necessidades de longo prazo das cidades e estados.

É necessário lembrar que uma estratégia de fomento da Economia Verde tem por premissas aumentar a eficiência do uso de recursos, o que deve ser meta para todas as instituições, sejam elas públicas ou privadas, que se preocupam com os recursos que são geridos, e diminuir o impacto ambiental no médio e longo prazo, por meio de mecanismos de gestão ambiental pública e privada.

Isto posto, e como em qualquer projeto, precisa-se mobilizar recursos para efetivar o investimento em Economia Verde. O Sistema Financeiro, como fica bem claro no trabalho da revista Página 22, tem o potencial de mobilizar tais recursos, utilizando para isso as métricas da sustentabilidade.

Ao incorporar a Sustentabilidade, não somente como discurso, mas com critérios claros e verificáveis nas suas atividades, as instituições públicas e privadas sinalizam para o mercado que querem credibilidade e que se submetem ao escrutínio público.

Esta credibilidade junto ao mercado pode viabilizar recursos com menor custo de captação e aumentar a atratividade de empresas e municípios para investimentos em Economia Verde, calcados em projetos de qualidade relacionados aos temas prioritários relacionados ao tema.

O desafio ainda persistente é incorporar tais variáveis aos processos de planejamento público e privado, bem como dar prioridade política aos negócios da Economia Verde.

Temos um grande caminho a avançar ainda, até em virtude das crises econômicas e políticas que ainda passamos e em virtude da virtual cegueira de entidades estatais com relação ao tema, mas quando um trabalho como o da FGV-CES é publicado, vemos que já começamos a construir este futuro.

 

Especial da “The Economist”sobre Mudanças Climáticas

O Especial da revista “The Economist” sobre as Mudanças Climáticas apresenta uma visão interessante da evolução do fenômeno e como a espécie humana deveria enfrenta-lo.

São nove artigos onde se aborda o tema em diferentes visões.

O primeiro artigo mostra que, apesar das conferências globais, a concentração atmosférica do CO2 passou de 361ppm para 399ppm, mesmo considerando o avanço dos investimentos em energias renováveis, e que as abordagens deveriam efetivamente apontar para o investimento em adaptação. As tendências apontadas no artigo para o uso de energia ainda mostram que mesmo que a China reduza a emissão de gases de efeito estufa originárias do carvão, a Índia está entrando num momento de expansão do uso de combustíveis fósseis e expansão de infraestrutura que provocará maior emissão e que ainda mais investimento em pesquisas serão necessárias para que se crie um efeito compensador.

O segundo artigo mostra as incertezas sobre as pesquisas em mudanças climáticas, ressaltando, no entanto, que há evidências científicas suficientes para avançar em iniciativas para mitigação e adaptação e que o problema é efetivamente um grande risco para a humanidade. Alerta-se, com razão, para o chamado efeito sinérgico (feedback loops) das interações, que intensificam o fenômeno das mudanças climáticas ainda mais e que causariam os efeitos adversos das interações não lineares, imprevisíveis quanto à extensão e a irreversibilidade dos impactos.

O terceiro artigo remete à percepção da importância do tema pela população em geral e a relação desta aceitação em função das crenças e identificação com determinados grupos políticos. A identificação das mudanças climáticas com as ideias liberais e a consequente resistência dos conservadores em aceitar as evidências científicas e mesmo combate-las é reflexo deste conflito ideológico.

O quarto artigo demonstra as oportunidades em energias renováveis, especialmente a solar e a eólica, mas aponta fragilidades em determinadas estratégias, especialmente a alemã. Demonstra que as taxas de energia são maiores para subsidiar a energia renovável e que a intermitência continua a ser um problema.

O quinto artigo discorre sobre a China e o grande movimento de limpeza da sua matriz energética, intensamente dependente do carvão e cujo aumento do número de usinas reflete o crescimento econômico experimentado nos últimos anos, bem como o recebimento das indústrias do mundo todo em seu território, com as consequências sociais e ambientais associadas à queima do carvão. No artigo se aponta, no entanto, que depois da fase de expansão da infraestrutura poderá haver um arrefecimento da demanda pelas indústrias intensivas em uso de carvão, como o aço e o cimento, mas o consumo de energia de eletrodomésticos aumentará em função da população e da maior afluência.

O sexto artigo demonstra iniciativas já em andamento para adaptação dos países mais pobres aos efeitos das mudanças climáticas. A intensificação dos eventos extremos em virtude da maior energia presente no sistema climático causaria mais inundações, ciclones e outros eventos que necessitam de investimento em infraestrutura para proteção da população e suas atividades econômicas. O artigo introduz a lógica do “free-rider”, onde o indivíduo por si só tem poucos incentivos a pensar no longo prazo e alterar o comportamento, mas responde rapidamente aos eventos críticos de curto prazo. Além disso, cita-se a adaptação das culturas anuais em virtude da alteração dos ciclos de chuvas e secas na África. Há uma pergunta interessante ao final sobre qual a maior urgência nas comunidades: investimentos em saneamento e saúde ou energias limpas,  o que parece ser um debate interessante.

O sétimo artigo é sobre biodiversidade e a inevitável extinção que ocorrerá em virtude das diferentes capacidades de adaptação às mudanças de determinadas espécies às mudanças rápidas de condições em seus habitats, com a sugestão de realocação em habitats semelhantes. O artigo sugere que as tradicionais iniciativas de conservação podem ser insuficientes em virtude da escala e da velocidade das mudanças.

O oitavo artigo fala sobre geoengenharia. A alteração deliberada do clima em larga escala para evitar os efeitos disruptivos das mudanças climáticas.  E as ideias são muito interessantes, custosas e, principalmente, sem sucesso garantido. O artigo aponta, no entanto, para tecnologias a serem utilizadas se todo o arsenal de iniciativas atualmente for insuficiente, o que, analisando as tendências de consumo de energias fósseis para alimentar a economia global e a entrada de novos contingentes de consumidores, parece o cenário mais provável.

O nono e último artigo refere-se às diversas iniciativas a serem discutidas para reduzir as emissões: as taxações do carbono emitido, o cap-and-trade com licenças para emissão negociáveis em mercado e, principalmente, as pesquisas em inovação que poderiam ser financiadas ao invés dos grandes subsídios em produção de energia.

De forma geral, vale a pena ler os artigos completos. Eles apontam para possíveis encaminhamentos que surgirão da COP-21 e apresentam a visão da Economist sobre o tema. Ressalto que é uma visão bastante realista dos limites das abordagens hoje existentes, o que vem a ser uma característica histórica da publicação. Cita especificamente o pesquisador Bjorn Lomborg, tradicionalmente conhecido pelo combate aos investimentos em mitigação de emissões de gases de efeito estufa em detrimento de outras demandas mais urgentes das sociedades, tais como saúde e saneamento, no entanto é uma opinião interessante, considerando a necessidade de questionar sempre nossas ideias pré-concebidas.

O evento crítico ocorrido em Mariana, Minas Gerais, remete diretamente à gestão dos riscos sociais e ambientais pelas empresas e à capacidade da gestão ambiental privada e pública em prevenir riscos, bem como acompanhar ativamente as probabilidades de ocorrência de eventos críticos e seu impacto.

A principal ferramenta de gestão de riscos socioambientais, levantamento de probabilidades de ocorrência e o impacto potencial prevista na legislação brasileira é o Estudo de Impacto Ambiental. Neste instrumento se levantam previamente os impactos ambientais de empreendimentos propostos, nos termos das resoluções do CONAMA, e o Estado exige do empreendedor a elaboração de planos de ação para evitar, compensar, mitigar ou terceirizar os riscos de impactos negativos e promover impactos positivos sobre a população.

Estes planos de ação são implementados para que a sociedade não tenha que arcar sozinha com os custos socioambientais da implantação destes empreendimentos, cuja vida útil em geral impacta de forma permanente a vida das comunidades por muitos anos. A sua implantação precisa ser monitorada durante o tempo de operação do empreendimento e até depois do descomissionamento.

Um evento crítico desta espécie tem impactos de curto, médio e longo prazos. Os impactos negativos de curto prazo são a desagregação social, ambiental e econômica da região impactada pelo evento crítico. A população perde seus meios de sobrevivência e terá que ser sustentada pelo Estado e indenizada pela Empresa durante o tempo que durar o impacto, que define a temporalidade e persistência.

Os efeitos de longo prazo referem-se principalmente à quebra das relações ecológicas locais, responsáveis pela manutenção da estabilidade e resiliência locais e por gerar impactos irreversíveis na produtividade do solo, na qualidade da água, nas cadeias alimentares que sustentam as indústrias locais.

Ecologicamente falando, o impacto pode ser persistente, irreversível e com abrangência nacional. Imaginem o custo para a população da disrupção da cadeia alimentar, da ciclagem de nutrientes e da água e da produtividade primária da região. Além disso, o custo da desagregação social local, da perda de autonomia política e das relações interpessoais.

Multipliquem o impacto local pelas diversas localidades onde os rejeitos passarão até chegar ao litoral e ao oceano. Estamos falando de um impacto grandioso sobre cadeias alimentares nos rios, florestas, litoral e oceano, com os processos disruptivos sociais, econômicos e ambientais.

Quando custa a disrupção de cadeias alimentares das quais dependem as populações locais para viver? Da estabilidade ecológica necessária para a produção agrícola? Da ciclagem de nutrientes que assegura a produtividade do solo? Da impossibilidade do uso de recursos hídricos locais para alimentar a população e o gado? Durante anos? Quanto custa a recuperação destes ecossistemas impactados, se é que é possível estimar um valor para isso?

Preocupa, e muito, as propostas de determinados “representantes do povo” no Congresso Nacional querendo reduzir a eficácia e a eficiência do Estudo de Impacto Ambiental para aprovar um tipo de “fast track” ambiental, simplificando o instrumento de identificação de riscos que é o EIA.

Esta identificação de riscos, com os impactos e probabilidades de ocorrência, reversibilidade, persistência e abrangência, bem como dos mitigadores de risco que podem um dia proteger as populações locais deste tipo de tragédia ambiental, são necessários para sistemas complexos de gestão ambiental pública e privada.Reduzir a eficácia dos instrumentos de gestão ambiental é caminhar contra a evolução das necessidades da sociedade de controlar, mitigar, compensar ou reduzir cada vez mais os riscos aos quais está exposta e aumenta a probabilidade de ocorrência de eventos desta espécie no futuro.
O movimento, na verdade, deveria ser de intensificar os instrumentos de gestão ambiental pública, fortalecendo a aplicação da lei e da governança ambiental, e exigir cada vez mais das empresas a conformidade com critérios socioambientais de produção, para que a população não tenha que pagar, como costuma acontecer, pelas externalidades negativas causadas pelo gerenciamento ambiental mal feito pelas empresas.Que o Brasil aprenda com esta tragédia ambiental, apesar dos sinais claros de que não costumamos aprendemos com nossos erros.