Áreas protegidas e Economia da Preservação e Conservação Ambiental

A revista The Economist produziu dois filmes (Can ecotourism save the planet? e Can conservation save our ocean?) sobre o potencial do Ecoturismo para gerar desenvolvimento sustentável, tendo em vista que promove a valoração da biodiversidade como um ativo ambiental a ser mantido como estoque, que gera um fluxo de consumo de serviços.

De volta da terceira viagem ao México, em dois anos, para aproveitar as maravilhas das áreas protegidas, é impossível não verificar o quanto o país se beneficia da preservação e conservação ambiental associada ao Ecoturismo. Preservação ambiental refere-se à restrição do uso de recursos, como uma poupança. A conservação é o uso racional e planejado de recursos, visando estabelecer um fluxo econômico pelo consumo dos produtos e serviços associados.

Jacques Cousteau já chamara a região da Baja California de Galapagos do Norte e Aquário do Mundo, revelando já na década de 1970 que o caminho mais adequado para aquela região talvez fosse a conservação e preservação ambiental. Desde a segunda metade da década de 1990 até os dias de hoje o que se vê é o uso da biodiversidade para atrair turistas com disposição a pagar por áreas protegidas e os benefícios decorrentes de uma economia mais complexa.

A península da Baja California possui dentre seus vários atrativos o uso da biodiversidade local para gerar retorno financeiro, desde o turismo de observação até o mergulho recreativo, passando pela pesca esportiva. Em 1994 o arquipélago de Revillagigedo foi declarado Área Natural Protegida. O panorama à época (2 anos depois da Eco’92) era de degradação, com pesca predatória, destruição de ecossistemas, foco no extrativismo predatório, gerando retorno econômico baseado em empregos de baixa qualidade.

Em dezembro estive no barco Belle Amie com um grupo de brasileiros, todos com disposição para passar uma semana num barco pelo prazer de mergulhar e ver a grande fauna marinha do Arquipélago de Revillagigedo, composto por quatro ilhas a 28 horas de navegação da costa. Cada pessoa que passa uma semana num liveaboard gasta em média R$ 30.000,00, entre hospedagem, passagens áreas e os mergulhos. São gerados empregos qualificados e impostos locais, o que resulta num feedback positivo para a economia da conservação.

Quando se avalia o panorama brasileiro, desde 2000 o Brasil construiu sua legislação sobre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, a lei 9985/00, no qual o legislador tinha por objetivo capturar o valor da preservação e conservação. Com a estruturação do Instituto Chico Mendes na década de 2000 a ideia foi institucionalizar a preservação e conservação como modelo de estruturação da Economia da Conservação, cujos resultados são pujantes nos EUA e seu sistema de unidades protegidas, nas ilhas Cocos, na Costa Rica, na Republica Dominicana, na ilha de Fernando de Noronha no Brasil e na Baja California.

A possível evolução da concessão de unidades de uso sustentável (uma das categorias previstas em lei) pode alavancar esta importante área da Economia e com atratividade cada vez maior dentre turistas europeus, americanos e asiáticos. Tais planos, no entanto, estão em contradição com a idéia de transformar determinadas áreas do país em uma “Cancun”. Este tipo de turismo de Cancun parece deslocado da realidade e desconectado do caminho evolutivo que vem sendo trilhado desde a década de 1980, do aproveitamento do potencial natural para gerar empregos e renda.

Adicionalmente, outro grande problema identificado para fomento do turismo sustentável é a infraestrutura insuficiente das cidades litorâneas brasileiras, com potencial porém necessitando fortemente a agenda do saneamento, gestão de resíduos, mobilidade, qualificação profissional e venda da sustentabilidade como produto, para que esta seja a chave de que o Brasil precisa para receber mais turistas com disposição a pagar mais pela qualidade ambiental e sustentabilidade. A sustentabilidade é o asset.

A lição que se tira de uma semana de mergulhos em áreas protegidas é a de que é possível em período de 20 a 30 anos mudar os processos econômicos baseados na exploração predatória de recursos e planejar a entrada de uma região inteira na Economia da Conservação e Preservação Ambiental e, por que não dizê-lo, com a Recuperação de Áreas Degradadas e criação de empregos, renda e impostos que beneficiam toda a região.

Sobre Marcio Gama

O cérebro é nossa maior especialização e nos faz humanos e complexos, capazes de pensar, gerir riscos e planejar o futuro. Nos adaptamos a todos os ambientes conhecidos e aprendemos a utilizar os recursos para nossa sobrevivência. Nesta caminhada, aprendemos a nos adaptar. Tentamos resolver os problemas que criamos e esta é a parte da nossa caminhada neste planeta, o único que temos. Sou Biólogo, Mestre em Planejamento e Gestão Ambiental e Especialista em Gerenciamento de Projetos e as análises que faço aqui refletem a minha visão sobre o tema, balizada em artigos científicos e informações de fonte fidedigna e relevantes. Espero que curtam os textos.
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