Sustentabilidade em sistemas produtivos – Pesca

Os desafios de implementação da sustentabilidade nos sistemas produtivos são gigantescos. Considerando que teremos aproximadamente 9,5 bilhões de pessoas em 2050, como conciliar os resultados de segurança alimentar, saúde de ecossistemas e bem estar social com as pressões sobre estes sistemas?

O conceito de economia verde pode sinalizar este caminho: enfrentar os desafios da degradação ambiental acelerada, a segurança dos recursos naturais, com a geração de empregos e manutenção da competitividade parece uma equação sem solução. Enfatizar o desenvolvimento econômico com eficiência no uso de recursos, dentro de limites ambientais e equidade, com resultados econômicos, sociais e ambientais exigirão um esforço institucional considerável.

No caso estudado pela União Europeia em relação à pesca são citados diversas iniciativas em gestão ambiental pública e privada para o estabelecimento de uma pesca sustentável, em quatro áreas diferentes:

  1. Conhecimento e inovação 
  2. Mercados e comércio 
  3. Atores e sociedade
  4. Governança e investimentos

O conhecimento e inovação refere-se à necessidade de produzir conhecimento relevante para influenciar a tomada de decisão pelo ente regulador, criar uma cultura de consumo sustentável e gerir de forma mais eficiente os recursos pesqueiros globais, sejam o de pesca extrativa e o de aquicultura.

A regulação dos mercados e comércio refere-se à necessidade de premiar os produtores sustentáveis, incrementar o uso de certificações para produtos baseadas em informações científicas relevantes sobre os estoques existentes para explora-los dentro da capacidade ecológica de suporte e promover o comportamento de consumo consciente.

A ação sobre os atores e a sociedade demanda que mais informação flua dentre os componentes em processo de aprendizagem contínua e em processo adaptativo, ou seja, considerando as flutuações nos estoques pesqueiros, o equilíbrio dinâmico aos quais os sistemas ecológicos estão submetidos e as consequências da gestão destes processos adaptativos para que a sociedade tome decisões informadas e relevantes, que não a levem ao colapso de recursos.

A governança e investimentos refere-se à necessidade de utilizar metas factíveis e respaldadas na realidade e na ciência para estabelecer limites. Os responsáveis pelo design de políticas devem estar capacitados para decidir sobre metas e entender a importância de tais decisões, mesmo que afetem interesses locais estabelecidos. E os investimentos necessitam ser direcionados para a recuperação das condições ecossistêmicas que asseguram a perenidade da produção.

É importante destacar que o trabalho considera crucial a rastreabilidade do produto pelos grandes varejistas e seus fornecedores, numa lógica de Life cycle thinking conjugada com a de sustentabilidade na cadeia de fornecimento (que lembra a lógica das ilhas ou clusters de sustentabilidade publicadas há duas semanas). Neste movimento é importante que o consumidor também se informe de forma qualificada sobre como o alimento chega à sua mesa.

Outras considerações, no entanto, precisam entrar nesta equação. Há uma deterioração progressiva das zonas costeiras em função da poluição industrial, dos nutrientes lixiviados pela produção agricola e pelos esgotos domésticos que afetam diretamente os ecossistemas marinhos e de água doce.

Alguns futurólogos estimam que os oceanos morrerão até 2050, perdendo sua capacidade produtiva em virtude da desconexão entre as necessidades ecológicas e necessidades econômicas e sociais, causada pelos danos irreversíveis, de larga escala e persistentes.

Consideradas as tendências realmente observadas de mudanças climáticas, as necessidades de planejamento e implementação de projetos de saneamento ambiental e o incipiente investimento em infraestrutura verde, é de preocupar-se com o tipo de cenário que aparece no futuro para os mares e oceanos, bem como para a gestão de recursos hídricos, que afeta diretamente a produção de recursos pesqueiros.

Apesar do trabalho de alta qualidade e propositivo da união europeia, entendo que não se deve desprezar o potencial do ser humano em tomar decisões que privilegiam o curto prazo e que muitas vezes as evidências científicas claras ficam submetidas às agendas políticas não tão claras e de horizonte temporal restrito.

Necessita-se de maior celeridade em transferir tecnologia e conhecimento, em qualificar os decisores públicos e em enfrentar por vezes grupos com forte influência política cujos interesses de curto prazo tendem a inviabilizar as possibilidades de sucesso no médio e longo prazo, como costuma ser o caso em questões ambientais críticas.

É necessário mais do que urgentemente que reconheçamos e utilizemos o conceito de sistema econômico como subconjunto do sistema ecológico, promovendo a necessária visão dos limites do sistema ecológico como fonte e sumidouro aos limites da produção. O trabalho sobre a pesca demonstra esta visão.

Sobre Marcio Gama

O cérebro é nossa maior especialização e nos faz humanos e complexos, capazes de pensar, gerir riscos e planejar o futuro. Nos adaptamos a todos os ambientes conhecidos e aprendemos a utilizar os recursos para nossa sobrevivência. Nesta caminhada, aprendemos a nos adaptar. Tentamos resolver os problemas que criamos e esta é a parte da nossa caminhada neste planeta, o único que temos. Sou Biólogo, Mestre em Planejamento e Gestão Ambiental e Especialista em Gerenciamento de Projetos e as análises que faço aqui refletem a minha visão sobre o tema, balizada em artigos científicos e informações de fonte fidedigna e relevantes. Espero que curtam os textos.
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