O relatório Global Risks Report é publicado anualmente pelo Forum Econômico Mundial e identifica e categoriza os maiores riscos globais aos quais a humanidade está sujeita a curto e longo prazo. Estes riscos são identificados tendo por premissas três pontos principais, os quais permitem a avaliação de relevância, impacto e o grau de gestão sobre os riscos.
O risco é uma medida do potencial de impacto mulplicado pela probabilidade de ocorrência e é crucial a sua gestão de modo a promover ou a redução desta probabilidade ou do potencial de impacto com ações de gerenciamento adequadas. Esta capacidade de gestão reflete a governança e a capacidade de tomar decisões, tangibilizadas em políticas e estratégias capazes de gerar ações que atuem como mitigadores de risco no curto, médio e longo prazo que promovam a adaptação às mudanças trazidas pelas novas condições de equilíbrio.
Este blog tem publicado os principais riscos apontados pelo WEF há algum tempo. O movimento que tem se identificado ao longo dos anos é que se antevê uma profunda crise de gestão de recursos naturais e serviços ecossistêmicos, dos quais toda e qualquer atividade econômica depende para acontecer, conforme os conceitos da Economia Ecológica.
A premissa que guia a produção de material neste blog é a interdependência entre os impactos de gestão de recursos hídricos, gestão de energia e produção de alimentos, conhecido como water-energy-food nexus, ja explorado em texto neste blog. São grandes desafios de gestão que tem impacto em praticamente todas as atividades humanas e com impactos sobre a biodiversidade, os ciclos biogeoquímicos globais, a capacidade de suporte do planeta e a resiliência dos sistemas que garantem a vida no planeta.
De volta à publicação do WEF, a avaliação da relevância de cada um dos eventos ou condições considerou os seguintes parâmetros, seguindo o conceito de risco e agregando o conceito de mitigadores:
- Severidade – Análise da intensidade do impacto nos horizontes de 1, 2 ou 10 anos para ilustrar o desenvolvimento potencial dos riscos;
- Consequências – Análise dos impactos potenciais de novos riscos e as relações entre riscos globais e crises que podem acelerar-se rapidamente;
- Resposta ao risco e governança – Avaliação das condições atuais e futuras para gerir os riscos globais, bem como as oportunidades para construção de resiliência baseadas em ação global e colaboração.
Os riscos em curto prazo (horizonte de dois anos) ainda consideram 5 parâmetros relacionados aos sistemas naturais como cruciais, visto que carregam em si o potencial de gerar novas crises políticas, sociais, econômicos e ecológicas de difícil enfrentamento.
Ao analisar os riscos de longo prazo, dentre os cinco primeiros parâmetros encontram-se a incapacidade de mitigar os efeitos, que tem sido evidente pelas políticas de produção de energia a partir de combustíveis fósseis (novas usinas de carvão, novos poços de petróleo, foco em consumo cada vez maior, maior afluência, mais população e mais tecnologias de exploração de recursos), capacidade limitada, mesmo em países desenvolvidos, em enfrentar eventos extremos.
Outros dois parâmetros entram dentre os dez, com foco em colapso de recursos ecossistêmicos pela exploração além da capacidade de regeneração de sistemas ecológicos, as crises de acesso e uso de recursos naturais, além dos danos ambientais causados por grandes projetos de exploração de recursos que trazem em si a degradação de ecossistemas naturais.
Uma novidade do relatório deste ano são a divisão de riscos entre curto, médio e longo prazo e a categorização de acordo com a intensidade. Os riscos claros e presentes sob impacto das doenças infecciosas (especialmente COVID-19), as crises que geram refugiados em grande escala, os riscos com potencial de potencializar outros riscos e os riscos existenciais, que comprometem a vida humana na Terra.
Os demais riscos tem um alto componente de degradação social, tais como os confrontos armados por parte de grandes potenciais com acesso a armas de destruição em massa, a deterioração das condições políticas e sociais locais causando crises de migração, com a consequente resposta das sociedades em permitir ou barrar a entrada de emigrantes em seu território.
Muitas destas crises serão intensificadas nos próximos 10 anos pela exploração dos recursos ecológicos além da capacidade de regeneração de ecossistemas, um exemplo claro são os recursos pesqueiros comprometidos pelas tecnologias de exploração, sem a adequada necessidade de período de recuperação, a destruição de florestas tropicais para dar origem a insumos importantes para a alimentação da crescente população humana, a destruição de ecossistemas marinhos para alimentar a população com renda ascendente que exige acesso a mais proteína animal, seja sua origem natural ou produzida em fazendas.

Os impactos seguem a identidade IPAT, conceito estabelecido e estudado no âmbito da Economia Ecológica, onde o Impacto de determinado processo econômico é diretamente proporcional à População multiplicada pela Afluência (padrões de consumo e acesso a produtos) multiplicada pelas tecnologias que viabilizam a extração de recursos da natureza.
Deste modo, e considerando o aumento do impacto sobre os recursos naturais e processos ecológicos, a percepção mais comum é de que os riscos ecossistêmicos tem uma maior probabilidade de ocorrer com uma maior escala potencial de impactos exigindo, portanto, políticas e estratégias efetivas e de larga escala para aumentar a resiliência dos sistemas.
Um ponto importante a ressaltar-se é que o impacto dentro de um sistema não é isolado, ele promove outros impactos sociais, econômicos, políticos, dentre outros, com os feedbacks positivos ou negativos que intensificam ou amenizam os efeitos, portanto nao devem ser analisados de forma isolada.
A parte dos mitigadores, que no Relatório se chama de governança e resposta ao risco, é crucial para que haja gestão dos indicadores estratégicos para aumentar a resiliência da população humana aos riscos existenciais presentes.
A estruturação de modelos para recuperar ecossistemas, promover inclusão e equidade e aumentar a capacidade de adaptação são tarefas gigantescas para um mundo que não consegue gerenciar crises e guerras e onde modelos de desinformação proliferam nos processos políticos.
Um risco acessório, porém tão importante quanto, é que os modelos de desinformação gerem políticos isolacionistas e negacionistas em relação à intensidade das mudanças e à probabilidade crescente da materialização destes riscos, gerando políticas e estratégias inadequadas e insuficientes para gerar a resposta esperada de aumento da resiliência.
Políticas e estratégias baseadas em premissas inadequadas surgidas da deficiência de percepção política em instituições públicas e privadas potencializam os impactos negativos da materialização dos riscos, como foi observado no episódio do enfrentamento da crise gerada pela epidemia da COVID-19.



