Comentários sobre o relatório do IPCC

O jornal The New York Times publicou em janeiro de 2014 uma opinião sobre o relatório do IPCC sobre as mudanças climáticas que traz para a reflexão alguns pontos que muitas vezes são subavaliados (aqui).

Alguns deles tem sido bastante debatidos e foram já objeto de alguns posts no blog. Um deles é o conceito de decoupling, ou descolamento do volume de emissões do crescimento econômico, tese bastante aceita como indicador de sucesso na redução de emissões de gases de efeito estufa. O jornalista destaca que as emissões per capita reduziram nos países desenvolvidos nos últimos 20 anos justamente porque as atividades industriais mais poluentes foram enviadas para os países em desenvolvimento, como a China. Consequentemente, por haver enviado seus processos mais poluentes, muitos dos problemas associados com a queima de combustíveis fósseis em países em desenvolvimento para sustentar seus processos industriais está associada aos padrões de consumo de países desenvolvidos, lógico. Primeiro ponto.

Outro ponto: a mudança de foco está em curso. Em vez de investir em mitigação de emissões, infelizmente o equivalente ambiental a enxugar gelo, visto os indicadores de produção de resíduos e de emissões, os países deverão investir em adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Adaptação significa obras de engenharia mais caras para manter o oceano fora das ruas das cidades, seguros mais caros para patrimônio. Este é ponto importantíssimo, visto que o Protocolo de Quioto preconizava que a mitigação era urgente e que os países em desenvolvimento poderiam receber para manter suas florestas intactas ou adotar novas tecnologias. A nova abordagem, simplificando, imputaria mais responsabilidades também aos países em desenvolvimento, ao dizer claramente que todos deverão cuidar de suas adaptações. Para mim, tendo em vista esta mudança de foco, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e a Implementação Conjunta estarão praticamente mortos.

Há mais, e para mim um sinal claro de que há muito discurso e pouca ação no tema, em suma, o tal do greenwashing. Vários países investiam numa posição passiva e vitimizante de que não poderiam matar suas economias reduzindo emissões e que deveriam receber dinheiro dos países desenvolvidos para mudarem suas matrizes energéticas. Não parece que vá acontecer. Como exemplo, vejamos o Brasil: com orgulho de sua matriz limpa, investirá bilhões e bilhões de reais em tirar petróleo (e portanto carbono) do fundo do oceano, com todos os riscos ambientais associados, e ainda vai querer se afirmar como um “campeão da sustentabilidade”? Só com muita propaganda na televisão para alguém acreditar nisso…

Será realmente milagroso conseguir extrair um novo acordo climático com todos os países assumindo responsabilidades por reduzir suas emissões, apesar dos avanços nas legislações locais sobre o tema. O velho discurso da dicotomia ambiente x economia parece estar dando lugar a mais cooperação, porém não se sabe se em ritmo suficiente para evitar as consequências possivelmente catastróficas para as populações no futuro próximo.

Enquanto isso, as empresas continuam fazendo seus relatórios de sustentabilidade, seus executivos continuam viajando para visitar os encontros das Nações Unidas e tirar fotos com personalidades internacionais, e o planeta continua enfrentando mudanças climáticas cada vez mais intensas e com cada vez mais perda de vidas e patrimônio.

Precisamos acelerar a transição da sociedade para menos consumo, numa vertente de mudança de comportamento, e mais eficiência, com mais investimento em tecnologias limpas.

Sobre Marcio Gama

O cérebro é nossa maior especialização e nos faz humanos e complexos, capazes de pensar, gerir riscos e planejar o futuro. Nos adaptamos a todos os ambientes conhecidos e aprendemos a utilizar os recursos para nossa sobrevivência. Nesta caminhada, aprendemos a nos adaptar. Tentamos resolver os problemas que criamos e esta é a parte da nossa caminhada neste planeta, o único que temos. Sou Biólogo, Mestre em Planejamento e Gestão Ambiental e Especialista em Gerenciamento de Projetos e as análises que faço aqui refletem a minha visão sobre o tema, balizada em artigos científicos e informações de fonte fidedigna e relevantes. Espero que curtam os textos.
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