Livro “Energy and the Financial System”

Uma leitura bastante interessante sobre o cenário da produção de energia atual e os futuros desenvolvimentos e tendências foram apresentados no livro  “Energy and the Financial System – What every economist, financial analyst, and investor needs to know”. Comprei-o durante a Conferência Internacional para Economia Ecológica e o autor apresenta questões lógicas e interessantes para que se pense o futuro e suas consequências, no que diz respeito às finanças, sustentabilidade e energia.

O principal conceito trabalhado pelo autor Roger Boyd, que trabalhou no mercado financeiro durante anos, é que nossa civilização é viciada em energias fósseis e que este vício nos levou a uma situação que os norte-americanos chamam catch-22. Não temos hoje e, considerando o conhecimento atual e os cenários traçados pelos autor, não haverá alternativas viáveis, com as características dos combustíveis fósseis, levando a uma inevitável situação onde a sociedade terá de abrir mão de certas comodidades que são dadas por certas.

Ele trabalha o conceito de EROI – Energy Return on Investment, calculada a partir da energia necessária para produzir mais energia. Segundo sua análise, os mais viáveis e com maior retorno para investidores são os combustíveis fósseis, porém, com a depleção dos recursos mais baratos para extração, o EROI tem diminuído cada vez mais para os recursos não-renováveis, posicionando os renováveis, usualmente necessitando de maior investimento para desenvolvimento, como viáveis em comparação com os primeiros.

A fórmula (simplificada) para cálculo do EROI seria a energia produzida dividida pela energia gasta para produzi-la. Entram no cálculo, no entanto, os limites biofísicos para emissão de gases de efeito estufa e sua relação com a disponibilidade e custo de extração de combustíveis fósseis, especialmente o petróleo, carvão e gás natural. A medida em que tais limites se aproximam, o custo e o risco para a sociedade tornam-se cada vez maiores, com impactos sobre todo o sistema financeiro. Este texto pode ser considerado uma pedra fundamental da análise sobre a energia e o sistema financeiro.

O EROI lembra o cálculo realizado para analisar a depleção de estoques pesqueiros, bem como o esforço de pesca, que é uma função da quantidade de combustível fóssil utilizada para obter uma quantidade x de pescado, e que aponta o nível de comprometimento ecológico dos estoques de pesca, causados pela atividade em níveis superiores à capacidade de suporte e da recuperação ecológica destes estoques.

Nosso sistema de produção, consumo e descarte depende do petróleo, carvão e gás natural para funcionar. Estes três componentes geram 96% da energia global consumida. Deste sistema também dependemos da capacidade das empresas em gerar retornos crescentes e contínuos para pagar impostos para governos, gerar retornos para aposentadorias, gerar títulos e investimentos em empresas privadas, apesar dos limites claros e evidentes de que a extração indefinida de materiais, conjugada ao descarte de resíduos, poderá comprometer a capacidade deste planeta de nos sustentar.

Qual a novidade da abordagem? O livro apresenta evidências, fatos, números. É fato a sobrepesca, são fatos as zonas mortas nos encontros de rios com o mar, são fatos o descarte inadequado de resíduos, as externalidades geradas por qualquer tipo de geração de energia e que os substitutos para os modos tradicionais de geração fóssil não apresentam as mesmas eficiências e precisam ser intensivas em capital.

Não se trata de ser neomalthusiano aplicado à perspectiva energética. Há limites biofísicos e ecológicos que se contrapõe diretamente aos objetivos econômicos, sem que um ponto de equilíbrio seja encontrado. Cerca de 2,2 bilhões de pessoas na Índia e China serão incorporadas à sociedade do consumo. Uma economia circular torna-se um imperativo, porém mesmo a reciclagem de elementos encontra um limite técnico de qualidade.

A grande conclusão do livro é alertar que em médio e longo prazo seremos obrigados a refazer os cálculos econômicos sobre os quais nossa sociedade se assenta. Os retornos serão ainda mais decrescentes, a energia não será completamente renovável e é bem possível que enfrentemos diversos colapsos em nossos modos de produção para os quais nossa espécie não está preparada, especialmente aquelas mais viciadas em energia.

Sugiro a leitura. O autor apresenta um risco considerável que, confirmado, nos deixará com tarefas árduas e crises sociais relacionadas ao acesso e gestão de recursos naturais e perda possível de processos ecológicos que sustentam a humanidade.

Texto publicado hoje na environment360, blog de assuntos ambientais da Universidade de Yale, analisa a ausência de metas para a redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) relacionadas ao transporte de pessoas e cargas em torno do planeta.

A motivação emerge do fato de que as emissões de navios e aviões respondem por 6% das emissões globais de GEE, com expectativa de chegar a 40% das emissões globais em 2040, e que existe uma dificuldade em atribuir as emissões aos países, tendo em vista a natureza transfronteiriça destas atividades.

A posição das duas principais organizações relacionadas ao transporte de cargas e pessoas em relação ao tema emissões de GEE revelam posições antagônicas e tentativas de bloquear iniciativas com base na velha dicotomia crescimento econômico x responsabilidade ambiental.

Enquanto a Internacional Civil Aviation Organization (ICAO) analisa que tipo de ações tomar, visando claramente gerar um compromisso a ser seguido pelas empresas responsáveis por até 90% das emissões do transporte aéreo, com a tendência a investir em renovação tecnológica em biocombustíveis para redução das emissões líquidas e compensação por meio de doação de recursos ao REDD+, a Internacional Maritime Organization (IMO) ainda tem dúvidas quanto à assunção de metas para redução de emissões, com o argumento de que a adoção de metas reduziria o crescimento econômico.

No texto publicado explica-se também que houve discussões no âmbito dos países desenvolvidos e em desenvolvimento e que metas para o transporte marítimo foram bloqueadas pelo grupo dos BRICs, Brasil, China, Rússia e Índia, justamente com base no argumento dicotômico, causando estranheza à Sustainable Shipping Initiative (SSI), cujos membros incluem a Maersk, a Carnival e grandes usuários como a Cargill.

Os grandes movimentos globais surgidos a partir da COP 21, visando pressionar os processos produtivos e os elos de distribuição e consumo a eles ligados, dentre eles a logística, demonstram que haverá uma busca acelerada por eficiência e esta busca terá por resultados maior investimento em ciência e tecnologia, com motores cada vez mais eficientes, combustíveis mais eficientes e ações urgentes para redução de consumo de combustível.

As cadeias produtivas que sustentam a transição para a Economia Verde serão beneficiadas pelo investimento em pesquisa e desenvolvimento e novas cadeias produtivas relacionadas. No entanto, como bem visto nos papéis desempenhados por governos, organizações não governamentais e associações de classe, uma maior pressão relacionada às metas de redução de emissões e em investimento em eficiência no uso de energia seguramente terá um efeito sinérgico na aceleração da busca por soluções, sejam elas políticas, tecnológicas ou comportamentais.

O mundo prepara-se para uma economia de baixo carbono. O Brasil deverá estar preparado para não somente receber para conservar e gerir de forma sustentável suas florestas, mas também desenvolver tecnologias de baixa emissão carbono que possam incorporar-se no mercado global. E nossas crianças já deveriam estar aprendendo isso.

É nosso desafio.

O relatório “High and Dry: Climate Change, Water and the Economy” analisa os efeitos do crescimento da população, do incremento de renda e a expansão das cidades sobre a demanda por água em um ambiente onde os recursos hídricos estão cada vez mais escassos e com menor qualidade.

Water Scarcity

Fonte: Banco Mundial (2016)

A escassez da água se tornará ainda mais pronunciada considerando-se os impactos das mudanças climáticas e a alteração do ciclo hidrológico. Estimou-se que, continuando-se a considerar as tendências expostas no parágrafo 1, a escassez de água poderá causar perda de 6% do PIB nas regiões mais críticas do planeta em 2050, com impactos sobre a saúde pública, a produção de riqueza e a agricultura, alterando significativamente a capacidade de produção dos ecossistemas dos quais depende o sistema econômico para manter-se gerando retornos.

A insegurança hídrica causada pela mudança dos padrões atuais relativos ao ciclo hidrológico aumentaria o risco de conflitos, causaria o aumento no preço dos alimentos e estimular a migração, impactos observados quando há mudanças drásticas na disponibilidade de recursos.

De acordo com o relatório, a adoção de iniciativas em gestão de recursos hídricos promoveria uma redução do risco de estresse hídrico por meio de estratégias de adoção de tecnologias mais eficientes, adoção de incentivos econômicos para incremento do uso eficiente de água, investimentos em infraestrutura para suprimentos de água com maior qualidade e quantidade.

Tais estratégias devem estar bem relacionadas com a conservação de ecossistemas produtores de água e seriam iniciativas efetivas para diminuir o risco e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos dos quais depende a espécie humana.

O relatório completo é fundamental para profissionais interessados em gestão ambiental pública e privada. Na gestão ambiental pública, a capacidade dos gestores em elaborar os planos de recursos hídricos e os planos de investimento em longo prazo, com a identificação de necessidades de levantamento de recursos e as tarifas a serem cobradas da população é uma habilidade a ser desenvolvida e implementada. Planos relacionados à gestão de recursos hídricos e gestão ambiental não devem estar submetidos aos sabores das ideologias. É efetivamente uma questão de vida ou morte.

Na gestão ambiental privada, as empresas devem estar atentas ao aumento da eficiência produtiva da água que entra em seus processos. À medida que a escassez se torna norma, mais investimentos serão necessários para aumentar a ecoeficiência nos seus processos produtivos. Este aumento da eficiência implica diretamente no investimento em desenvolvimento de tecnologias, no investimento em novos produtos e na participação ativa  e qualificada nas instâncias reguladoras da oferta e demanda de água.

Nossa legislação de recursos hídricos, especialmente a Política Nacional de Recursos Hídricos, estabelece que os Comitês de Bacias, órgãos de planejamento com participação social e responsáveis pelo planejamento de longo prazo, são estruturados com participação do Estado, dos Cidadãos e das Empresas. Sua ação é dada pelas Agências de Águas, que arrecada e destina os recursos arrecadados pelos empreendimentos localizados na bacia hidrográfica aos usos definidos e priorizados nos planos de bacia.

Há muito espaço para avançarmos na Gestão de Recursos Hídricos e na eficiência do uso, considerando o cenário apontado pelo relatório do Banco Mundial. Tem que se avançar, no entanto, na plena implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos.

A possibilidade de juntar-se as metas definidas pelo Brasil na COP 21 (iNDC) de recuperação de áreas degradadas dialoga diretamente com a recuperação dos ecossistemas de suporte ao ciclo hidrológico, com o resultado de aumento de disponibilidade hídrica em quantidade e qualidade adequadas.

Esta possibilidade, no entanto, depende diretamente da participação ativa da sociedade na construção dos Planos de Recursos Hídricos e na implementação adequada da Política Nacional de Recursos Hídricos. Esta implementação depende da sensibilidade dos gestores públicos e dos incentivos à sociedade para adoção de maior eficiência e de uma evolução constante dos mecanismos de gestão ambiental pública e privada.

Economia Circular

A Economia Circular é um dos temas mais interessantes e inovadores que está sendo desenvolvido rapidamente. A ideia de tornar os processos produtivos mais circulares, com pouca ou nenhuma perda de material está movendo diversas inovações em várias áreas do pensamento.

O Fórum Econômico Mundial publicou esta semana uma série de vídeos (disponível aqui) que mostra como a ideia e as ações relativas à Economia Circular estão diretamente ligadas à qualidade ambiental, à gestão ambiental privada, à gestão ambiental pública e aos resultados econômicos e ambientais.

Adicionalmente, o Fórum tem todo um projeto dedicado ao tema (aqui). Lembre-se que o Fórum Econômico Mundial reúne anualmente os maiores líderes globais e que a presença de uma sessão específica para discussão do tema sinaliza fortemente que tipo de ações serão priorizadas no futuro.

Creio que num momento em que se discute como retomar o crescimento do Brasil e como se livrar das âncoras políticas que nos mantém discutindo temas da época da primeira revolução industrial, no século XIX, a utilização do conceito de Economia Circular como tema subjacente de qualquer discussão tem alto potencial de disrupção na sociedade brasileira.

Este tema deveria estar no centro da nossa atuação, fomentado em nossas escolas desde o ensino fundamental. Quem não estiver preparado para o século XXI e suas grandes novidades vai condenar seu futuro. Chega de discutir o século XIX. Evoluamos.

O blog da Universidade de Yale publicou hoje uma interessante análise sobre evidências de descarbonização da Economia Global (aqui). A descarbonização refere-se à produção de maior retorno econômico dos processos produtivos com a redução da emissão de carbono por unidade de retorno gerada. É um conceito que remete diretamente à Ecoeficiência e, por consequência, está ligado às áreas de estudo da Ecologia Industrial.

No artigo o autor analisa os dados da Economia Global com as emissões de carbono e atribui esta redução da intensidade de carbono à redução do consumo de carvão mineral, especialmente do maior emissor global, a geração de energia na China. Contribuiu para a redução das emissões a redução do ritmo de expansão das indústrias de cimento e aço, historicamente ligadas às emissões mais altas de gases de efeito estufa, em virtude da desaceleração da Economia chinesa.

O maior avanço observado foi a redução de 80% para 70% de uso de carbono na matriz energética daquele país, bem como com a expansão quase exponencial da produção de energias renováveis (eu destacaria também a implementação de complexos ecoindustriais, posicionando o país como gerador de inovação neste tópico em Ecologia Industrial).

No caso da descarbonização observada na Europa, atribui-se o fato ao deslocamento das indústrias intensivas em carbono para a China, o que contribuiu para o aumento da poluição das cidades, com a consequente necessidade de ação governamental para reduzir as emissões indesejáveis para a atmosfera e para as águas do país.

Dois fatores apontados como cruciais para a ocorrência deste fenômeno foram a redução do preço da geração de energias renováveis, estimuladas pelas tecnologias mais eficientes e pelas compras governamentais, bem como as restrições a serem colocadas pelos estados e pelo mercado à geração de energia com fontes não renováveis. O crescimento exponencial experimentado pela indústria da energia renovável veio para ficar.

Um ponto adicional, amplificado pelos dois fatores apontados, é a fuga de capitais observada por empresas com sua principal atuação em geração de energia não renovável, causando o que tem sido chamado de stranded assets , que representam um risco para a indústria de não renováveis como um todo.

O artigo enfatiza, no entanto, que para seguir este processo de descarbonização da Economia Global é necessário olhar para as emissões relacionadas aos transportes, especialmente à indústria de aviação e de navios, e para as emissões de metano, devido ao seu alto potencial de aquecimento global e à expansão de processos produtivos que causam emissões do gás.

Ainda assim, o problema da redução das emissões não estaria equacionado, visto que o passivo persiste como um problema a ser enfrentado. Estima-se que para manter o planeta com o impacto limitado ao aumento de 2º C e abaixo de 450 ppm não deveremos emitir mais do que 800 bilhões de toneladas, com as emissões chegando a zero em 2050.

Este é um cenário extremamente complicado em que a velocidade da transição da Economia deve apresentar uma aceleração acima do que a que foi vista até o momento, com políticas públicas ativas de fomento à compra de energia renovável e fomento da indústria da energia solar e eólica, bem como a geração descentralizada.Há espaço para avanços mais efetivos, porém tais avanços necessitam ganhar velocidade, tanto em relação ao fomento ativo de alternativas sustentáveis por meio de subsídios diretos ou a retirada de subsídios indiretos à produção de energias não renováveis, bem como a promoção mais intensa da transição da economia tradicional para a economia verde.

Os editores do site greenbiz.com publicam anualmente um relatório extremamente interessante sobre as tendências em sustentabilidade. Os autores apresentam 10 tendências obtidas do monitoramento sistemático de informações sobre o tema e quais impactos elas terão sobre as atividades econômicas.

As dez tendências citadas no trabalho são as seguintes:

  1. A consolidação do conceito de Economia Circular gerando novas tecnologias, processos e produtos
  2. A gestão tecnológica das cadeias de suprimento gerando cada vez mais eficiência no uso de recursos
  3. Infraestrutura Verde atraindo investimentos
  4. Indústria de mineração tornando-se mais limpa
  5. Agricultura promovendo a regeneração de sistemas naturais
  6. Reciclagem de carbono promovendo a redução de emissões de GEE
  7. Geração de empregos relacionados à sustentabilidade atraindo mais profissionais
  8. Microgeração apresentando um crescimento expressivo
  9. Economia do compartilhamento alcançando as empresas
  10. A chamada Economia Azul, relacionada à proteção e uso sustentável dos Oceanos, tornando-se cada vez mais importante para um planeta resiliente.

A análise das 10 tendências mostra uma tendência evolutiva resultante da pressão adaptativa exercida pela sociedade em suas mais diversas instâncias. E pressões adaptativas exigem respostas dos componentes dos ecossistemas, visando aproveitar-se dos “nutrientes” disponíveis.

Negociações internacionais, como a COP-21, pressionam os Estados Nacionais a assumirem responsabilidades, adotando medidas para reduzir suas emissões a partir de inventários nacionais de emissões.

Do mesmo modo, investidores institucionais globais e grandes investidores retiram investimentos de empresas cujos “core business” em energias não-renováveis podem comprometer a existência da sociedade como um todo e esta sociedade pressiona por soluções para maior qualidade ambiental e maior resiliência dos sistemas de suporte à vida.

Há um grande movimento se consolidando e o Brasil pode ser parte importante da solução.

 

Tendências para finanças sustentáveis

O relatório sobre Economia Verde da UNEP destaca a participação crucial do sistema financeiro em direcionar os processos econômicos em direção à sustentabilidade dos processos econômicos, por meio dos mecanismos econômico-financeiros que são suas especialidades.

Sem dúvida a captação, investimento e redução de riscos socioambientais tem papel crucial nesta mudança que necessita a sociedade e o florescimento de um mercado financeiro voltado para o financiamento da Economia Verde tem potencial de gerar feedbacks positivos nos processos econômicos e fomentar os projetos voltados para os processos sustentáveis.

A revista Environmental Finance, uma das fontes de informação mais confiáveis sobre Finanças e meio ambiente, apontou na sua edição de janeiro as tendências que se consolidaram em 2015 e sugere os possíveis cenários que acontecerão em 2016.

A consolidação dos compromissos de redução de emissões de gases de efeito estufa na Conferência de Paris, ocorrida no final de 2015, é uma força indutora poderosa para fomento da Economia Verde. Compromissos de países, entidades empresariais e sociedade civil tem potencial de transformar-se em ação.

O desinvestimento em empresas cuja atividade está focada exclusivamente na exploração de combustíveis fósseis começa a aparecer, especialmente em grandes investidores institucionais, tendo sido foco de análises neste blog.

Outros investidores calculando o risco do carbono das empresas e tornando este um critério de análise de atratividade para seus investimentos exigem um processo adaptativo das empresas também. A sinalização de que a incorporação do valor do carbono nos processos de produção pode alterar a atratividade das empresas seguramente exigirá um processo de adaptação da apuração do valor dos produtos. O impacto ambiental gerado pode inviabilizar determinadas cadeias produtivas.

As políticas de transparência relacionadas à informação sobre emissões tornado-se mandatórias e submetidas ao escrutínio público, as políticas públicas de países desenvolvidos privilegiando energias renováveis e atraindo recursos por meio de green bonds também tem potencial de fomentar inovação e eficiência, substituindo os tradicionais subsídios às energias sujas que atualmente existem e fomento as soluções locais, tais como a geração descentralizada de energia, que em última instância geram grandes impactos ambientais e privilegiam grandes obras.

Todo este cenário, com as tendências a serem confirmadas durante 2016, construirão um ambiente de negócios diferente para quem trabalha em finanças e sustentabilidade. Os desafios serão grandes em países como o nosso, cujos indicadores de atratividade estão ruins, consolidados no rating brasileiro em virtude da instabilidade econômica e da falta de liderança política.

No entanto, existem projetos privados altamente atrativos nas áreas que são foco de investimentos em Economia Verde. Temos saneamento ambiental (água, esgotos e resíduos sólidos), recuperação de áreas degradadas, energias renováveis e geração descentralizada, mobilidade urbana, retrofitting de edifícios urbanos e pesquisas e inovação que são atrativos para os investidores institucionais externos e internos, e com taxas de retorno atrativas podem representar uma chance de produzir crescimento.

Para isso precisamos também, no entanto, que os projetos sejam competitivos em relação à capacidade de geração de retornos e que atraia mais do que os juros altíssimos praticados pelo Estado. Isso torna difícil encontrar um ponto de equilíbrio de projetos em Economia Verde, nas áreas citadas no parágrafo anterior, que não implique em custo excessivo em tarifas que seriam cobradas da sociedade.

Portanto, para ser competitivo e efetuar a migração para uma Economia Verde, precisamos de processos mais racionais no que se refere às taxas de juros e taxas de retorno de projetos. A Economia Verde só se consolidará se for mais atrativa que o mais do mesmo. Para isso, os custos ambientais de projetos considerados não verdes devem ser incorporados às atividades para que a sociedade deva decidir como seus investimentos promoverão um maior crescimento econômico, com maior qualidade ambiental e maior equidade, premissas da economia verde.

 

 

A proposta de uma Economia Circular (EC) remete ao fechamento dos ciclos materiais de produção e consumo. A redução dos impactos ambientais dos processos econômicos a partir do incremento da reciclagem de materiais, da economia do compartilhamento, do reuso, do reparo e do ecodesign.

O conceito de Economia Circular encaixa-se no modelo mais amplo do conceito de Economia Verde no tocante à redução dos impactos ambientais relacionados aos processos de produção, consumo e descarte e à necessidade de tornar os processos mais eficientes.

O Relatório produzido pela Agência Ambiental Europeia, referência em gestão ambiental pública, sobre Economia Circular e os desafios para implementar iniciativas que promovam a transição de uma economia de extração – produção – consumo – descarte para uma com ciclos materiais fechados é um material crucial para interessados em Gestão Ambiental.

A figura abaixo demonstra os limites da abordagem da Ecologia Circular e sua interrelação com a Economia Verde, que aborda ainda os conceitos da resiliência dos ecossistemas de suporte e o bem-estar humano.

 

Sem Título

Fonte: Circular Economy in Europe (2016)

As características de uma EC são as seguintes:

  1. Redução do uso de recursos naturais
  2. Incremento no uso de materiais oriundos de reciclagem e reuso
  3. Redução de emissões
  4. Maior eficiência no uso de recursos com redução de perdas na produção e no descarte
  5. Geração de valor com redução ainda maior de fluxos de materiais

Obviamente, quaisquer objetivos ligados à redução de impactos ambientais não estão circunscritos à esfera regional, tendo em vista a interdependência da economia global, com seus fluxos de água, madeira, plantas, metais, minerais e energia.

A Europa está interligada aos grandes fluxos globais de materiais e a promoção da Economia Circular tem efeitos diretos sobre o comércio global, portanto, sendo sujeita à uma abordagem das várias partes interessadas de forma mais ampla, envolvendo governos, negócios, finanças, sociedade civil e cidadãos.

Esta abordagem passa necessariamente pela construção de novos modelos de negócios focados em serviços, consumo colaborativo, eco-inovação, melhoria da governança em sustentabilidade, redução dos subsídios às indústrias consideradas mais poluentes, criação ou utilização de mecanismos financeiros para fomento da EC, dentre outros.

O conceito de Economia Circular remete aos temas abordados em Ecologia industrial, visando reduzir os ciclos de materiais e tornar mais eficiente o uso de energia, demonstrando a propensão europeia em adotar políticas e práticas que podem servir de exemplo aos demais países.

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Fonte: Circular Economy in Europe (2016)

A proposição de uma economia circular é um conceito central da Ecologia Industrial, com a proposta de uma visão evolutiva em termos de produção, partindo de um sistema produtivo aberto sob o ponto de vista do consumo de materiais (com produção, distribuição, consumo e descarte) e energia para o conceito de sistema fechado (produção, distribuição, consumo, reciclagem, produção) sob o ponto de vista material, reduzindo o custo ambiental da extração de material virgem e utilizando materiais já disponíveis nos estoques já existentes.

A utilização do conceito de Economia Circular nos processos econômicos seria o ponto de partida para políticas eficientes de gestão de resíduos sólidos e integração com as políticas de recursos hídricos e de meio ambiente, com a utilização de mecanismos financeiros indutores de ações privadas em gestão ambiental avançada.

Além disso, possibilitaria a efetiva passagem dos mecanismos de comando e controle e conformidade para a transformação dos riscos ambientais associados à produção em oportunidades de ganho de eficiência.

Um dos movimentos mais interessantes em Ecologia Industrial, especialmente na temática dos Parques Ecoindustriais (EIP’s) e Simbiose Industrial (IS), tem acontecido na China.

Pressionados pelos crescentes impactos ambientais ocasionados pela industrialização maciça ocorrida nas últimas duas décadas, que puxou o crescimento global e posicionou a China como o parque industrial global, com seus ônus e bônus associados, o Departamento Ambiental Chinês investiu na abordagem de Parques Ecoindustriais, visando promover a Simbiose Industrial como forma de aumentar a eficiência produtiva e reduzir os impactos ambientais.

Um interessante artigo publicado no Journal of Industrial Ecology em dezembro de 2015 pelos pesquisadores Liu, Tian, Chen, Lu e Gao analisa o desenvolvimento dos EIP’s na China. Estes parques tem sido implementados por mais de uma década e o artigo apresenta uma métrica para analisar a ecoeficiência no desempenho destes arranjos produtivos.

Os EIP’s são compostos de indústrias com atividades complementares, onde os resíduos gerados em determinados processos produtivos podem ser utilizados como insumos em outros processos. No caso da China, a adoção da política surgiu a partir da pressão gerada pela deterioração das condições ambientais, que exigiu uma resposta adaptativa das instituições.

O país possui 1568 parques industriais, com os típicos problemas ambientais gerados pela concentração de indústrias.  A Agência de Proteção Ambiental da China iniciou o Programa Demonstrativo Nacional de Parques Ecoindustriais em 2001 e selecionou 85 regiões industriais para aplicar os conceitos relacionados à Ecologia Industrial.

Em 2006 foram estabelecidos os padrões para três tipos de EIP’s – Integrados, com diversas indústrias de características diferentes em mesmo espaço geográfico, Específicos, relacionados à concentração de indústrias com características semelhantes e os chamados Venosos, cuja característica principal é a recuperação de substâncias específicas de processos produtivos. Em 2007 iniciou-se a implementação, com 71 parques integrados, 13 específicos e 1 “venoso” (um nome melhor é necessário).

Dois aspectos positivos levantados pelos autores emergem do texto: A necessidade de integração de políticas e medidas para potencializar o efeito positivo dos EIPs e os benefícios relacionados às iniciativas, analisados por 26 indicadores de desempenho relacionados aos processo econômicos, eficiência no uso de recursos, controle de poluição e gestão ambiental.

A medição da Ecoeficiência dos EIP’s é conceituada como o valor agregado em função do impacto ambiental gerado. Os detalhes dos cálculos realizados para analisar o desempenho dos EIP’s podem ser encontrados no artigo original.

Destaque-se no artigo as iniciativas adotadas para melhoria do desempenho ambiental dos EIP’s. A produção mais limpa, os Sistemas de Gestão Ambiental, o compartilhamento de infraestrutura são pressões positivas para o estabelecimento da Simbiose Industrial. O artigo aponta para o fomento de ainda mais EIP’s na China, com a construção de uma plataforma de disseminação de experiências, com uma curva de aprendizagem acelerada pela disponibilização de informações. A análise do desempenho ambiental também auxilia a consolidar o conceito dos EIP’s e o que é esperado deste desempenho. A gestão dos resíduos será fomentada, tendo em vista que o incremento total de reciclagem de resíduos demonstra um processo mais eficiente de produção e fomenta, por sua vez, a pesquisa por inovações tecnológicas relacionadas à Ecologia Industrial, Economia Circular e EIP’s e IS.

Os pesquisadores concluem, com base nas análises realizadas, que de 2007 a 2010 houve incremento no desempenho ambiental de 89,4% dos EIP’s analisados, com a redução do consumo de recursos e da poluição gerada por valor agregado. Adicionalmente, demonstra-se que as indústrias incluíram a produção mais limpa, a gestão ambiental e o compartilhamento de estruturas produtivas (i.e. água e calor) para promover a Ecoeficiência.

É possível fazer mais com menos, a China tem demonstrado. É de se esperar que com o desenvolvimento ainda maior da política de estabelecimento de EIP’s o valor agregado seja incrementado em relação ao impacto ambiental e que em breve a China seja uma usina de soluções para a integração de parques industriais.

http://www.p22on.com.br/#sthash.Y6LRtMJ9.dpbs

O link acima apresenta o especial da Fundação Getúlio Vargas – Centro de Estudos em Sustentabilidade – em Finanças Sustentáveis.

É um material muito interessante em virtude das conexões que apresenta entre a Economia Verde e os instrumentos e instituições do Sistema Financeiro que podem viabilizar a transição dos processos econômicos tradicionais para a incorporação das questões de risco socioambiental nas atividades produtivas.

O Brasil tem grandes oportunidades na área, até em virtude do que podemos chamar de passivo socioambiental histórico. Temos demandas não satisfeitas  em gestão de resíduos, em saneamento ambiental, em infraestrutura verde, em retrofitting de edifícios públicos e privados, em agropecuária, em gestão de florestas, em mobilidade urbana, dentre outros.

Para aproveitar estas oportunidades, é necessário que o planejamento governamental e das empresas enfoque o desenvolvimento sustentável não como um obstáculo a ser ultrapassado, mas um critério a mais a ser considerado quando da análise do ambiente de negócios e das necessidades de longo prazo das cidades e estados.

É necessário lembrar que uma estratégia de fomento da Economia Verde tem por premissas aumentar a eficiência do uso de recursos, o que deve ser meta para todas as instituições, sejam elas públicas ou privadas, que se preocupam com os recursos que são geridos, e diminuir o impacto ambiental no médio e longo prazo, por meio de mecanismos de gestão ambiental pública e privada.

Isto posto, e como em qualquer projeto, precisa-se mobilizar recursos para efetivar o investimento em Economia Verde. O Sistema Financeiro, como fica bem claro no trabalho da revista Página 22, tem o potencial de mobilizar tais recursos, utilizando para isso as métricas da sustentabilidade.

Ao incorporar a Sustentabilidade, não somente como discurso, mas com critérios claros e verificáveis nas suas atividades, as instituições públicas e privadas sinalizam para o mercado que querem credibilidade e que se submetem ao escrutínio público.

Esta credibilidade junto ao mercado pode viabilizar recursos com menor custo de captação e aumentar a atratividade de empresas e municípios para investimentos em Economia Verde, calcados em projetos de qualidade relacionados aos temas prioritários relacionados ao tema.

O desafio ainda persistente é incorporar tais variáveis aos processos de planejamento público e privado, bem como dar prioridade política aos negócios da Economia Verde.

Temos um grande caminho a avançar ainda, até em virtude das crises econômicas e políticas que ainda passamos e em virtude da virtual cegueira de entidades estatais com relação ao tema, mas quando um trabalho como o da FGV-CES é publicado, vemos que já começamos a construir este futuro.