Artigo do Journal of Industrial Ecology sobre Simbiose Industrial

O volume 21 do Journal of Industrial Ecology traz um importante artigo sobre a Simbiose Industrial, tanto sobre o ponto de vista conceitual quanto sobre os viabilizadores e pressões adaptativas para a organização deste tipo de arranjo produtivo.

O conceito adotado pelos autores Yap e  Devlin, baseado em diversos autores que são referência no campo da Ecologia Industrial, remete às trocas de materiais, energia e outros subprodutos do processo produtivo entre empresas localizadas em mesmo espaço geográfico.

A simbiose industrial é considerada no texto como o mais desenvolvido modo de gestão de resíduos e redução de impactos sobre o meio ambiente pelas empresas, bem como o que mais se aproxima do conceito de economia circular ou de resíduo zero, tendo por ponto de partida a necessidade de reduzir ao máximo possível as emissões e aumentar a eficiência produtiva.

Dentre os modos de gestão estão os seguintes:

  1. Menor esforço, menor custo, onde os resíduos sólidos são incinerados ou acumulados, o calor e emissões gasosas são liberadas no ambiente e os líquidos descartados nos corpos d’água.
  2. Fim de tubo, onde os fluxos de resíduos e emissões são segregados na fonte e o potencial poluidor é diluído, neutralizado ou solidificados, com os resíduos acumulados em locais específicos.
  3. Produção mais limpa, onde as fontes de resíduos são identificada e a quantidade e potencial poluidor são diminuídos por meio de práticas de gestão internas, mudanças em processos e rotinas, materiais trocados, equipamentos modernizados e parte dos resíduos é reusada, recuperadas ou reciclada internamente.
  4. Simbiose industrial, onde o reúso, recuperação e reciclagem são feitas externamente por outros componentes da cadeia produtiva por meio de arranjos “simbióticos”.

Dada a parte conceitual, os autores se perguntam quais seriam os viabilizadores dos arranjos produtivos e as pressões adaptativas oriundas do ambiente para que mais iniciativas de Simbiose Industrial sejam geradas, com a consequente redução do potencial poluidor dos resíduos gerados pelas indústrias e do risco que tais resíduos impõem à sociedade.

pressao-adaptativa-empresasA figura acima, extraída do artigo, mostra os principais elementos de pressão adaptativa que atuam sobre as empresas. Políticas públicas, instituições financeiras, competição, grupos da sociedade civil, autoridades informais (associações de negócios, grupos profissionais, instituições religiosas) representam fortes pressões adaptativas para a atuação das empresas.

Esta atuação, por sua vez, necessita de sensibilidade interna por parte dos componentes da empresa, e essa sensibilidade varia de acordo com diversos critérios: quanto investimento é necessário, quais os custos de não fazer nada, assistência financeira disponível, implicações para a qualidade dos produtos, no caso de indústrias, qual o nível de habilidade necessária para os trabalhadores, qual a estratégia de longo prazo da empresa?

Deste modo, os autores afirmam que a evolução da simbiose industrial depende do contexto onde se está inserido o sistema e que a formação do ecossistema industrial depende do desenvolvimento local e das contingências a que estão expostos os componentes deste ecossistema.

A análise dos diversos componentes citados na figura 1 ressalta as pressões de mercado, as pressões do Regulador, as pressões da sociedade civil e como suas ações atuam efetivamente para promover uma adaptação nas atividades das empresas.

Do ponto de vista das forças de Mercado, os custos de transação, novas tecnologias, a coevolução dos componentes do ecossistemas são cruciais para que um modelo de Simbiose industrial evolua à semelhança do que se espera de um ecossistema complexo. Quanto mais componentes neste Ecossistema Industrial interdependentes entre si, mais resilientes e menos propensos à disrupção estarão os seus componentes.

O Regulador, i.e. o Estado, determina a atividade das empresas por meio de seus instrumentos de pressão: Selos ambientais, instrumentos econômicos alterando a viabilidade econômica da gestão de resíduos, processos de regulação negociados, regulações obrigatórias e nacionalização. Há evidências de parques ecoindustriais que surgiram a partir da regulação mais estrita por parte do Estado, que atuou como investidor e regulador para forçar um comportamento redutor de impactos e riscos sobre o ambiente. Por outro lado, regulações mal desenhadas podem levar à destruição das redes formadas pelas empresas para a viabilização dos Ecossistemas industriais.

A Sociedade Civil é crucial neste movimento. Nesta categoria enquadram-se os movimentos de consumidores, investidores e sindicatos de trabalhadores, que atuam como importantes geradores de comportamentos por parte das empresas. A percepção dos Ecossistemas Industriais como redutores de riscos e de impactos sobre o ambiente seria uma força adaptativa importante para a atuação destas empresas.

As atuações dos três entes não é novidade no campo da Gestão Ambiental ou dos estudos sobre as estratégias das empresas, ou mesmo na teoria de sistemas. As pressões adaptativas são necessárias para gerar coevolução, ecossistemas mais complexos e mais resilientes.

Os autores terminam o artigo propondo quatro temas para estudos mais aprofundados sobre o tema:

  1. Há diferenças na emergência de Ecossistemas industriais baseados no background institucional dos países? Ou seja, em países com mais regulação ou menos regulação, como evolui a Simbiose Industrial?
  2. Quais os custos associados à formação das redes de Simbiose Industrial e às negociações entre o fornecedor e o comprador dos materiais e energia?
  3. As redes de Simbiose Industrial são mais ou menos resilientes dependendo do número de conexões entre seus componentes?
  4. As empresas com sistemas de gestão ambiental mais eficientes e que adotam a produção mais limpa tem mais disposição a formar Simbiose Industrial?

Uma avaliação do conceito adotado de Simbiose Industrial para o caso brasileiro lembra uma empresa recentemente constituída no DF que utiliza a cama de frango e o NPK para gerar fertilizante, a OrganoGran.

A empresa atua como gestora de sinergia: aproveita resíduos de uma atividade industrial (segundo Georgescu-Roegen a atividade do agronegócio há muito pode ser considerada industrial, i.e., a transformação de insumos produtivos em outros insumos para cadeias produtivas), beneficia e diminui o impacto ambiental e o risco ambiental, transformando em novos produtos utilizáveis em outras cadeias produtivas.

A pressão de mercado para a sustentabilidade, bem como as exigências dos consumidores e investidores, possibilitaram o surgimento da iniciativa, bem como o empreendedorismo dos gestores.

A mentalidade empreendedora somada à necessidade de diferenciação de produto foram as principais pressões adaptativas recebidas pela empresa. Além disso, a possibilidade de preencher uma falha de mercado, i.e., a agregação de valor a um resíduo e reinserção em cadeias de valor, funciona como atrativo para a diferenciação.

Os complexos ecoindustriais, ou simbioses industriais, seriam o futuro da atividade industrial, considerando a tipologia proposta pelos autores para a gestão de resíduos e emissões? Creio que é bem possível.

Para mais conhecimento sobre o tema, sugiro o link do artigo completo, bem como o que já foi publicado no blog sobre Ecossistemas Industriais, Simbiose Industrial, dentre outros.

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jiec.12398/abstract

 

Um comentário em “Artigo do Journal of Industrial Ecology sobre Simbiose Industrial

  1. Pingback: Conferência Bianual de Ecologia Industrial – Chicago 2017 – Sustentabilidade em ação

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