Paradoxos entre discurso e práticas – Greenwashing estatal na política de energia

Aparentemente teremos que expandir o conceito do greenwashing não somente para empresas, mas também para os governos. O Brasil pretende ser líder em questões ambientais e sustentabilidade. Orgulha-se de ter a matriz energética limpa, com mais de 70% da energia gerada em hidrelétricas (vamos desconsiderar os impactos ambientais sobre a biodiversidade, visto que “não tem valor econômico”). Orgulha-se de ter o programa de produção de álcool de cana, muito bem.

E não é que o país que pretende a liderança em questões relacionadas à sustentabilidade, ou se acha no direito de cobrar metas dos demais países e apontar o dedo acusador para os demais países do mundo, está querendo investir em gás natural oriundo de fracking? E não é que estamos importando o péssimo etanol de milho, que tem um custo ambiental e social altíssimo, em virtude do uso alimentar do milho concorrer com o do etanol?

Além disso, já iniciamos a exploração do petróleo do pré-sal, a mais de 4000 metros de profundidade, com os riscos tradicionais relacionados à exploração em águas profundas (a plataforma da British Petroleum no golfo do México demonstra bem quais riscos existem na exploração deste recurso) e a dificuldade de estancar qualquer vazamento de grande porte nesta profundidade, com as condições de pressão e temperatura desfavoráveis, e ainda no Atlântico Sul, berço e local de biodiversidade marinha.

Ora, quando se discute cada vez mais os efeitos das mudanças climáticas no planeta, causadas pelas atividades econômicas e alimentadas pelo consumo de combustíveis fósseis, vemos que a miopia do Estado reforça um modelo energético que já demonstrou ter chegado ao limite, apesar de reconhecer que precisamos diversificar a matriz de energia para evitar novos “apagões”, cada vez mais prováveis.

Não são pequenos os desafios ambientais do país. Já temos que avançar em saneamento básico, em gestão de resíduos sólidos, em gestão de recursos hídricos, em educação ambiental, em sistemas de gestão de indicadores ambientais, em mobilidade urbana, em gestão de florestas e ainda assim investimos em emissões de gases de efeito estufa? Onde está a racionalidade? São só os valores dos contratos que contam?

Concluo, infelizmente, que em matéria ambiental o Estado brasileiro está chegando à década de 1970 e praticando escancaradamente o greenwashing. Vendendo uma imagem de vestal e defensor do meio ambiente no exterior e deixando as condições ambientais do Brasil deteriorando-se a olhos vistos. É só observar os instrumentos previstos nas leis ambientais, muito boas na teoria e pouquíssimo aplicadas, que podemos concluir que não há gestão ambiental pública com eficiência no Brasil, apesar dos esforços das áreas técnicas dos órgãos ambientais.

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