Cúpula do Clima

Acontecerá em 23 de setembro de 2014 na sede da ONU a Cúpula do Clima, onde representantes de governos, empresas e sociedade civil estarão reunidos para apresentar políticas e ações efetivas para redução dos efeitos e impactos das mudanças climáticas sobre as populações e o planeta.

Como costuma acontecer, diversos relatórios tem sido emitidos por diversas instituições (think tanks ambientais) com dados, informações e propostas de ação, visando dotar as instituições de informações relevantes e com alto potencial de transformação em ação.

Um destes relatórios foi lançado pela Comissão Global em Economia e Clima, composta por ex-presidentes e ministros da economia de diversos países, dentre eles o WRI (World Resources Institute) e os pesquisadores Nicholas Stern, cujo trabalho já foi analisado no blog, e Felipe Calderón, ex-primeiro ministro da Espanha.
Como já bem detalhado por aqui, um dos princípios para políticas e planos específicos em sustentabilidade é que seja considerado prioridade política, esteja na ordem do dia e que os decisores estejam capacitados para transformar tais informações em ação.

Neste relatório “Better Growth, Better Climate” são relacionados 10 pontos para um Plano de Ação Global, cujo objetivo seria incorporar a questão do carbono de forma definitiva nos processos de tomada de decisão.
Os 10 pontos sugeridos são:

1. Direcionar os esforços para uma economia de baixo carbono, com novas políticas e projetos, indicadores de desempenho, modelos de risco e de reporte;
2. Discutir e assinar um novo acordo climático global, envolvendo países em desenvolvimento e sinalizando fortemente para investidores sobre os impactos das mudanças climáticas;
3. Eliminar subsídios para combustíveis fósseis e incrementar a eficiência do uso de recursos;
4. Introduzir preços para o carbono que funcionem como feedbacks para o sistema econômico;
5. Reduzir os custos de capital para investimentos em infraestrutura de baixo carbono;
6. Promover a inovação com tecnologias de baixo carbono e promotoras de resiliência;
7. Fomentar o crescimento urbano planejado e priorizar investimentos em mobilidade;
8. Parar o desflorestamento até 2030, promovendo a conservação;
9. Restaurar pelo menos 500 milhões de hectares de florestas perdidas ou degradadas pelo uso até 2030;
10. Acelerar a adoção de tecnologias limpas para a produção de energia.

Ora, pelo que lemos, dos 10 pontos elencados, vários deles estão presentes nos documentos da ONU há mais de 20 anos, desde a Eco’92. Creio, portanto, que o problema é estabelecer prioridade política com os atuais políticos e empresários e ONGs para tais assuntos. Como bem evidenciou Le Preste, em seu livro Ecopolítica, precisamos de tomadores de decisão (não gosto deste termo, mas enfim, este hierarquismo está presente no mundo) de qualidade, com formação que permita compreender a complexidade e a interconexão dos temas sustentabilidade, mudanças climáticas, saúde pública, infraestrutura, financiamento, educação e economia.

Isso, no entanto, não parece enquadrar-se na situação de qualquer país no mundo. Nenhum político, nenhum empresário, nenhuma ONG mostrou ter qualidades sobrehumanas ou sobrenaturais que os permitam gerir a complexidade deste mundo. Mesmo a criação de prioridade política obedece a outros critérios que não a sustentabilidade em longo prazo, estando atrelada a fatores mais prosaicos, como doação para partidos, políticos e eleições. Há um claro déficit de “liderança” nestes temas.

Um exemplo claro ocorre nas nossas eleições. Temos candidatos defendendo a intensificação da exploração de combustíveis fósseis num mundo que discute o pós-carbono, novas tecnologias como a captura e estocagem de carbono no subsolo, biotecnologia aplicada à produção de biocombustíveis e mobilidade urbana sustentável. Para cada um destes grandes temas, o Brasil dá um ou vários passos atrás. Investe em pré-sal, cana-de-açúcar, biodiesel de soja (!), expansão de financiamento dos carros privados.

Me parece claro que o caminho a seguir não é este. Para ficar somente nos conceitos relacionados aos sistemas complexos, temos diversas informações (feedbacks) de que o ambiente está mudando e de que nossas especializações para ocupar estes nichos serão desnecessárias e pouco tempo. Num ecossistema, numa cadeia alimentar, o indivíduo que não percebe os sinais tende à extinção. Estamos nos especializando em atitudes que podem evoluir para a extinção da importância do país em termos globais.

Sobre Marcio Gama

O cérebro é nossa maior especialização e nos faz humanos e complexos, capazes de pensar, gerir riscos e planejar o futuro. Nos adaptamos a todos os ambientes conhecidos e aprendemos a utilizar os recursos para nossa sobrevivência. Nesta caminhada, aprendemos a nos adaptar. Tentamos resolver os problemas que criamos e esta é a parte da nossa caminhada neste planeta, o único que temos. Sou Biólogo, Mestre em Planejamento e Gestão Ambiental e Especialista em Gerenciamento de Projetos e as análises que faço aqui refletem a minha visão sobre o tema, balizada em artigos científicos e informações de fonte fidedigna e relevantes. Espero que curtam os textos.
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