Relatório “State of Green Business 2014” – Material essencial para quem pensa e implementa a sustentabilidade

O relatório “State of Green Business” é elaborado pelo GreenBiz Group, instituição norte-americana que monitora e mede as iniciativas de mercado com relação à implementação de conceitos de sustentabilidade nas atividades de empresas. Anualmente mostram tendências e novas iniciativas adotadas por empresas dos mais diversos setores, com informações, dados e estatísticas. O relatório de 2014 aponta várias tendências de futuro em dez principais domínios.

1. A colaboração torna-se um acelerador da incorporação da sustentabilidade às estratégias das empresas. A definição de padrões mais estritos de produção para os fornecedores de insumos para grandes empresas passa a ser uma tendência, com o surgimento de diversas iniciativas visando qualificar e certificar os fornecedores. Alianças estratégicas, com parcerias operacionais ou financeiras para desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis, são tendências que também aparecem em sustentabilidade.

2. Transparência no uso de produtos químicos, visto que muito do que é colocado no mercado não foi testado sob o ponto de vista dos seus impactos sobre plantas e animais. Nos EUA, por exemplo, o relatório aponta que existem 85.000 produtos no mercado e aproximadamente 45% dos químicos produtos em grandes volumes não foram testados adequadamente sob o ponto de vista toxicológico. A resposta de algumas empresas tem sido desenvolver produtos químicos em resposta às regulações mais restritas e o uso de análise de ciclo de vida para compostos substitutos aos mais impactantes.

3. A emergência da disponibilidade de água como um fator de risco refere-se ao crescente uso combinado com a crescente escassez, com potencial para atingir a atividade das empresas e reduzir ou parar de produzir resultados positivos. Os riscos frequentemente estão distribuidos em três principais temas: o risco físico, relacionado à quantidade e qualidade de água disponíveis onde e quando necessários, o risco regulatório, que refere-se à capacidade da empresa em ajustar-se aos valores econômicos da água e da alocação de água e os riscos reputacionais, que referem-se à relação com os demais usuários (Um parêntesis é necessário aqui: A Política Nacional de Recursos Hídricos já aborda estes temas, explícitos no corpo da lei). Estas três restrições serão cada vez mais consideradas na gestão de recursos hídricos e as empresas serão instadas a quantificar também seu uso de água e adotar procedimentos para reduzir seu uso e aumentar a eficiência, lembrando que o Brasil, por ser uma potência agropecuária, será cobrado também pela pegada hídrica de seus produtos.

4. A atribuição de valor aos impactos ambientais, com a incorporação das externalidades ambientais ao preço do produto, é uma outra tendência apontada pelo estudo. A incorporação do valor do carbono aos produtos pode ser uma tendência, baseada na disposição de grandes conglomerados globais em quantificar e precificar as emissões e posteriormente promover a compensação. Ao atribuir o valor aos impactos ambientais gerados por empreendimentos os balanços das empresas podem mudar, visto que o consumo de recursos naturais renováveis ou não renováveis alterariam a viabilidade e o retorno dos empreendimentos e seriam analisados pela sua capacidade de gerar retorno sustentável sob o ponto de vista da sociedade e do ambiente.

5. A maior preocupação com as pessoas também emerge da atividade das empresas. A responsabilidade com relação ao bem estar das comunidades e a necessidade de melhorar os padrões de vida tem sido incorporadas às atividades das empresas para gerar o que já foi chamado de “licença” para existir. Criar valor não somente para os acionistas, mas para aqueles que dependem dos recursos que as empresas usam para gerar lucros. As condições de trabalho em países emergentes, por exemplo, tem sido utilizadas para escolha de fornecedores, numa abordagem mais integrada do impacto que uma empresa pode ter sobre outros espaços territoriais. Ver o todo ao invés de preocupar-se apenas com seus resultados e seus acionistas é uma evolução significativa das operações das empresas.

6. A produção de alimentos também precisa ser abordada. Cerca de 40% do planeta é utilizado para gerar alimentos e as questões ambientais e sociais geradas pelas atividades econômicas associadas a estas cadeias serão objeto de análise cada vez mais criterioso. A UNEP estima que 25% da capacidade de produção total de alimentos pode ser perdida em 2050 devido aos impactos das mudanças climáticas e o outro problema que se impõe é a interseção entre produção de energia, alimentos e uso da água, com alto potencial para tornar-se um fator limitante do incremento da qualidade de vida. Em 2030 serão necessários 50% mais alimentos, 40% mais energia e 30% mais água para sustentar a população humana, considerando os padrões e disponibilidades atuais de recursos. O aumento de eficiência é premente e os três temas interligados apresentam as maiores oportunidades de inovação, em virtude do risco que apresentam. Em números de 2014, a FAO estima que 30% dos alimentos produzidos anualmente são perdidos e o custo do desperdício chega a US$ 750 bilhões. A pressão de consumidores pode alterar significativamente o modo como são produzidos, processados, distribuidos, vendidos e consumidos os alimentos e os grandes distribuidores de alimentos, como o Walmart e Carrefour, estão usando seu poder de pressão para promover maior eficiência e sustentabilidade em seus fornecedores.

7. O engajamento de colaboradores também tem aparecido como tendência no relatório e este engajamento promove a mudança dos sistemas de gestão ambiental na empresa. A dedicação à formação em sustentabilidade e a necessidade de melhoria contínua dos padrões de produção para competir no mercado tem sido apontados como responsáveis na mudança da cultura interna.

8. Os acumuladores de energia renovável tem sido apontados também como um avanço tecnológico crucial e tem tido a liderança da China, em virtude dos alarmantes níveis de poluição no país, e do Japão, em virtude da necessidade de reduzir a exposição ao risco da energia nuclear. A possível evolução é a geração de energia em cada edifício, reduzindo a necessidade de grandes plantas geradoras.

9. As cidades respondem por 70% do GDP, consomem 75% dos recursos mundiais e 70% da energia. Em 2050, 70% da população global morará nelas. Os desafios de mobilidade são imensos e necessitam de evolução crescente. A gestão de resíduos, a escassez de água, a descarbonização da geração de eletricidade, a eficiência no uso de recursos e a mobilidade são questões urgentes que necessitarão de respostas inovadoras. Está chegando a era das cidades inteligentes.

10. Os edifícios e empresas começam a investir em geração descentralizada de energia, buscando reduzir seus custos de compra de energia das redes. A certificação das edificações LEED promove os critérios para análise de edifícios sustentáveis com relação à gestão de energia, água e resíduos, bem como influi na política de fornecedores das empresas. O movimento denominado “net positive” nos EUA visa tornar as empresas como ambientalmente positivas e não somente redutoras de impactos e vem sendo abraçado por gigantes como a BT, Coca-Cola, Capgemini, dentre outras.

Estas dez iniciativas foram citadas no relatório. Não há nada de muito novo, porém vê-se que cada vez mais há uma valorização da sustentabilidade nas cadeias de fornecedores e que as pressões de consumidores e grandes empresas consideradas pontos de convergência de redes serão cruciais para o movimento da sustentabilidade. Estas empresas podem ser consideradas as “espécies-chave” do ecossistema de negócios, gerando uma dinâmica positiva na incorporação de políticas e práticas mais avançadas de gestão da sustentabilidade.

Outro ponto importante a enfatizar é a incorporação crescente das externalidades ambientais ao balanço das empresas. Ao atribuir valor às externalidades, elas podem ser incorporadas ao valor dos produtos e podem ser, deste modo, gerenciadas. A determinação do valor do carbono e das consequências negativas nas cadeias produtivas, por exemplo, pode alterar o valor de mercado de determinados produtos e tornar competitivos produtos mais sustentáveis. Do mesmo modo, ao atribuir-se o valor da água aos produtos pode-se ter uma ideia bem mais precisa do custo ambiental da produção, gerando ações para redução de impactos na cadeia produtiva.

A vida nas cidades também deve mudar, com os impactos sobre a gestão de resíduos, a coleta e tratamento de esgotos, a mobilidade urbana e a eficiência no uso de energia ganhando cada vez mais força. Nada que já não tenha sido apontado no relatório Green Economy, da UNEP, que já foi destrinchado neste blog anteriormente. A grande roda da história está girando e precisamos embarcar nela.

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  1. Pingback: State of Green Business 2019 – Sustentabilidade em ação

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